Psicoterapia nos transtornos de sintomas somáticos e transtornos relacionados: Modelo psicanalítico

Psicoterapia nos transtornos de sintomas somáticos e transtornos relacionados: Modelo psicanalítico

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Desde os primórdios da teoria psicanalítica, há a noção da relação entre os sintomas físicos e a mente, seja como consequência de conflito psíquico, seja como consequência de trauma.

Sigmund Freud

Freud, desde os estudos com Charcot, associou os sintomas conversivos à expressão simbólica de conflitos inconscientes. Ainda nessa época, descreveu as neuroses atuais, que incluíam a neurastenia, a neurose de ansiedade e a hipocondria, como expressões de uma condição de estresse que não podia ser representada psiquicamente, manifestando-se, portanto, por meio de sintomas somáticos.

O psiquismo está intimamente relacionado com o corpo, uma vez que provém deste, passando por um período inicial em que tal diferenciação não é possível.

A partir de um estado “fusional” do bebê com a mãe, quando ainda não há a distinção eu/não eu, ocorre uma diferenciação progressiva que estabelece o sujeito do ponto de vista psíquico.

É preciso considerar que, nesse momento, o bebê vive as sensações de todas as experiências de forma excessiva, uma vez que ele ainda não tem condições de desenvolvimento para compreender e lidar com essas sensações, dando sentido a elas.

Assim, é necessário que a mãe volte seu interesse para o bebê, mais especificamente, que se envolva emocionalmente com ele, o suficiente para auxiliá-lo a dar conta desse excesso em que vive, para que possa realizar a transformação de sensações que vêm tanto do exterior quanto do interior do corpo e que são desconhecidas e, portanto, reconhecidas como ameaçadoras.

A impossibilidade dessa transformação torna-se traumática, pois gera excesso de pulsão (fonte energética interna, oriunda do corpo, da estrutura mental, que, ao requerer um trabalho, funda o psiquismo) não ligada, constituindo o trauma precoce, pois ainda não há um aparelho psíquico que seja capaz de dar conta disso. A transformação desses estímulos é fundamental para, dessa forma, o indivíduo poder suportar as experiências vividas sem adoecer. Esse trabalho promove a expansão do psiquismo.

Esse desenvolvimento faz parte do psiquismo de todos nós; entretanto, naqueles casos em que não se constitui a possibilidade de ligar esse excesso, o sujeito passa a necessitar de outros mecanismos psíquicos para dar conta dessa demanda, que se constitui como um trauma para o psíquico. Um desses mecanismos é a descarga sobre o corpo.

Como esse processo ocorre em etapas muito iniciais do desenvolvimento, nas quais os recursos psíquicos ainda são escassos, é necessário considerar que as falhas ocorridas nos colocam diante de um sujeito que usará mecanismos defensivos muito primitivos para lidar com o sofrimento, principalmente a clivagem, em que uma parte do psiquismo fica inacessível a ele. Não havendo representação mental da situação traumática inicial, não há possibilidade de estabelecer a repressão, que origina o conflito psíquico, o qual, por sua vez, levaria o sujeito à neurose, que seria um destino mais saudável.

Como consequência dessa falha, o funcionamento psíquico apresenta uma insuficiência simbólica, derivando para expressões mais primitivas do sofrimento psíquico, entre elas as somatizações – por exemplo, um paciente que expressa seu sofrimento e suas dificuldades em relação à sexualidade por meio do desenvolvimento de um quadro de cegueira temporária quando se vê confrontado com alguma expressão de seu desejo. O reconhecimento da origem emocional desse sintoma promove angústia no paciente, pois significa, para ele, reconhecer em si a existência do desejo que, de alguma forma, lhe é proibido e, portanto, resulta em um conflito psíquico insuportável.

Aqui, podemos encontrar um dos aspectos que diferenciam a somatização da conversão.

Conversão

Para Freud, a conversão seria uma forma encontrada pelo sujeito para expressar conflitos inconscientes intoleráveis por meio de sintomas físicos. Dessa maneira, o sintoma físico em pacientes com sintomas conversivos seria compreendido pelo modelo psicodinâmico como uma forma de representar o conflito, que, por ser intolerável, precisou ser reprimido e, portanto, convertido.1 Ou seja, haveria já uma estrutura psíquica capaz de representar o desejo, bem como a necessidade de reprimi-lo, existindo a possibilidade de conectar o sintoma físico com o conflito inconsciente.

Cabe salientar que, embora exista, nos transtornos conversivos, uma estrutura que contenha representações, ainda estamos diante de pacientes com funcionamento muito regressivo, uma vez que necessitam do uso do corpo para expressar seu sofrimento, que não pode ser manifestado por meio das palavras.

Somatização

No caso da somatização, estamos diante de patologias decorrentes de falhas mais precoces, em que, não havendo ainda a representação e, portanto, a possibilidade de repressão, não temos conflito, mas uma evitação do sofrimento mediante a clivagem, passando o sujeito a ignorar a base psíquica de seu sofrimento, o qual, então, é descarregado no corpo.2

Escola psicossomática de Paris

Partindo dessas ideias sobre o desenvolvimento do psiquismo e as falhas precoces que resultam nas somatizações, outros autores fizeram contribuições complementares.

Inicialmente considerados dissidentes da Sociedade Psicanalítica de Paris, Pierre Marty, Michel de M’Uzan e Christian David fundaram a Escola Psicossomática de Paris.

Entre suas ideias, destacam-se os aportes dos dois primeiros sobre o pensamento operatório.3

Pensamento operatório

O pensamento operatório constitui-se em um pensamento consciente, que não está conectado com os significados emocionais daquilo que foi vivido, compreendendo as experiências de forma desvinculada dos aspectos históricos que poderiam oferecer-lhes sentido.

É um pensamento que considera apenas o atual, aquilo que está ligado à materialidade dos fatos e à utilidade dos objetos, não permitindo considerar outra ordem da experiência, essencialmente aquela ligada às emoções, ao onírico. Como não há um pensamento que estabeleça associações, não há expressão simbólica, sendo as palavras usadas como forma de descarga de tensão, sem a possibilidade de constituir-se como expressão de processos inconscientes.

Depressão essencial

Associada ao pensamento operatório, Marty4 descreve a existência de uma dinâmica afetiva que chama de depressão essencial.

Na depressão essencial, predomina o desinvestimento objetal, o que a diferencia dos estados melancólicos e do luto, bem como das depressões neuróticas. O tônus libidinal é reduzido, não sendo possível encontrar desejo. O desamparo é profundo, ainda que não seja vivenciado pelo sujeito. Não há queixas por parte do paciente, mesmo que ele experimente fadiga profunda e perda de interesse global.

Essa depressão essencial facilita a desorganização somática do sujeito, resultando no que Marty denomina desorganização progressiva. Nesse processo, há desestruturação da organização libidinal, associada a um funcionamento mental menos complexo, ocorrendo estreitamento do pré-consciente. Isso acarreta prejuízo da elaboração mental das excitações, promovendo aumento de angústia que deriva para a via somática (somatização).

Esse tipo de situação clínica é ilustrado no exemplo clínico de L., em que, além da expressão de sofrimento da paciente em sintomas somáticos, ocorre empobrecimento global de suas capacidades psíquicas diante da dificuldade de lidar com a dor provocada pela relação conflituosa com a mãe.

André Green

André Green apresenta um olhar sobre a psicossomática que coloca a centralidade da função desobjetalizante da pulsão de morte nesses fenômenos psicossomáticos, o que resulta na impossibilidade de qualquer investimento significativo.

A função desobjetalizante diz respeito a uma busca do sujeito por desligar-se dos objetos e das relações e experiências emocionais mais profundas e significativas, evitar sentir a necessidade de ligar-se afetivamente, afastando, dessa forma, a dor do desamparo, que é inerente ao desejo, ao reconhecimento da importância do outro.

Esses estados advêm de falhas precoces na relação com o objeto primordial, que resultam em um psiquismo perturbado por excesso de energia inicial, desorganizada, caótica, que gera dor e angústia, permitindo a instalação de fragmentos de morte psíquica, ou seja, falhas importantes na constituição do psiquismo que busca livrar-se desses excessos mediante outras formas de descarga, entre elas as somatizações.

Para Green, essa superadaptação que pode ser observada nos pacientes com funcionamento operatório esconde uma “loucura peculiar” que consiste em um sinal de uma “demência total”, a qual expressa uma dimensão de morte psíquica.5

Assim, estamos diante do que pode ser considerado o polo destrutivo da negatividade.

Isso pode ser observado naqueles pacientes em que o sintoma somático passa a ocupar um lugar significativo em sua vida emocional, capturando-o e impedindo seu envolvimento com qualquer situação ou pessoa que possa, de alguma maneira, tornar-se objeto de desejo. O sintoma ocupa o lugar do desejo, passando a ser tudo o que importa.

Podemos identificar esse tipo de situação clínica em um paciente que apresenta vários tipos de alergia, que agudizam em situações nas quais se depara com o próprio desamparo, que denuncia falhas em uma fantasia onipotente de superpoderes.

Assim, a cada frustração vivida, o excesso de angústia, diante do reconhecimento da falha impensável, é descarregado por meio de um ataque ao corpo, mediante crises alérgicas.

O sujeito desvia-se da dor emocional mediante o uso excessivo de medicamentos e atendimentos médicos.

Referências

Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V. ; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.

  1. Freud S. Estudios sobre la histeria. In: Freud S. Obras completas. v. II. Buenos Aires: Amorrortu; 1893.
  2. Freud S. Tres ensayos de teoría sexual. In: Freud S. Obras completas. v. VII. Buenos Aires: Amorrortu; 2007.
  3. Marty P, M’Uzan M. O pensamento operatório. Rev Bras Psican. 1994;XXVIII(1):165-74.
  4. Marty P. A psicossomática do adulto. Porto Alegre: Artes Médicas; 1993.
  5. Aisenstein M, Smadja C. A função desobjetalizante na obra de André Green: um modelo para a psicossomática. Rev Psic SPPA. 2013;20(1):89-101.

Autores

Alexandre Annes Henriques
Maria Cristina Garcia Vasconcellos
Sandra Machado Wolffenbüttel