Psicoterapia nas disfunções sexuais: Avaliação do paciente
Ver também
- Psicoterapia nas disfunções sexuais: Aspectos introdutórios
- Evolução das intervenções psicoterapêuticas para disfunções sexuais
- Fatores predisponentes, desencadeantes e mantenedores das disfunções sexuais
- Objetivos do tratamento para disfunções sexuais
- Estratégias psicoterapêuticas para disfunções sexuais
- Terapia sexual de base cognitivo-comportamental
- Intervenções cognitivas na terapia sexual
- Intervenções sistêmicas na terapia sexual
- Terapia psicanalítica
- Psicoterapia de grupo tematizada e de tempo limitado
- Mindfulness
- Terapia sexual via internet
- Combinação de tratamento médico e psicológico
- Terapia sexual para disfunções sexuais masculinas
- Terapia sexual para disfunções sexuais femininas
- Evidências de eficácia das intervenções psicoterápicas
Investigação diagnóstica
A elucidação diagnóstica deve anteceder a intervenção, seja qual for o tipo de tratamento a ser administrado.
Investigar a disfunção exige avaliar a função sexual atual (inclusive sentimentos e receptividade), as comorbidades e os possíveis fatores causais e mantenedores. A partir desses parâmetros, os objetivos e o plano de tratamento devem ser definidos e comunicados ao paciente e a seu parceiro.1
Compreendendo o paciente
O ideal é ouvir o paciente individualmente, bem como com o parceiro. Esse procedimento explicita que a dificuldade sexual está sendo entendida como assunto do casal. Além disso, esse procedimento permite avaliar o grau de conflito entre os parceiros, a interação verbal/não verbal e os pontos de discordância.2
Entrevistas em separado com cada componente do casal (paciente e parceiro) são recomendadas, com o intuito de investigar possíveis relacionamentos extraconjugais, fantasias ou práticas sexuais alternativas (p. ex., sexo virtual), os quais podem estar contribuindo para a disfunção que motivou a busca por tratamento.1
A coleta dos dados de identificação inicia a investigação diagnóstica: idade, estado civil, grau de instrução, raça, religião, profissão, filhos e relacionamentos anteriores. Além de reconhecer possíveis focos de desentendimento, essa coleta serve para descontrair a entrevista, tornando-a menos “persecutória”.
A investigação diagnóstica deve avaliar a dificuldade sexual quanto a seu começo (desde a iniciação sexual ou após algum tempo de atividade sexual satisfatória), duração, frequência, satisfação sexual, gravidade e fases do ciclo de resposta sexual acometidas (desejo e/ou excitação e/ou orgasmo).3
As peculiaridades do relacionamento (quem inicia, de que se compõe o repertório sexual, fantasias sexuais) e o que deflagrou a dificuldade (p. ex., uso de medicamentos, novidade do relacionamento, perda de familiar, desemprego) devem ser investigados, bem como o impacto que representam para a função sexual do paciente, no momento de sua queixa.2
Fazem parte da história psicossexual: crenças, conceitos errôneos, repressões, preconceitos, experiências sexuais negativas, abuso físico e/ou emocional, violência doméstica e sexo não desejado. Esses fatores contribuem para o desenvolvimento de dificuldades sexuais.2
Como a resposta sexual é dependente do sistema nervoso central e periférico, endócrino e circulatório, de medicamentos e/ou de doenças que afetem esses sistemas, esses aspectos devem ser investigados.
Comorbidades psiquiátricas
As comorbidades psiquiátricas também devem compor o repertório de investigação, tanto no paciente quanto no parceiro (p. ex., depressão, ansiedade, pânico, fobia, psicoses, etc.), assim como o tipo de tratamento medicamentoso que está sendo administrado para esses quadros (vários são passíveis de provocar e/ou manter a disfunção sexual). Esclarecer ao paciente que esses efeitos sobre a esfera sexual são reversíveis é de extrema importância para consolidar a adesão ao tratamento psiquiátrico.1
Eventos estressantes da vida (p. ex., problemas financeiros, falecimento ou doença de um familiar ou amigo próximo, fadiga, filhos pequenos, etc.) devem ser pesquisados. As mulheres são, em geral, mais vulneráveis sexualmente do que os homens diante dessas situações.1
A insatisfação com aspectos não sexuais do relacionamento também pode contribuir para o desencadeamento e/ou a manutenção de disfunções sexuais. A qualidade geral do relacionamento é um fator preditivo da evolução da terapia sexual.4
Referências
Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.
- Abdo CHN. Abordagem psicoterápica das disfunções sexuais. In: Rhoden EL, Barros E, organizadores. Urologia no consultório. Porto Alegre: Artmed; 2009. p.441-55.
- Leiblum S, Wigel M. Psychotherapeutic interventions for treating female sexual dysfunction. World J Urol. 2002;20(2):127-36.
- Leiblum S, editor. Principles and practice of sex therapy. 4th ed. New York: Guilford; 2007.
- Hatzichristou D, Kirana PS, Banner L, Althof SE, Lonnee-Hoffmann RA, Dennerstein L, et al. Diagnosing sexual dysfunction in men and women: Sexual history taking and the role of symptom scales and questionnaires. J Sex Med. 2016;13(8):1166-82.
Autores
Carmita H. N. Abdo