Psicoterapia no transtorno de ansiedade generalizada: Psicoterapia de orientação analítica
Ver também
- Psicoterapia no TAG
- Avaliação do paciente com transtorno de ansiedade generalizada (TAG)
- Terapia cognitivo-comportamental (TCC)
- Evidências de eficácia das psicoterapias
- Outras intervenções no tratamento do TAG
Quando ela é uma opção
Embora não seja a terapia de primeira escolha para pacientes com transtorno de ansiedade generalizada (TAG), em algumas condições, a psicoterapia de orientação analítica (POA) pode ser de grande benefício.
Pode ser a primeira linha de tratamento quando a terapia cognitivo-comportamental (TCC) não está disponível ou para pacientes cujos conflitos de natureza psicodinâmica sejam proeminentes.
Esses conflitos são inconscientes, originários de situações vivenciadas ao longo da infância e da adolescência e, em geral, envolvem questões de natureza emocional relacionadas com figuras importantes do passado, como os pais ou os irmãos.
São considerados patológicos quando se manifestam na vida atual sob a forma de dificuldades e sintomas na interação com figuras importantes da vida atual – cônjuge, filhos, amigos ou pessoas que representam autoridade (p. ex., chefes, professores) – ou ainda permanecem ativos com os próprios pais.
É possível que esses conflitos tenham um importante papel na origem e na manutenção dos sintomas de TAG, hipótese que pode ser esclarecida na avaliação inicial do paciente.
Nessa etapa, o terapeuta deve explorar cuidadosamente a relação do paciente com figuras que tiveram importância em seu desenvolvimento pessoal, as emoções e os sentimentos negativos ou disfuncionais em relação a essas figuras que prevaleceram até hoje e como o paciente enfrentou os processos evolutivos.
São tópicos interessantes a serem investigados na história do paciente: situações de abuso emocional, abandono, perdas, separações ou superproteção, negligência por parte dos pais ou abuso físico, sexual e moral por familiares ou amigos, ou, ainda, se apresentou ansiedade de separação quando foi para a pré-escola ou para o colégio.
Relatos de ter vivenciado seus pais como pessoas muito exigentes, controladoras, excessivamente preocupadas ou superprotetoras, negligentes ou punitivas são indício da existência de conflitos de natureza psicodinâmica. Geralmente, são uma certeza quando esses relatos agora, na vida adulta, são acompanhados por emoções como raiva, medo e culpa ou por comportamentos de submissão e dependência.
É muito provável que esses conflitos tenham como consequência dificuldades para confiar nas pessoas e se envolver afetivamente com elas, influenciem em uma visão de mundo como um lugar muito perigoso, produzam baixa autoestima e falta de confiança em si mesmo, gerem uma visão de si mesmo como uma pessoa desamparada e acabem por formar esquemas de crenças subjacentes às preocupações e aos medos do TAG.
Podem manifestar-se como dificuldades em confiar no cônjuge e nos filhos, ser demasiadamente dependente ou ter excesso de preocupações em relação a eles ou a figuras que representam autoridade na vida atual, como chefes.
Um exemplo desses conflitos pode ser visto no Exemplo clínico de M.:
M. se descreve como reservada e, mesmo que tenha vontade de expressar suas ideias e seus sentimentos, prefere ficar calada. Sempre foi muito preocupada diante de situações que envolvem alguma incerteza ante os resultados e procura evitar tudo o que representa algum risco. Diz que sempre foi assim e acredita que, em grande parte, isso se deve ao fato de ter tido uma mãe superprotetora e permanentemente preocupada.
M. apresentou nova piora dos sintomas quando seu chefe, pessoa que admirava e confiava, saiu da empresa. Temia que isso acontecesse, porque quando supera o medo e faz novas amizades expressando suas ideias, tem a crença de que sempre irá acontecer algo de ruim – o que acaba fazendo ela se afastar de suas relações sociais, e foi o que ocorreu de novo. A saída do chefe trouxe a lembrança de um fato muito negativo vivenciado por sua família quando era pequena. Nessa ocasião, seu padrinho levou a empresa da qual seu pai também era sócio à falência, traindo a confiança da família, além de fazê-los passar por um longo período de dificuldades. Ficou muito marcada por esse fato e, desde então, tem a certeza de que é mais seguro não fazer amizades principalmente com pessoas desconhecidas, pois elas podem trair ou abandonar.
Técnica
Na POA, o foco não se restringe a descobrir imediatamente a causa da ansiedade, pois se admite o fato de ela ser multifatorial.
A postura terapêutica inclui a ideia de conviver com a ansiedade para refletir o que está contribuindo para o estado ansioso.
Os conteúdos abordados na POA para o TAG podem diferir de acordo com as características de personalidade e de caráter dos pacientes com esse diagnóstico.
A POA em pessoas com TAG tem como objetivo identificar os potenciais conflitos que tenham relação com os sintomas típicos do transtorno: preocupações, medos e ansiedade excessivos.
Procura-se entender o significado das preocupações por meio da descrição explícita de situações práticas do dia a dia (p. ex., angústia em perder o emprego, medo de abandono em uma relação amorosa), bem como o significado implícito que se relaciona com os conflitos dinâmicos (p. ex., perder o emprego também pode representar a experiência de desamparo em situações de perda ou de abandono que já foram vivenciadas na infância).
A POA está indicada para o TAG quando os sintomas de preocupação excessiva que desencadeiam as reações físicas corporais estão relacionados a conflitos dinâmicos do paciente com ele próprio ou do paciente com suas relações pessoais.
O exame dos fenômenos transferenciais e a percepção dos próprios sentimentos contratransferenciais permitem, ao terapeuta, formular hipóteses sobre a existência de conflitos psicodinâmicos de natureza inconsciente e uma explanação psicodinâmica coerente sobre eles, o que ajuda a nortear a terapia.
Com base na compreensão psicodinâmica, o terapeuta realiza interpretações com o objetivo de modificar mecanismos de defesa e fazer o paciente obter o insight necessário para elaborar uma nova narrativa sobre sua história pessoal, resolvendo os conflitos existentes e ainda ativos e eliminando os sintomas disfuncionais de ansiedade generalizada.
O paciente com TAG se esforça para antecipar todos os possíveis desfechos negativos, acreditando que, assim, poderá evitá-los.
À semelhança do que ocorre na TCC, a POA convida o paciente a aceitar a incerteza e abandonar o mecanismo de defesa do controle. Como consequência, surgem ansiedades e preocupações típicas do TAG.
É possível planejar e executar planos com todo o empenho e cuidado possíveis, mas sempre os limites da realidade provam que não se pode ter certeza e controle total a respeito do que acontecerá.
Indicações e contraindicações
Como dito anteriormente, a POA é indicada para pacientes com conflitos psicodinâmicos, proeminentes nas relações interpessoais.
Além disso, é necessário que o paciente apresente capacidade de pensar com subjetividade (abstração, metáforas e simbolismos) e introspecção e de produzir insight e motivação para explorar seus conflitos.
A contraindicação de iniciar o tratamento com POA em pacientes com TAG ocorre quando há muita resistência do paciente em explorar seus conflitos de natureza psíquica e conhecer-se melhor ou quando apresenta baixa tolerância e desorganização em momentos de reflexão.
Referência
Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.
Autores
Marianna de Abreu Costa
Carolina Benedetto Gallois
Stefania Pigatto Teche