Psicoterapia no transtorno de insônia: Terapia cognitiva
Ver também
- Psicoterapia no transtorno de insônia
- Breve histórico
- Avaliação do paciente com transtorno de insônia
- Modelos teóricos para compreensão da ocorrência e/ou perpetuação da insônia
- Terapia cognitivo-comportamental (TCC)
- Evidências empíricas de eficácia
Introdução
Na terapia cognitiva, o paciente é orientado a identificar os pensamentos automáticos disfuncionais associados à insônia. Desde o início do tratamento, deve-se buscar formular a conceituação cognitiva.
Os aspectos a serem identificados são:
- Como o paciente desenvolveu o transtorno?
- Quais pensamentos automáticos, imagens e comportamentos contribuem para a manutenção do transtorno?
- Quais estratégias o paciente usa para lidar com as crenças negativas?
- Quais são os pressupostos, expectativas, regras e atitudes do paciente?
- Quais são as crenças que o paciente tem sobre si mesmo, o mundo e os outros?
Expectativas e crenças que compõem cognições perturbadoras sobre o sono e os processos cognitivos mal-adaptativos, como, são alvo da abordagem cognitiva no tratamento da insônia.1,2
Sabe-se que a manutenção da insônia pode estar associada a crenças distorcidas sobre o sono2 e que a preocupação excessiva com o sono e com os danos que potencialmente podem ocorrer por não conseguir dormir pode, por sua vez, aumentar o alerta e, assim, exacerbar a insônia, formando um círculo vicioso.
A insônia também pode ser mantida pelo automonitoramento, ou seja, por atitudes como ficar monitorando o passar das horas no relógio à noite, o não adormecer e o tempo que ainda teria para dormir. Essas ações prolongam o período desperto e intensificam a apreensão por perceber-se incapaz de dormir.
A partir de um Exemplo clínico (1), pode-se identificar que a pessoa apresenta diferentes distorções cognitivas que se reforçam e produzem emoções negativas, como ansiedade excessiva, gerando maior alerta. Esse processo dificulta o adormecer e, dessa forma, reafirma a expectativa distorcida.
Os diferentes pensamentos disfuncionais relacionados ao sono e à insônia devem ser identificados e abordados, como os descritos no Exemplo clínico (1): as expectativas distorcidas a respeito do sono (“Preciso dormir 8 horas todas as noites”, “Todas as pessoas precisam dormir, no mínimo, 8 horas por noite”), a amplificação das consequências da insônia (“Se eu não dormir 8 horas, o dia de amanhã será um desastre! Não vou conseguir trabalhar e terei de cancelar todos os meus compromissos”), as falsas ideias sobre as causas da insônia e o baixo reconhecimento da capacidade de conciliar o sono.
Intervenções cognitivas
Diferentes intervenções e técnicas da terapia cognitiva podem ser usadas como ferramentas de identificação e avaliação de pensamentos disfuncionais e crenças, assim como para sua mudança.
Entre elas, destacam-se o registro de pensamentos disfuncionais, o questionamento socrático, a técnica da seta descendente e experimentos comportamentais.
Assim, estimula-se que o paciente identifique seus pensamentos automáticos negativos e emoções associadas e possa avaliar a veracidade e a probabilidade de ocorrência desses pensamentos e consequências que atribui à ocorrência.
Nessa etapa, os experimentos comportamentais contribuem significativamente para essa confrontação.
Experimentos comportamentais
Por meio dessa abordagem, o paciente pode desenvolver expectativas mais realistas a respeito do sono, avaliar se existe evidência para que as situações interpretadas de forma catastrófica venham a acontecer, conseguir não amplificar os desconfortos relacionados a um sono ruim e não atribuir à insônia a responsabilidade/culpa de todos os problemas ocorridos durante o dia.
Técnica de intenção paradoxal
Outra intervenção da terapia cognitiva que pode ser utilizada é a técnica de intenção paradoxal.
A indicação dessa técnica está baseada na premissa de que muitas pessoas pioram sua insônia devido à preocupação de não serem capazes de adormecer.
Assim, qualquer tentativa de controlar ou induzir o sono voluntariamente gera aumento de ansiedade e, com isso, retarda o adormecer. Por vezes, apenas a proximidade com o horário de dormir desencadeia ansiedade antecipatória intensa.
Com a técnica de intenção paradoxal, os pacientes são orientados a ir para a cama, mas permanecer acordados, desistir de dormir e não realizar esforço para adormecer.
Essa técnica reduz a ansiedade relacionada ao medo de não conseguir dormir, e, assim, os pacientes adormecem.
Tal técnica é também fundamentada na constatação de que, entre os indivíduos que não sofrem de insônia, não é necessário qualquer esforço para adormecer, nem sequer a preocupação de que precisarão se esforçar para adormecer.
Ainda, considerando o Exemplo clínico (1), a técnica de intenção paradoxal pode ser aplicada na paciente.
Acesse aqui o Exemplo clínico (2)
Intervenções baseadas em mindfulness
O termo mindfulness faz referência a uma consciência plena no momento presente e não julgadora.
O programa identificado como redução de estresse baseado em mindfulness (MBSR, do inglês Mindfulness-Based Stress Reduction) tem sido empregado em diferentes condições de saúde para reduzir sintomas e melhorar a qualidade de vida.
Essa abordagem foi adaptada e integrada a técnicas de terapia cognitivo-comportamental (TCC) e aplicada em diferentes transtornos, inclusive em quadros relacionados ao dormir.3 Utilizado no tratamento da insônia, a MBSR visa à redução do estresse e do alerta psicofisiológico.
As técnicas de mindfulness estimulam a observação, sem julgamento, de pensamentos como eventos mentais.
Os princípios do mindfulness complementam as abordagens utilizadas para tratamento da insônia. Pode ser observado, por exemplo, que a proposta no sentido de não forçar o sono é compatível com o ato de abandonar o desejo de controlar ativamente o sono.
Referências
Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.
- Harvey AG: A cognitive model of insomnia. Behav Res Ther. 2002;40(8):869-93.
- Eidelman P, Talbot L, Ivers H, Bélanger L, Morin CM, Harvey AG. Change in dysfunctional beliefs about sleep in behavior therapy, cognitive therapy, and cognitive-behavioral therapy for insomnia. Behav Ther. 2016;47(1):102-15.
- Ong JC, Manber R, Segal Z, Xia Y, Shapiro S, Wyatt JK. A randomized controlled trial of mindfulness meditation for chronic insomnia. Sleep. 2014;37(9):1553-63.
Autores
Regina Margis