Psicoterapia nos transtornos alimentares: Terapia de remediação cognitiva

Psicoterapia nos transtornos alimentares: Terapia de remediação cognitiva

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Introdução

O estudo da neuropsicologia pode contribuir para o entendimento da etiologia, das estratégias de manutenção e da recuperação dos transtornos alimentares (TAs).1

Déficits no funcionamento neurocognitivo contribuem para o desenvolvimento e a perpetuação da patologia.

A maioria dos déficits ocorre nas funções executivas, que são um conjunto de funções relacionadas aos processos de manipulação complexa de outras funções cognitivas e comportamentos direcionados a um objetivo.

Diversas metanálises realizadas contribuíram para identificar as principais funções cognitivas alteradas: dificuldade na flexibilidade cognitiva, na coerência central (hiperfoco em pequenos detalhes e habilidade pobre em integrar informações – Gestalt) e na memória de trabalho.2

Acesse aqui um Exemplo clínico

O circuito neuronal nos TAs envolve controle inibitório, regulação emocional e funções executivas.3

Os TAs têm perfil executivo similar; entretanto, nos diferentes diagnósticos, sempre há predomínio de alguma disfunção: rigidez cognitiva na anorexia nervosa (AN), e desregulação no controle inibitório na bulimia nervosa (BN) e no transtorno de compulsão alimentar (TCA).3

Sabe-se que essas dificuldades cognitivas são persistentes e que o simples ganho de peso não melhora o funcionamento cognitivo dos pacientes – é necessário que novos desempenhos cognitivos sejam estimulados e treinados.

Essas características são observadas em familiares de pacientes com TAs, o que sugere um componente genético.

Objetivos da TRC

Os principais objetivos da terapia de remediação cognitiva (TRC) são melhorar os processos cognitivos e promover um aprimoramento no funcionamento global.

A TRC não aborda diretamente características centrais dos TAs, e sim o processo do pensamento, em especial a capacidade pobre de coerência central, trabalhando no aumento do processo global e na capacidade de adaptação ao contexto e na flexibilidade.4,5

Desse modo, deve sempre estar aliada a outro tipo de psicoterapia para que seus resultados se mantenham em longo prazo.

Esse tratamento tem resultados mais eficazes em adultos e é uma modalidade que pode ser utilizada tanto de forma individual quanto em grupo.

A intervenção combina exercícios cognitivos de reflexão sobre os estilos e as estratégias de pensamento (metacognição) e a tradução desses processos na vida diária (implementação).5

Referências

Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.

  1. Lindvall Dahlgren C, Ro O. A systematic review of cognitive remediation therapy for anorexia nervosa – development, current state and implications for future research and clinical practice. J Eat Disord. 2014;2(1):26.
  2. Lang K, Treasure J, Tchanturia K. Acceptability and feasibility of self-help Cognitive Remediation Therapy For Anorexia Nervosa delivered in collaboration with carers: A qualitative preliminary evaluation study. Psychiatry Res. 2015;225(3):387-94.
  3. Fagundo AB, de la Torre R, Jiménez-Murcia S, Agüera Z, Granero R, Tárrega S, et al. Executive functions profile in extreme eating/weight conditions: from anorexia nervosa to obesity. PLoS One. 2012;7(8).
  4. Kass AE, Kolko RP, Wilfley DE. Psychological treatments for eating disorders. Curr Opin Psychiatry. 2013;26(6):549-55.
  5. Danner UN, Dingemans AE, Steinglass J. Cognitive remediation therapy for eating disorders. Curr Opin Psychiatry. 2015;28(6):468-72.

Autores

Miriam Garcia Brunstein
Andressa S. Behenck
Júlia Medeiros Huber
Katiúscia Gomes Nunes