Transtornos da personalidade – Contratransferência na abordagem psicodinâmica: Exemplo clínico
Uma paciente de 43 anos, com quadro depressivo crônico associado a transtorno da personalidade borderline (TPB), com traços paranoides proeminentes, apresentava história de ter sido brutalmente espancada durante a infância e a adolescência pelo pai alcoolista e violento. Revoltava-se com a omissão da mãe, fraca e assustada, por não ter se separado, deixando os filhos expostos à violência paterna.
A paciente vinha, há 3 anos, internando-se várias vezes em uma unidade psiquiátrica devido à repetida exacerbação da ideação suicida e a comportamentos agressivos com familiares (apesar do uso de estabilizadores do humor).
As altas se davam com remissão parcial e encaminhamento à psicoterapia no ambulatório, onde a paciente mantinha os jovens terapeutas (médicos-residentes em treinamento) angustiados e assustados com suas ameaças de se matar e sua agressividade nas sessões.
Em uma entrevista de reavaliação do tratamento, confrontada por um terapeuta mais experiente sobre seus comportamentos contraditórios (desejava ajuda, mas ameaçava quem a oferecia), a paciente foi ficando cada vez mais irritada até dizer, em tom exaltado e apontando para a bolsa: “Você é um idiota e não quero mais conversa, vou pegar meu revólver e te queimar [sic] a cara”.
Os sentimentos despertados em todos na sala, especialmente no entrevistador, foram de impotência e medo diante da ameaça de iminente violência, que paralisaram a mente do terapeuta por intermináveis segundos.
Nesse breve e traumático período, surgiu a imagem de uma criança e sua mãe, abraçadas, encolhidas e aterrorizadas (como ele se sentia), ameaçadas e espancadas por um pai violento e sádico (que a paciente encenava).
A compreensão, penosa e difícil, da reativação dessa díade internalizada da paciente (criança aterrorizada e mãe enfraquecida vs. pai sádico e torturador), naquele momento da relação terapêutica, permitiu um espaço mínimo de lucidez ao terapeuta, que disse: “Não sei se você tem realmente um revólver na bolsa, nem se pretende usá-lo. O que posso dizer é que não pretendemos ficar omissos e assustados ante suas ameaças, como reclama que sua mãe ficava diante da violência do pai. Assim, vamos encerrar a entrevista. Pode pegar a bolsa, e amanhã, na consulta, você vai examinar com o terapeuta se tem ou não condições de seguir em tratamento conosco, porque comportamentos ameaçadores como este não serão mais aceitos”.
Murmurando “idiota”, a paciente levantou-se, pegou a bolsa e foi embora.
Referência
Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.
Autores
Sidnei S. Schestatsky