Psicoterapia nos transtornos da personalidade: Transgressão das fronteiras profissionais

Psicoterapia nos transtornos da personalidade: Transgressão das fronteiras profissionais

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Quando, em vez de serem violadas pelo paciente, as fronteiras profissionais forem cruzadas pelo terapeuta, configura-se uma transgressão das fronteiras.

Dependendo do grau da transgressão (p. ex., confidenciar dados íntimos e pessoais ao paciente, marcar consultas em horários incomuns, atender o paciente por mais tempo do que o habitual, não cobrar honorários, fazer negócios com o paciente ou aproveitar informações do paciente para fazer negócios, aceitar presentes valiosos, etc.), as fronteiras poderão ser restauradas a partir da compreensão que o terapeuta obtenha do que está ocorrendo e de como as transgressões do setting se articulam com a psicopatologia do paciente e questões pessoais do terapeuta.

Em geral, a busca de supervisão do caso pode ser o que falta para recolocar o tratamento no rumo.

Contudo, por exemplo, se uma paciente experimentou negligência e abuso na infância (até 60% das pacientes com transtorno da personalidade borderline [TPB] apresentam essa história), ela pode desejar que o terapeuta supra o amor não recebido.

Alguns terapeutas entram em sintonia inconsciente com esses desejos, engajando-se em fantasias próprias de resgate e recuperação das perdas afetivas da paciente. Esse conluio inconsciente pode levar a contatos físicos crescentes, chegando a interações sexuais, a mais catastrófica de todas as transgressões do contrato terapêutico.

Terapeutas que trabalham com pacientes com organização borderline da personalidade (OBP) têm de estar, portanto, atentos a essa dinâmica transferencial-contratransferencial e buscar orientação, supervisão ou tratamento psicoterápico próprio sempre que se configurar um risco grave de ruptura das normas éticas e técnicas do tratamento.

Referência

Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.

Autores

Sidnei S. Schestatsky