Psicoterapia nas disfunções sexuais: Evolução das intervenções psicoterapêuticas
Ver também
- Psicoterapia nas disfunções sexuais: Aspectos introdutórios
- Fatores predisponentes, desencadeantes e mantenedores das disfunções sexuais
- Avaliação do paciente com disfunções sexuais
- Objetivos do tratamento para disfunções sexuais
- Estratégias psicoterapêuticas para disfunções sexuais
- Terapia sexual de base cognitivo-comportamental
- Intervenções cognitivas na terapia sexual
- Intervenções sistêmicas na terapia sexual
- Terapia psicanalítica
- Psicoterapia de grupo tematizada e de tempo limitado
- Mindfulness
- Terapia sexual via internet
- Combinação de tratamento médico e psicológico
- Terapia sexual para disfunções sexuais masculinas
- Terapia sexual para disfunções sexuais femininas
- Evidências de eficácia das intervenções psicoterápicas
Terapias de base psicanalítica
Do início do século XX até a década de 1960, as disfunções sexuais foram tratadas predominantemente por terapias de base psicanalítica, para as quais os problemas sexuais se originavam de situações não resolvidas que remontavam à infância.
O tratamento era focado em esclarecer conflitos intrapsíquicos, muitas vezes inconscientes, determinantes do bloqueio do funcionamento sexual saudável. Portanto, os sintomas não eram abordados diretamente, e a psicoterapia era de longo prazo.
Terapia sexual (de Masters e Johnson)
Em 1970, Masters e Johnson introduziram um método de tratamento breve para as disfunções sexuais, inaugurando uma nova área de estudo e clínica, que passou a ser conhecida como terapia sexual.1 Esta, por sua vez, era diretiva, focada em problemas e usava predominantemente uma perspectiva comportamental.
Essa perspectiva considera que as reações emocionais e os comportamentos são aprendidos, em vez de enraizados em conflitos infantis inconscientes.
Consequentemente, é possível ajudar os pacientes a compreender como a alteração de comportamento pode significar adaptação.
Assim, os comportamentos sexuais que suscitam reações de ansiedade podem ser substituídos por comportamentos sexuais (prescritos pelo terapeuta sob a forma de exercícios sexuais direcionados) que resultam em experiências prazerosas.
Terapia sexual (de Helen Kaplan)
Nos anos de 1970, Helen Kaplan apresentou sua versão da terapia sexual, que combinava o modelo psicanalítico tradicional e o modelo comportamental contemporâneo: quando a abordagem do problema sexual com as intervenções comportamentais resultasse positiva, a terapia terminaria.
No entanto, quando essa abordagem falhasse no resultado esperado, o manejo psicanalítico seria empregado na sequência.2,3
Modelo cognitivo-comportamental (de Barlow)
No final do século XX, com base em dados empíricos, Barlow levantou a hipótese de que cognições de distração (pensamentos) interagem com emoções negativas (p. ex., ansiedade) para o desenvolvimento das disfunções sexuais.4
Segundo ele, a disfunção sexual resultaria, em parte, do foco de atenção sobre pensamentos e desfechos negativos relacionados ao próprio desempenho.
Então, os terapeutas comportamentais passaram a compreender melhor as dificuldades do paciente, ao avaliarem o papel dos pensamentos conscientes, e não apenas o comportamento em si.
Essa combinação de disciplinas ensejou a terapia cognitivo-comportamental (TCC), que, no tratamento das disfunções sexuais, ajuda os pacientes a desafiar suas expectativas não realistas sobre a sexualidade e, ao mesmo tempo, a iniciar mudanças comportamentais que conduzam a uma maior satisfação sexual.
É pressuposto subjacente à perspectiva cognitiva da terapia sexual que o comportamento sexual é influenciado pelas percepções e crenças sobre ele.
Terapia sexual sistêmica (de Weeks)
Durante a década de 1980, outro modelo de psicoterapia, conhecido como sistêmica, deslocou o foco da terapia sexual do paciente para o relacionamento, considerando que o problema sexual não pode ser efetivamente tratado caso se concentre apenas em um dos parceiros, visto que as dificuldades sexuais dizem respeito ao casal.5
A terapia sexual sistêmica, concebida por Weeks, baseia-se em dinâmicas interpessoais e padrões de interação com os outros, a fim de tratar as disfunções sexuais de maneira eficaz.
O foco da atenção do tratamento é a relação entre os parceiros, e não as características individuais.
Terapia combinada: psicoterapia e farmacoterapia
Em 1998, com o advento dos inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (PDE-5), os quais são agentes eficazes e seguros para o tratamento da disfunção erétil, vários especialistas em medicina sexual passaram a defender uma terapia combinada, que contemplasse questões biológicas/médicas e psicossociais, as quais influenciam a função sexual.
Intervenções farmacológicas e psicoterápicas passaram, em muitos casos, a complementar-se mutuamente, para um tratamento mais eficiente.6
A terapia sexual hoje
Na atualidade, a terapia sexual é uma forma específica de psicoterapia que associa intervenções cognitivo-comportamentais, sistêmicas/de casal e, algumas vezes, psicanalíticas.
Essas intervenções são frequentemente combinadas com tratamento medicamentoso, em uma perspectiva biopsicossocial.
O objetivo do tratamento é a recuperação da função sexual.
Resumo da evolução do tratamento psicoterápico
A Tabela 1 resume a evolução do tratamento psicoterápico para as disfunções sexuais.
TABELA 1 | EVOLUÇÃO DO TRATAMENTO PSICOTERÁPICO PARA AS DISFUNÇÕES SEXUAIS | |
PERÍODO | TIPO DE ABORDAGEM |
Até a década de 1960 | Terapia de base psicanalítica |
1970 | Masters e Johnson: pioneiros na terapia sexual de base comportamental |
Década de 1970 | Kaplan: combina modelo psicanalítico tradicional e modelo comportamental contemporâneo |
Década de 1980 | Barlow: propõe modelo cognitivo-comportamental |
Década de 1980 | Weeks: desenvolve modelo de terapia sexual sistêmica |
A partir de 1998 | Abordagem biopsicossocial: associa intervenções cognitivo-comportamentais, sistêmicas/de casal e psicanalíticas, frequentemente combinadas com tratamento medicamentoso |
O passado e o futuro da terapia sexual
Os estudos sobre resultados da terapia sexual (anos 1970 e 1980) foram questionados devido a:
- Restrito tamanho de amostras.
- Não inclusão de grupos de controle.
- Não randomização dos sujeitos para diferentes condições.
- Falta de definições claras e de critérios diagnósticos para permitir a replicação.
- Não inclusão de avaliação de resultados em longo prazo.
- Falta de descrição adequada do método de terapia utilizado.
- Ausência de um manual para orientação das intervenções terapêuticas.
- Não utilização de questionários validados.7
É difícil combinar requisitos de pesquisa baseados em evidências para as psicoterapias, visto que a avaliação do sucesso em ensaios clínicos pode ser bastante diferente do êxito na terapia, mais preocupada com a melhora do prazer, da confiança sexual e da intimidade do que com a frequência sexual, o grau de rigidez da ereção ou o tempo de latência ejaculatória, por exemplo.
Apesar dessas limitações, a terapia sexual evoluiu, gerando pesquisas e inovações clínicas promissoras.
Após o advento dos inibidores da PDE-5, dada sua eficácia e segurança robustas, imaginou-se que a terapia sexual, pelo menos para homens com disfunção erétil, deixaria de fazer sentido. Esse não foi o caso. Mesmo quando um problema sexual, como disfunção erétil, é essencialmente de etiologia orgânica, a terapia sexual tem papel crítico no sucesso da intervenção médica.6
As áreas em que se concentram as inovações recentes no campo da terapia sexual são:
- A combinação de terapia sexual e farmacológica.
- A incorporação de técnicas de “atenção plena” para mulheres com queixas de baixo desejo sexual e baixa excitação.
- O uso da internet para intervenção psicoterapêutica.
- A reconceitualização dos transtornos de dor genital e respectivas intervenções para mulheres.6
Referências
Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.
- Masters W, Johnson V. Human sexual inadequacy. Boston: Little, Brown & Co; 1970.
- Kaplan HS. The new sex therapy. New York: Brunner; 1974.
- Kaplan HS. Disorders of sexual desire. New York: Brunner; 1979.
- Barlow D. Causes of sexual dysfunction: the role of anxiety and cognitive interference. J Consult Clin Psychol. 1986;54(2):140-8.
- Jurich JA, Myers-Bowman KS. Systems theory and its application to research on human sexuality. J Sex Res. 1998;35(1):72-87.
- Althof S. What’s new in sex therapy. J Sex Med. 2010;7(1):5-13.
- Heiman J, Meston C. Empirically validated treatment for sexual dysfunction. Annu Rev Sex Res. 1997;8:148-94.
Autores
Carmita H. N. Abdo