Psicoterapia nos transtornos alimentares: Terapia de mentalização
Ver também
- Diagnóstico, epidemiologia e comorbidades
- Terapia cognitivo-comportamental (TCC)
- Psicoterapia de orientação analítica (POA)
- Terapia interpessoal (TIP)
- Terapia familiar e terapia de casal
- Manejo clínico de apoio feito por especialista (MCAFE)
- Terapia comportamental dialética (DBT)
- Terapia de remediação cognitiva (TRC)
- Modelo Maudsley para tratamento de anorexia nervosa em adultos (MANTRA)
- Outras terapias
Introdução
A terapia de mentalização (TM) é uma abordagem psicodinâmica baseada na teoria do apego de Bowlby e tem como metas a identificação e a expressão dos afetos e a promoção da resiliência por meio da aliança formada entre paciente e terapeuta.
Tradicionalmente, foi muito estudada como tratamento para o transtorno da personalidade borderline (TPB).
Devido à incapacidade que os indivíduos com transtorno alimentar (TA) apresentam em reconhecer e lidar com seus sentimentos e emoções − dificuldade no processo de mentalização –, usando o corpo como expressão de seu estado mental, foi proposta a aplicação da TM em indivíduos com anorexia nervosa (AN).1
Aplicação aos transtornos alimentares
Ainda não há uma adaptação específica da TM para pacientes com TAs, entretanto existem alguns aspectos a serem abordados em indivíduos com AN: a distinção entre as sensações corporais e as representações (alexitimia) e a identificação de sentimentos, pensamentos e impulsos, a fim de colocá-los em palavras e auxiliar na capacidade de simbolização.1
Isso é particularmente importante, pois, nos TAs, há hiperfoco no peso e na forma do corpo e dificuldade de discernir o estado mental das sensações corporais, o que produz uma maneira concreta de sentir e agir.1
Destaca-se que a posição do terapeuta é de valor essencial no processo de mentalização do paciente com AN.
A relação terapeuta-paciente é associada às relações passadas, e o estado do terapeuta é considerado um “espelho das respostas de seus cuidadores”.
Contudo, deve-se focar os estados mentais atuais a fim de compreender como eles são influenciados por acontecimentos passados, e as experiências passadas são importantes quando associadas à situação emocional presente.
A postura do terapeuta deve ser investigativa, pouco julgadora e proporcionar uma atmosfera de compreensão e acolhimento.
Quando há divergência em relação a alguma perspectiva dos estados mentais, essa situação deve ser verbalizada e explorada de maneira não interpretativa, destacando-se alternativas e evitando-se assumir qual ponto de vista é mais correto.
Por exemplo, frequentemente, os pacientes com AN são ambivalentes em relação aos aspectos positivos e negativos dos sintomas alimentares: o terapeuta deve estimular o paciente a pensar sobre as diferentes funções dos sintomas do TA, mostrando que é possível haver dúvidas e hesitações em relação aos prós e contras de manter-se com AN.
Essa atitude empática reforça a aliança terapêutica e estimula o processo de mentalização do paciente.
Eficácia da TM
Um estudo multicêntrico randomizado comparou a TM ao manejo clínico de apoio feito por especialista (MCAFE) em 68 pacientes com TA e TPB.
Os resultados mostraram que o número de desistência por parte dos pacientes foi maior no MCAFE, apesar de não haver diferença significativa.
Em relação à melhora clínica, os pacientes tratados com TM apresentaram diminuição na preocupação com o peso e com a forma do corpo; porém, após 18 meses de tratamento, ambos os grupos manifestaram melhora clínica significativa.2
Da mesma forma, Balestrieri e colaboradores compararam a eficácia da TM com a terapia psicodinâmica de curta duração aplicada em pacientes com AN e BN, e concluíram que ambos os grupos apresentaram melhora significativa dos sintomas, sem diferenças sustentáveis nas respostas aos tratamentos propostos.3
Referências
Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.
- Skarderud F. Eating one’ s words: part III. Mentalisation-based psychotherapy for anorexia nervosa: an outline for a treatment and training manual. Eur Eat Disord Rev. 2007;15(5):323-39.
- Robinson P, Hellier J, Barrett B, Barzdaitiene D, Bateman A, Bogaardt A, et al. The NOURISHED randomised controlled trial comparing mentalisation-based treatment for eating disorders (MBT-ED) with specialist supportive clinical management (SSCM-ED) for patients with eating disorders and symptoms of borderline personality disorder. Trials; 2016;17(1):549.
- Balestrieri M, Zuanon S, Pellizzari J, Zappoli-Thyrion E, Ciano R. Mentalization in eating disorders: a preliminary trial comparing mentalization-based treatment (MBT) with a psychodynamic-oriented treatment. Eat Weight Disord. 2015;20(4):525-8.
Autores
Miriam Garcia Brunstein
Andressa S. Behenck
Júlia Medeiros Huber
Katiúscia Gomes Nunes