Psicoterapia no transtorno de déficit de atenção/hiperatividade: Terapia cognitivo-comportamental e treinamento de pais e familiares
Ver também
- TDAH – Terapia cognitivo-comportamental
- TDAH/TCC – Técnicas cognitivas
- TDAH/TCC – Técnicas comportamentais
Programas de intervenção com pais
Os programas de intervenções com pais são reconhecidos como efetivos para prevenir e reduzir problemas de comportamento. É fundamental que a família assuma a responsabilidade para que o trabalho com crianças seja bem-sucedido.
Frequentemente, os pais desenvolvem estratégias mal-adaptativas e contraprodutivas para lidar com problemas decorrentes do TDAH. Estresse e psicopatologia parental (p. ex., baixa autoestima, depressão, etc.) influenciam a interação entre pais e filhos.1
Ao analisar a interação entre pais e filhos com TDAH, identifica-se um estilo parental mais coercitivo e aversivo,2 assim como um estilo de comunicação menos efetiva, com menor comprometimento nas tarefas de resolução de problemas,3 e comportamentos menos gratificantes dos pais com relação à criança.4 Respostas negativas prevalecem mais do que respostas positivas no manejo dos comportamentos.
As mães de crianças com TDAH apresentam um estilo disciplinar negligente, cedendo mais facilmente aos apelos, facilitando o descumprimento das regras e reforçando comportamentos inadequados.4 Essas mães costumam reagir com irritabilidade e raiva quando seus filhos não obedecem.
A importância de intervenções no meio familiar e escolar de crianças com TDAH é justificada pela possibilidade de melhora na qualidade de vida de todos os envolvidos.
Uma história de insucesso dos pais pode desestimular o uso de práticas parentais positivas e gerar um padrão coercitivo com práticas parentais severas. Assim, a maneira opositora como a criança reage a seus pais está relacionada a esse padrão excessivamente punitivo e de recompensa a comportamentos inadequados.5 Ocorre um ciclo repetitivo: punição, oposição da criança, punição, oposição da criança.
Além dos problemas desenvolvidos entre os pais e a criança, muitos casais também apresentam problemas conjugais. Segundo Barkley,1 pais de crianças com TDAH têm 3 vezes mais probabilidade de separação do que pais de crianças sem TDAH.
O treinamento de pais está orientado na teoria comportamental, seguindo os princípios do condicionamento operante, que se baseia no reforço positivo, segundo o qual todo comportamento adequado que é reforçado positivamente tem sua frequência aumentada.
Existem vários estudos que avaliam os programas de treinamento de pais. Entre eles, destacam-se o Incredible Years6 e o Triple P — Positive Parenting Program.7 O objetivo do Incredible Years Program, da University of Washington, em Seattle, nos Estados Unidos, é desenvolver habilidades nos pais, nos professores e nas crianças a partir de programas de tratamento e de prevenção universais com base na comunidade. Visa estimular a competência social, que, por sua vez, pode prevenir o desenvolvimento de problemas de conduta.
Para Young e Amarasinghe,8 a intervenção mais apropriada para crianças em idade pré-escolar é o treinamento de pais.
Para crianças em idade escolar com sintomas moderados, sugerem-se o treinamento parental em grupo e intervenções comportamentais na sala de aula.
Para crianças em idade escolar com TDAH grave, essas intervenções devem ser associadas ao uso de medicamentos psicoestimulantes.
Nos programas parentais, encontramos alguns elementos básicos, como reforço positivo, diminuição no uso das punições, desenvolvimento das habilidades de solução de problemas, entre outros.6
O treinamento de pais oportuniza experiências com o objetivo de proporcionar contingências favoráveis à aprendizagem de comportamentos divergentes com o padrão do TDAH.
Para Del Prette e Del Prette,9 é importante que os pais desenvolvam um conjunto de habilidades sociais educativas. Essas habilidades envolvem ações potencialmente eficazes que proporcionariam condições no ambiente da criança para a modificação do comportamento. O treinamento de pais ensinaria e estimularia essas ações específicas por meio do desenvolvimento de novas habilidades parentais: fornecer feedback positivo, dar atenção ao relato da criança, fazer elogios, organizar matérias de autoinstrução, negociar regras, promover a autoavaliação, resumir comportamentos e dar modelos.
Pais de crianças com TDAH também necessitam desenvolver habilidades pessoais consideradas essenciais para a interação social, como comunicação, civilidade e assertividade.
Referências
Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.
- Barkley RA. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade. Guia completo para pais, professores e profissionais de saúde. Porto Alegre: Artmed; 2002.
- Finzi-Dottan R, Manor I, Tyano S. ADHD, temperament, and parental style as predictors of the child’s attachment patterns. Child Psychiatry Hum Dev. 2006;37(2):103-14.
- Tripp G, Schaughency EA, Langlands R, Mouat K. Family interactions in children with and without ADHD. J Child Fam Stud. 2006;16(3):385-400.
- Johnson C, Mash EJ. Families of children with attention-deficit/hyperactivity disorder: Review and recommendations for future research. Clin Child Fam Psychol Rev. 2001;4(1):183-207.
- Sena SS, Neto OD. Distraído e a 1000 por hora: guia para familiares, educadores e portadores do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Porto Alegre: Artmed; 2007.
- Webster-Stratton C, Reid MJ, Hammond M. Treating children with early-onset conduct problems: Intervention outcomes for parent, child, and teacher training. J Clin Child Adolesc Psychol. 2004;33(1):105-24.
- Sanders MR, Markie-Dadds C, Tully LA, Bor W. The triple P-positive parenting program: a comparison of enhanced, standard and self-directed behavioral family intervention for parents of children with early onset conduct problems. J Consult Clin Psychol. 2000;64(4):624-40.
- Young S, Amarasinghe JM. Practitioner review: non-pharmacological treatments for ADHD: a lifespan approach. J Child Psychol Psychiatry. 2010;51(2):116-33.
- Del Prette ZAP, Del Prette A. Psicologia das habilidades sociais na infância: teoria e prática. Petrópolis: Vozes; 2005.
Autores
Katiane Silva
Liseane Carraro Lyszkowski
Luis Augusto Rohde
Eugenio Horacio Grevet