Psicoterapia no transtorno de pânico: Etiologia
Ver também
- Psicoterapia no transtorno de pânico
- Guideline sobre Transtorno de pânico
- Terapia cognitivo-comportamental (TCC)
- As sessões de TCC
- Evidências de eficácia e preditores de resposta
Fatores envolvidos
Como ocorre em todas as psicopatologias, a etiologia do transtorno de pânico pode ser considerada o resultado de uma combinação complexa entre fatores genéticos e ambientais.
Acesse aqui um Exemplo clínico
Fatores genéticos
Estudos com gêmeos estimam que a herdabilidade do transtorno de pânico é de aproximadamente 43%.1 Além disso, estudos de família demonstram que sujeitos com parente de primeiro grau acometido pelo transtorno de pânico têm mais chance de desenvolvê-lo do que sujeitos sem familiares acometidos pelo transtorno.
Alguns polimorfismos genéticos já foram associados ao transtorno de pânico, embora os estudos nessa área ainda sejam inconsistentes.
Modelos atuais sugerem que há muitos genes de pequeno efeito que determinam algumas características e processos mentais associados ao fenótipo. Além disso, está descrita uma série de interações complexas entre genes (interações gene vs. gene) e entre genes e o ambiente (interação gene vs. ambiente, correlação gene vs. ambiente e epigenética).2
A herdabilidade do transtorno de pânico parece estar mais associada a características temperamentais comuns aos pacientes que desenvolverão o transtorno.
O neuroticismo (ansiedade, depressão, tensão, irracionalidade, emoção, tendência a sentimentos de desvalia e culpa) e a evitação de danos (tendência a evitar situações que representem perigo) são temperamentos associados ao transtorno de pânico, embora não possam ser considerados específicos.3
Vários marcadores biológicos têm sido associados ao transtorno de pânico, como alterações no eixo hipotalâmico-hipofisário-suprarrenal, frequência cardíaca e tônus vagal, potencial evocado e marcadores inflamatórios com resultados inconsistentes. Da mesma forma, os exames de neuroimagem têm sido utilizados para investigação da fisiopatologia do transtorno de pânico, mas não são úteis para fins diagnósticos.4
Fatores ambientais
Entre os fatores ambientais associados ao surgimento do transtorno de pânico, podem-se destacar o apego às figuras parentais e as experiências traumáticas, tanto na infância (abuso e negligência) quanto na vida adulta (mudança de papéis e perdas no ano precedente ao início dos sintomas).5 Todavia, renda, etnia, estado civil e grau de escolaridade não parecem ser fatores ambientais relevantes nesse transtorno.6
De acordo com o modelo cognitivo-comportamental do transtorno de pânico (Tabela 1), o ataque de pânico inicial é um alarme falso que pode ser ativado quando ocorre a intensificação de eventos estressantes na vida de indivíduos com vulnerabilidades biológicas e/ou psicológicas. Dessa forma, um indivíduo suscetível a desenvolver o transtorno de pânico antecipa o próximo ataque de pânico, porém, como ele não consegue controlar ou prever o próximo ataque, a tendência é permanecer extremamente atento aos sintomas somáticos.
A concepção de que um ataque de pânico representa uma ameaça pode fazer o indivíduo responder com um medo exagerado à situação que não representa perigo real (i.e., a um “alarme falso”). Com isso, o indivíduo rapidamente relaciona a emoção a um alarme falso, o que dificulta a discriminação das ameaças reais das ameaças imaginárias. Esses alarmes, verdadeiros ou falsos, são denominados “alarmes aprendidos” quando são incorporados a aspectos internos e externos.7
TABELA 1 | MODELO COGNITIVO-COMPORTAMENTAL DO TRANSTORNO DE PÂNICO |
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Com a repetição dos ataques, os indivíduos tornam-se cada vez mais sensíveis aos estímulos internos e às situações nas quais o ataque ocorreu, desenvolvendo uma vigilância constante de qualquer sensação física.
Em conjunto, desenvolve-se a ansiedade antecipatória, ou seja, o medo de ter outro ataque. Com esse comportamento condicionado ao medo, passa-se a evitar tudo que provoque alguma reação somática (p. ex., exercícios físicos) ou lugares associados com os ataques anteriores (p. ex., locais de difícil saída, como ônibus, shopping center, etc.).
Como consequência, os pacientes passam a sofrer limitações e prejuízos em suas atividades habituais.7
Referências
Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.
- Hettema JM, Neale MC, Kendler KS. A review and meta-analysis of the genetic epidemiology of anxiety disorders. Am J Psychiatry. 2001;158(10):1568-78.
- Craske MG, Stein MB, Eley TC, Milad MR, Holmes A, Rapee RM, et al. Anxiety disorders. Nat Rev Dis Primers. 2017;3:17024.
- Smoller JW, Gardner-Schuster E, Covino J. The genetic basis of panic and phobic anxiety disorders. Am J Med Genet C Semin Med Genet. 2008;148C(2):118-26.
- Roy-Byrne P, Craske MG, Sullivan G, Rose RD, Edlund MJ, Lang AJ, et al. Delivery of evidence-based treatment for multiple anxiety disorders in primary care: a randomized controlled trial. JAMA. 2010;303(19):1921-8.
- Manfro GG, Otto MW, McArdle ET, Worthington JJ, Rosenbaum JF, Pollack MH. Relationship of antecedent stressful life events to childhood and family history of anxiety and the course of panic disorder. J Affect Disord. 1996;41(2):135-9.
- Kessler RC, Chiu WT, Demler O, Merikangas KR, Walters EE. Prevalence, severity, and comorbidity of 12-month DSM-IV disorders in the National Comorbidity Survey Replication. Arch Gen Psychiatry. 2005;62(6):617-27.
- Manfro GG, Heldt E, Cordioli AV. Terapia cognitivo-comportamental no transtorno de pânico. In: Cordioli AV, editor. Psicoterapias: abordagens atuais. Porto Alegre: Artmed; 2008. p.431-48.
Autores
Gisele Gus Manfro
Elizeth Heldt
Carolina Blaya Dreher