Psicoterapia nos transtornos alimentares: Terapia interpessoal
Ver também
- Diagnóstico, epidemiologia e comorbidades
- Terapia cognitivo-comportamental (TCC)
- Psicoterapia de orientação analítica (POA)
- Terapia de mentalização (TM)
- Terapia familiar e terapia de casal
- Manejo clínico de apoio feito por especialista (MCAFE)
- Terapia comportamental dialética (DBT)
- Terapia de remediação cognitiva (TRC)
- Modelo Maudsley para tratamento de anorexia nervosa em adultos (MANTRA)
- Outras terapias
Introdução
A terapia interpessoal (TIP) foi desenvolvida inicialmente para o tratamento de transtorno depressivo, com o objetivo de melhorar o funcionamento interpessoal do paciente ao relacionar os sintomas depressivos a problemas interpessoais e elaborar estratégias para lidar com eles.
Tendo em vista que a maioria dos pacientes com transtornos alimentares (TAs) inicia os sintomas em uma idade na qual as relações interpessoais estão se desenvolvendo, é comum os conflitos interpessoais serem fatores mantenedores dos sintomas alimentares.
Dessa forma, a TIP foi proposta como tratamento para TAs por Fairburn, em 1993,1,2 objetivando remover esse fator de perpetuação dos sintomas alimentares e auxiliar na recuperação do paciente.3
Terapia interpessoal para TAs
Algumas adequações foram realizadas para a aplicação dessa abordagem nos TAs.
A terapia interpessoal para transtornos alimentares (TIP-TA) é dirigida para uma condição crônica e considera a dificuldade interpessoal como consequência do transtorno, e não sua causa.
Logo, o terapeuta costuma não focar o tratamento no início dos sintomas alimentares.
Na TIP-TA, é importante:
- Traçar metas de vida, visto que o início dos sintomas na juventude pode acarretar prejuízos em etapas relevantes do desenvolvimento, como relacionamentos e profissão.
- Auxiliar o paciente a melhorar sua autoestima, pois grande parte dos comportamentos alimentares alterados está relacionada à preocupação excessiva com o peso e a forma do corpo e à autoavaliação depreciativa.2
As sessões de TIP-TA
A TIP-TA é uma terapia breve que dura em torno de 4 a 5 meses.
O número de sessões varia entre 16 e 20 encontros.
O terapeuta deve ser o mínimo diretivo possível, para permitir que o paciente se torne ativo e com sensação de liderança, porém deve ficar atento para manter o foco na associação dos sintomas alimentares com as dificuldades interpessoais.
O tratamento é subdividido em três fases com metas específicas.2
A primeira fase consiste em avaliar o paciente, analisar as relações passadas e atuais, conhecer o problema interpessoal e engajá-lo no tratamento.
A segunda fase inicia a partir do momento em que paciente e terapeuta entram em acordo sobre a área problemática a ser trabalhada e envolve a compreensão da relação das dificuldades interpessoais com os sintomas alimentares.
Por fim, a terceira fase foca a manutenção das mudanças realizadas e a prevenção de recaídas. São feitas considerações do que foi alcançado até então e discutidas possíveis dificuldades futuras que possam colocar o paciente em risco novamente.
É importante destacar que as melhorias alcançadas aconteceram em virtude das atitudes do paciente, e não do terapeuta, para que o paciente se sinta capaz de manter-se estável sozinho após o término do tratamento.
Indicações e contraindicações
A TIP-TA é recomendada para tratamento ambulatorial de bulimia nervosa (BN) ou transtorno de compulsão alimentar (TCA), ou seja, nos quadros em que há compulsão alimentar.
Ela não é indicada para tratamento de pacientes com peso significativamente baixo.
Eficácia da TIP-TA
Estudos clínicos que compararam os efeitos da TCC e da TIP em pacientes com BN mostram que ambas as terapias produzem mudanças.
No entanto, os pacientes que foram tratados com TIP permaneceram por mais tempo sintomáticos.
Referências
Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.
- Fairburn CG. Cognitive behavior therapy and eating disorders. New York: Guilford; 2008.
- Murphy R, Straebler S, Basden S, Cooper Z, Fairburn CG. Interpersonal psychotherapy for eating disorders. Clinl Psychol Psychother. 2012;19(2):150-8.
- Fairburn CG, Cooper Z, Doll HA, O´Connor MEO, Palmer RL, Dalle GR. Enhanced cognitive behaviour therapy for adults with anorexia nervosa : A UK e Italy study. Behav Res Ther. 2013;51(1):2-8.
Autores
Miriam Garcia Brunstein
Andressa S. Behenck
Júlia Medeiros Huber
Katiúscia Gomes Nunes