Psicoterapia nos transtornos da personalidade: Contratransferência na abordagem psicodinâmica

Psicoterapia nos transtornos da personalidade: Contratransferência na abordagem psicodinâmica

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Os três transtornos da personalidade (TPs) mais estudados e pesquisados na literatura são: esquizotípica, antissocial e borderline. Entre eles, o paciente com transtorno da personalidade borderline (TPB), apesar das dificuldades, é o que mais consegue se comprometer com os tratamentos e alcançar resultados mensuráveis em longo prazo.

Por isso, boa parte da literatura e da experiência clínica, inclusive a do autor, concentra-se nesse tipo de paciente. (Para uma discussão mais detalhada, ver Schestatsky.)1

Adaptar-se e desenvolver respostas terapêuticas adequadas às emoções intensas, frequentemente caóticas e dolorosas, despertadas pela interação com os pacientes com organização borderline da personalidade (OBP), constitui o principal desafio técnico das psicoterapias.

Isso não ocorre apenas nas terapias psicodinâmicas, pois as terapias cognitivas também já reconhecem a importância do fenômeno: Young e Klosko,2 por exemplo, introdutores da psicoterapia cognitiva dos esquemas, acentuam que os pacientes com TPs “apresentam sérias dificuldades de estabelecer e manter uma aliança terapêutica: dado que problemas interpessoais são centrais nesses pacientes, a própria relação terapêutica deve ser a arena principal do tratamento”.

Dependendo das intrincadas díades de relações objetais reproduzidas no campo terapêutico, o terapeuta pode ver-se exposto a contrastantes sentimentos de ódio, excitação, inveja, desejo, pena, horror, desespero, impotência, desamparo, incerteza, insegurança, pânico, desesperança, abandono e rejeição.

Além disso, pode sentir-se permanentemente pressionado a se conduzir de acordo com esses estados afetivos durante a interação com o paciente, o que pode motivar os frequentes impasses, interrupções, insucessos e atuações entre paciente e terapeuta durante as sessões.

Acesse aqui um Exemplo clínico

Considerações sobre o Exemplo clínico

O exemplo clínico ilustra parte das dificuldades de lidar com a chamada matriz transferencial-contratransferencial em pacientes com TPs, mais complicada ainda quando predominam traços paranoides, narcisistas e antissociais em suas personalidades.

O exemplo permite também a compreensão da necessidade do estabelecimento de limites no contrato terapêutico (no caso, a atuação de comportamentos muito agressivos) e a disposição de interromper os tratamentos quando isso não for possível.

Gabbard e Wilkinson3 listam outras reações comumente encontradas por parte dos terapeutas na prática clínica com esses pacientes:

  • Culpa por odiá-lo e desejar que vá embora.
  • Responsabilidade pelas pioras do paciente.
  • Fantasias de salvar e resgatar o paciente quando percebido como vítima desamparada, assim como pressão para fazer alguma coisa para aliviá-lo.
  • Raiva e ressentimento por se sentir usado ou manipulado.
  • Impotência, autodepreciação e fracasso porque o paciente não melhora ou abandona o tratamento.
  • Ansiedade de que o paciente vá se suicidar a qualquer momento.
  • Transgressões das fronteiras profissionais.

Referências

Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.

  1. Schestatsky SS. Abordagem psicodinâmica do paciente borderline. In: Eizirik CL, Aguiar RW, Schestatsky SS, editors. Psicoterapia de orientação analítica: fundamentos teóricos e clínicos. 2. ed. Porto Alegre: Artmed; 2005. p.606-27.
  2. Young J, Klosko J. Schema therapy. Textbook of personality disorders. Washington: American Psychiatric; 2005. p.289-306.
  3. Gabbard GO, Wilkinson SM. Management of countertransference with borderline patients. Washington: American Psychiatric; 1994.

Autores

Sidnei S. Schestatsky