Psicoterapia nos transtornos alimentares: Terapia familiar e terapia de casal

Psicoterapia nos transtornos alimentares: Terapia familiar e terapia de casal

Ver também

Introdução

A terapia familiar é a psicoterapia mais bem estabelecida para tratamento de transtornos alimentares (TAs) em crianças e adolescentes, especialmente anorexia nervosa (AN).

No entanto, em adultos, a inclusão dos familiares e a terapia familiar vêm sendo cada vez mais estudadas.

O modelo mais difundido de terapia familiar para TAs foi desenvolvido no Maudsley Hospital, em Londres, na Inglaterra, a partir dos anos 1980, e inclui intervenções específicas que visam ao treinamento dos familiares, em geral os pais, em estratégias psicológicas e comportamentais para modificação dos comportamentos disfuncionais alimentares e relacionados ao peso e ao corpo.

As famílias são incentivadas a criar um contexto favorável à mudança, de forma colaborativa, que mobilize os próprios recursos.

Nesse processo, os familiares são orientados a identificar possíveis fatores mantenedores, que antes eram associados ao desenvolvimento dos transtornos, mas hoje são vistos como relacionados a adaptações da família ao problema.1

Embora existam particularidades de cada família, geralmente questões relacionadas a comida, alimentação e peso passam a ser centrais nas relações e geram intenso estresse.

Devido à intensidade da ansiedade e dos conflitos, há um estreitamento do foco temporal, que leva à dificuldade de tolerar incertezas e riscos, o que promove um foco apenas nos fracassos de curto prazo e dificulta a disposição para tentar novas formas de funcionamento.

Com isso, as rotinas familiares se tornam inflexíveis, e os papéis familiares preexistentes ficam mais rígidos, levando a dificuldades em evoluir nas etapas de desenvolvimento na direção da autonomia.

É importante assinalar que famílias com altos níveis de emoção expressa (comentários e atitudes críticos) podem exibir pior resposta a abordagens familiares.1

Fundamentos da terapia familiar para TAs

O foco da estrutura conceitual da terapia familiar é conhecer a forma habitual de funcionamento da família – regras, papéis e limites – e como ela foi se modificando em torno do problema alimentar.

Um bom contexto de observação seria a refeição em família, quando podem ser observadas as dificuldades e as potencialidades de flexibilidade e resiliência.

O terapeuta, idealmente, adota uma postura colaborativa, evitando um papel de especialista e detentor das soluções. Ele deve ajudar a criar um ambiente de apoio e confiança, a partir do qual a família consiga assumir a responsabilidade de buscar formas alternativas de lidar com o TA.

As narrativas dos diferentes membros da família ajudam a elucidar as crenças e os significados do problema, em especial aqueles que reforçam a sensação de impotência e desesperança.

Uma abordagem frequente é a “externalização”: o TA é referido metaforicamente como uma “força” ou “voz” externa à pessoa, que influencia seu comportamento de modo intenso.

É necessário ter cautela para que a linguagem seja compreensível e faça sentido para todos.

Essa estratégia pode ser muito útil para aliviar a ideia de que os comportamentos do TA são um capricho ou birra da pessoa afetada, passando a ser compreendidos como algo que requer um esforço conjunto da família para ser combatido.1

A terapia familiar e a terapia de casal na prática

A terapia familiar considera a AN em adolescentes uma condição psiquiátrica grave, com riscos físicos − inclusive de vida −, que leva a prejuízos no pensamento e no comportamento.

Assim, há grande foco na recuperação nutricional e no encorajamento dos pais para assumirem o controle, temporariamente, da alimentação do paciente.

A terapia se desenvolve em três etapas.

Na primeira, o papel dos pais é revigorado na direção de estimular as mudanças comportamentais. As famílias são estimuladas a buscar soluções e a assumir a responsabilidade para a restauração do peso.

Na segunda fase, uma vez que as famílias estejam conseguindo resultados em relação à melhora dos sintomas alimentares e os conflitos estejam menos em evidência, passa-se a examinar as questões sobre alimentação, peso e corpo relacionadas à adolescência. Ao mesmo tempo, o paciente é estimulado a cada vez mais assumir responsabilidades sobre sua alimentação.

Na terceira etapa, o foco passa para questões de autonomia, papéis dos pais e desenvolvimento do adolescente e da família.

Como dificuldades interpessoais têm um papel muito importante na manutenção do TA e o apoio familiar geralmente é referido como fundamental na recuperação, a terapia familiar, em especial de casal, vem sendo estudada também para tratamento de adultos.2

A terapia de casal pode ser um contexto muito propício para trabalhar questões de interação interpessoal, dificuldades de comunicação, segredos em torno dos comportamentos de TA, impulsividade, perda de controle e dificuldades na vida íntima e sexual.

Os cônjuges referem dificuldades em compreender os sintomas, sentem-se perdidos e impotentes diante dos comportamentos e, por vezes, adotam atitudes que acabam exacerbando os conflitos.

Em um contexto de trabalho multidisciplinar, o modelo nomeado “unindo casais no tratamento da AN” propõe trazer benefícios por potencializar mecanismos de mudança e desvelar segredos, que costumam ser um fator encobridor e perpetuador dos sintomas. O trabalho em conjunto ajuda a superar os comportamentos disfuncionais e a melhorar o funcionamento interpessoal.2,3

Grupos de terapia multifamiliar

Os grupos de terapia multifamiliar são uma abordagem que busca potencializar os recursos e mecanismos adaptativos de cada família por meio da troca de experiências e do apoio mútuo.

Ajudam a diminuir o isolamento das famílias e a diluir tensões pela oportunidade de observar dinâmicas familiares disfuncionais ou potencialmente adaptativas em outras famílias acometidas. Pode ser uma técnica utilizada em paralelo a outras formas de tratamento, inclusive terapia familiar.1

Evidências de eficácia da terapia familiar

As evidências indicam que a terapia familiar está associada a resultados persistentemente positivos em parâmetros físicos e psicológicos no tratamento de jovens com AN, em especial com menos de 3 anos de doença.4

Em dois estudos de revisão sistemática da Cochrane, pacientes adolescentes com AN que receberam terapia familiar do modelo Maudsley mantiveram redução dos sintomas 12 meses após a intervenção, em comparação com o tratamento não especializado.5

Em adultos, as evidências são menos conclusivas.

Entretanto, as diretrizes apontam que a terapia familiar segue sendo indicada mesmo que as evidências não sejam tão consistentes.6

Referências

Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.

  1. Grilo CM, Mitchell JE. The treatment of eating disorders: a clinical handbook. New York: Guilford; 2010. p.625.
  2. Kirby JS, Runfola CD, Fischer M, Baucom DH, Bulik CM. Couple-based interventions for adults with eating disorder. EatDisord. 2015;234):356-65.
  3. Berg KC, Wonderlich SA. Emerging psychological treatments in the field of eating disorders. Curr Psychiatry Rep. 2013;15(11):404.
  4. Hay P, Chinn D, Forbes D, Madden S, Newton R, Sugenor L, et al. Royal Australian and New Zealand College of Psychiatrists clinical practice guidelines for the treatment of eating disorders. Aust N Z J Psychiatry. 2014;48(11):977-1008.
  5. Costa MB, Melnik T. Effectiveness of psychosocial interventions in eating disorders: an overview of Cochrane systematic reviews. Einstein (São Paulo). 2016;14(2):235-77.
  6. Yager J, Devlin MJ, Halmi KA, Herzog DB, Powers P, Zerbe KJ. Guideline watch (august 2012): practice guideline for the treatment of patients with eating disorders. 3rd ed. Focus. 2012;12(4):416-31.

Autores

Miriam Garcia Brunstein
Andressa S. Behenck
Júlia Medeiros Huber
Katiúscia Gomes Nunes