Psicoterapia nos transtornos de sintomas somáticos e transtornos relacionados: Modelo cognitivo-comportamental
Ver também
- Psicoterapia nos transtornos de sintomas somáticos e transtornos relacionados - Aspectos gerais
- Contexto clínico
- Modelo psicanalítico
- Avaliação e diagnóstico do paciente
- Farmacoterapia versus psicoterapias
- Psicoterapia psicodinâmica
- Terapia cognitivo-comportamental (TCC)
- Evidências de eficácia
Introdução
Mesmo que o termo “somatização” tenha suas origens no modelo psicanalítico, outros modelos atuais, baseados na medicina comportamental e nos modelos cognitivo-comportamentais, surgiram com novas hipóteses.
Na perspectiva cognitivo-comportamental, postula-se que os sintomas somáticos são o resultado da interação entre fatores biológicos (p. ex., alterações do eixo hipotalâmico-hipófise-suprarrenal, excitação fisiológica persistente, etc.), cognitivos (p. ex., viés atencional, processos atribucionais, etc.), emocionais e comportamentais (p. ex., evitação de atividade física, verificação de sintomas corporais, etc.), também influenciados por fatores ambientais (p. ex., políticas de incapacidade e de benefícios, etc.) e interpessoais (sociais).
Abordagens translacionais sugerem que fenômenos psicobiológicos, em especial os processamentos sensorial e interpretativo (cognitivo e afetivo), contribuem para os transtornos de sintomas somáticos e transtornos relacionados (TSSTRs),1 possivelmente como consequência de adversidades precoces na vida.
A desregulação emocional, associada a essas experiências precoces adversas, também parece ter um papel substancial na patogênese dos sintomas somáticos. Esses tipos de experiências são um dos fatores de risco bem-documentados para indivíduos desenvolverem TSSTRs. A resposta psicobiológica ao estresse é um dos mecanismos implicados nesse contexto.
Ainda sob essa perspectiva, o estilo de vínculos também seria um dos fatores de risco para desenvolver sintomas somáticos (apego inseguro está presente em 30% dos casos).
Nessa concepção, o aprendizado por modelagem (p. ex., observação, imitação, etc.) também exerce influência, como comportamentos de pais superprotetores e comportamentos de doença perante crianças.
Uma parte do desenvolvimento de sintomas sem explicação médica está associada a condicionamento clássico (pareamento entre dois estímulos – o incondicionado e o condicionado –, com aprendizagem de uma nova resposta – a resposta condicionada).
Neurobiologicamente, há amplificação da percepção sensorial-somatovisceral que se integra com o circuito neural cognitivo-afetivo.2 A amplificação é a tendência de experimentar sensações corporais de modo intenso, nocivo e perturbador. Esse conceito se aplica, particularmente, à anteriormente denominada hipocondria.
Outro modelo psicobiológico sustenta um desequilíbrio entre os sistemas simpático e parassimpático, podendo levar a disfunções no sistema imune.
Isso estaria associado a uma desinibição do circuito associada a emoções e afetos (hipoativação do córtex pré-frontal), acarretando estresse crônico e hiperatividade do sistema de luta ou fuga.
Também há um efeito top-down de fatores, que influencia a percepção das sensações somáticas (p. ex., o estresse), associado à baixa capacidade de percepção correta das sensações corporais, inclusive processos autonômicos e táteis.
A catastrofização refere-se à tendência em interpretar exageradamente as sensações somáticas, como indícios de alguma doença grave ou da ocorrência de consequências desproporcionalmente negativas. Ela costuma estar associada a ruminação, magnificação e desesperança.
Cognições catastróficas estão associadas à menor tolerância à dor e a outros sintomas, bem como a maior grau de incapacidade.
Outros exemplos de distorções cognitivas são a pressuposição rígida de que saúde é definida como a ausência total de quaisquer sensações físicas, o autoconceito de que o corpo é frágil e a intolerância ao estresse.
Os pacientes com TSSTR apresentam crenças relacionadas à saúde diferentes de controles saudáveis.
Técnicas empregadas na TCC
Boa parte das técnicas empregadas na terapia cognitivo-comportamental (TCC) objetiva, especificamente, modificar as respostas fisiológicas, o viés atencional negativo (mais associado à hipocondria), o viés de atribuição, o viés de memória (implícita e explícita) e as distorções cognitivas (p. ex., catastrofização, antecipação negativa, etc.), entre outros objetivos, os quais estão envolvidos na perspectiva cognitivo-comportamental para esses transtornos.
Técnicas de distração comprovadamente influenciam a interpretação cognitiva das sensações, bem como reduzem a amplitude do estímulo sensorial, mesmo nas terminações sensoriais periféricas.
As psicoterapias baseadas em mindfulness também atuam em alguns desses mecanismos alterados de amplificação sensorial-somatovisceral, como a hipervigilância às sensações somáticas e a competição atencional.
Referências
Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V. ; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.
- Stein DJ. Understanding somatic symptom disorder: the role of translational neuroscience. Biol Psychiatry. 2013;74(9):637-8.
- Perez DL, Barsky AJ, Vago DR, Baslet G, Silbersweig DA. A neural circuit framework for somatosensory amplification in somatoform disorders. J Neuropsychiatry Clin Neurosci. 2015;27(1):e40-50.
Autores
Alexandre Annes Henriques
Maria Cristina Garcia Vasconcellos
Sandra Machado Wolffenbüttel