Psicoterapia nos transtornos alimentares

Psicoterapia nos transtornos alimentares

Introdução

Os transtornos alimentares (TAs) são um grupo de condições clínicas caracterizadas por alterações no comportamento alimentar, associadas a diversas questões de natureza inter e intrapsíquicas e cujo tratamento inclui, necessariamente, psicoterapia.

Os TAs são condições psiquiátricas que geralmente surgem na adolescência ou no início da idade adulta e cursam com graves complicações psicológicas e clínicas, graves prejuízos na qualidade de vida e alta mortalidade.

Esses transtornos representam estratégias disfuncionais emocionais, cognitivas e de comportamento para lidar com questões de desenvolvimento, alterações de humor, relações interpessoais e conflitos intrapsíquicos.

Uma vez desencadeados, geralmente tendo a perda de peso por dieta como gatilho, tornam-se doenças autossustentadas em um contexto sociocultural que promete benefícios para magreza e alteração de forma do corpo.

A psicoterapia no tratamento dos transtornos alimentares

A psicoterapia é fundamental no tratamento dos TAs devido ao importante componente emocional e comportamental e à baixa resposta aos fármacos disponíveis.1

Os psicofármacos têm demonstrado resultados limitados nos TAs.

Embora tenha havido substancial avanço nas pesquisas de tratamento por meio de psicoterapia para TAs, evidências de eficácia/efetividade de qualidade permanecem escassas, em especial para anorexia nervosa (AN).

As limitações se referem a número de estudos, problemas metodológicos, alto índice de abandono e foco no alívio de sintomas, e não na recuperação.

A adesão ao tratamento continua sendo um desafio para muitos pacientes e limita a participação nas pesquisas clínicas. Devido a isso, as principais diretrizes internacionais para tratamento de TAs incluem o consenso de especialistas para indicação das diversas abordagens terapêuticas.1,2

Do ponto de vista clínico, o tratamento dos TAs continua sendo um grande desafio devido a diversas questões, como a dificuldade diagnóstica, a ambivalência dos pacientes e o obstáculo de acesso a terapias especializadas adaptadas aos TAs, como a terapia cognitivo-comportamental direcionada a TAs (TCC-TA).

As abordagens devem ter enfoque motivacional.

É importante lembrar que os pacientes mais restritivos apresentam características egossintônicas. Por exemplo, pacientes desnutridos podem referir estar se sentindo bem mesmo quando estão sob riscos médicos graves. Já pacientes com predomínio de sintomas compulsivos e purgativos tendem a ser mais egodistônicos e, portanto, mais dispostos a receber tratamento.

Tratamentos psicoterápicos específicos devem incluir, ao longo de todo o processo, psicoeducação, apoio e forte ênfase na construção e na manutenção da aliança terapêutica e só devem iniciar uma vez que o paciente esteja clinicamente estável e melhor das dificuldades cognitivas causadas pela desnutrição.1

Além disso, opções de tratamento devem ser discutidas com o paciente e, quando apropriado, com a família.

Os familiares devem receber apoio e psicoeducação para colaborar ou, ao menos, não interferir negativamente.

Excesso ou falta de envolvimento podem ser prejudiciais.

Em crianças e adolescentes, as abordagens familiares são as mais estudadas e as que apresentam resultados mais satisfatórios.3

Em conjunto com a psicoterapia, na maioria das situações, devido à complexidade dos casos, a abordagem interdisciplinar é fundamental, sendo recomendável a contribuição de profissionais especialistas em TAs. Uma equipe interdisciplinar treinada aumenta as chances de recuperação completa.

É importante que o psicoterapeuta esteja atento, pois vários níveis de atenção médica podem ser necessários: manejo pelo médico de família, ambulatório, hospital-dia, emergências, internações clínicas, internações psiquiátricas ou internações em serviços especializados em TAs.4

Segundo um amplo estudo de revisão sobre a efetividade de intervenções psicossociais em TAs, a TCC foi o tratamento mais efetivo, principalmente para bulimia nervosa (BN) e transtorno de compulsão alimentar (TCA).

Para AN, a abordagem familiar apresentou maior efetividade, em especial para adolescentes.

Outras abordagens também foram efetivas, como terapia interpessoal (TIP), terapia comportamental dialética (DBT), terapia de apoio e manuais de autoajuda.

Técnicas de entrevista motivacional são indicadas no início do tratamento, mas também como estratégias para manter a continuidade e o engajamento.1 Entre os principais desfechos encontrados estão: remissão de sintomas alimentares, distorção cognitiva e de imagem corporal, comorbidade psiquiátrica, funcionamento psicossocial e satisfação do paciente.3

Diferentes tipos de intervenção podem ser realizados de forma sequencial ou de forma combinada ao longo do tempo. Por exemplo, após melhora sintomática com TCC, o paciente pode seguir em psicoterapia de orientação analítica (POA) ou terapia de remediação cognitiva (TRC) concomitante ao tratamento de TCC.5

Conheça mais sobre os transtornos alimentares (TAs) e psicoterapia por meio dos links a seguir:

Referências

Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.

  1. Hay P, Chinn D, Forbes D, Madden S, Newton R, Sugenor L, et al. Royal Australian and New Zealand College of Psychiatrists clinical practice guidelines for the treatment of eating disorders. Aust N Z J Psychiatry. 2014;48(11):977-1008.
  2. Yager J, Devlin MJ, Halmi KA, Herzog DB, Powers P, Zerbe KJ. Guideline watch (august 2012): practice guideline for the treatment of patients with eating disorders. 3rd ed. Focus. 2012;12(4):416-31.
  3. Costa MB, Melnik T. Effectiveness of psychosocial interventions in eating disorders: an overview of Cochrane systematic reviews. Einstein (São Paulo). 2016;14(2):235-77.
  4. Fairburn CG. Cognitive behavior therapy and eating disorders. New York: Guilford; 2008.
  5. Grilo CM, Mitchell JE. The treatment of eating disorders: a clinical handbook. New York: Guilford; 2010. p.625.

Autores

Miriam Garcia Brunstein
Andressa S. Behenck
Júlia Medeiros Huber
Katiúscia Gomes Nunes