Psicoterapia no transtorno de pânico: Evidências de eficácia e preditores de resposta
Ver também
- Psicoterapia no transtorno de pânico
- Guideline sobre Transtorno de pânico
- Etiologia do transtorno de pânico
- Terapia cognitivo-comportamental (TCC)
- As sessões de TCC
Efetividade
Sabe-se que a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é efetiva em pacientes com transtorno de pânico, e seus ganhos são evidenciáveis em vários desfechos avaliados, inclusive na qualidade de vida.
O tamanho de efeito encontrado para a resposta terapêutica varia de 0,6 a 2,3, dependendo da dimensão avaliada.1-3 Por exemplo, quando se consideram a qualidade de vida e a impressão clínica global, o benefício da TCC é muito grande; já em relação à presença ou ausência de ataques de pânico, o benefício é modesto.
Esse achado é compreensível, uma vez que essa modalidade de tratamento foi desenhada com o objetivo de fornecer ferramentas.
O foco da TCC não é o desaparecimento das crises, mas a correção do comportamento disfuncional, do medo e das preocupações excessivas com a consequência das crises.
A eficácia da TCC para o transtorno de pânico já foi descrita no tratamento agudo e em estudos de acompanhamento.
Neste último caso, a TCC parece superior ao tratamento medicamentoso, ou seja, pacientes que realizaram TCC tendem a recair menos no acompanhamento em longo prazo em comparação com pacientes que utilizaram somente medicamento.
Como a TCC objetiva, além da redução dos ataques de pânico, a diminuição dos sintomas residuais (ansiedade antecipatória, dependência de familiares e agorafobia), pode-se afirmar que seu foco é a remissão completa do transtorno, sendo, então, um dos fatores responsáveis por sua eficácia substancial em longo prazo.2
Uma metanálise avaliou diversas modalidades de tratamento estudadas em ensaio clínico randomizado e encontrou tamanho de efeito na média de 1,55 no tratamento combinado de TCC e fármaco para transtorno de pânico. No estudo, a TCC apresentou tamanho de efeito de 1,81, e os fármacos, entre 0,82 e 2,61, o que sinaliza que a TCC é um tratamento altamente eficaz para o transtorno de pânico.4
Estudos de longo prazo
Os estudos de longo prazo são mais escassos, e há controvérsia sobre a maior efetividade da TCC nesse sentido, que poderia apresentar uma vantagem sobre a farmacoterapia na manutenção dos ganhos após a alta.4
Em estudo realizado na população brasileira, 60% dos participantes (n = 93) apresentaram remissão após 1 ano do tratamento com TCC em grupo (TCCG) mais medicamento, sendo que 39 (41%) mantiveram a remissão após 2 anos.5
No entanto, alguns pacientes ainda são refratários a diferentes modalidades terapêuticas e de combinações entre elas.
Preditores de pior resposta ou recaída
Uma revisão sistemática identificou que a agorafobia é o preditor mais consistente de pior resposta à TCC para transtorno de pânico, seguida de baixa expectativa de mudança, alto nível de prejuízo funcional e comorbidade com transtorno da personalidade do grupo C.6
Em outro estudo, a presença de sintomas residuais de ansiedade e a ocorrência de eventos estressantes recentes foram preditores de recaída do transtorno de pânico após 2 anos de TCCG.5
Novas estratégias para aprimorar a resposta terapêutica
Novas estratégias para aprimorar a resposta terapêutica estão sendo testadas.
Por exemplo, um estudo avaliou a resposta ao acréscimo de 4 sessões de reforço com técnicas cognitivas de estratégias de coping e resiliência após a TCC em um ensaio clínico controlado. Os resultados apontaram melhora no domínio das relações sociais e na qualidade de vida, independentemente da diminuição dos sintomas. Todavia, os níveis de resiliência foram dependentes dos sintomas do transtorno de pânico, de ansiedade e de depressão – isto é, a baixa intensidade dos sintomas correspondeu a altos níveis de resiliência.7
Um ensaio clínico comparou TCC com 14 sessões individuais, TCC com 14 sessões em grupo e TCC com 7 sessões individuais e identificou que todas as abordagens foram eficazes para o tratamento do transtorno de pânico, sem diferenças entre elas.8 Também foi demonstrado que abordagens ainda mais breves, com 5 sessões ou apenas 1 sessão, foram eficazes para pacientes com transtorno de pânico.
Outro ponto que tem sido estudado inclui a utilização de protocolos de TCC on-line, que têm maior impacto em áreas onde é mais difícil encontrar um terapeuta treinado nessa técnica.
O maior estudo realizado com esse recurso, o CALM trial, utilizou um computador para uniformizar a intervenção ofertada por terapeutas que haviam recebido um pequeno treinamento técnico. Esse protocolo foi efetivo em mais da metade dos pacientes.9
Como muitos pacientes com transtorno de pânico apresentam recaída de sintomas após a melhora clínica, alguns autores vêm propondo a manutenção de sessões de reforço de TCC mensais.
Um ensaio clínico demonstrou que as recaídas foram reduzidas de 18% para 5% no acompanhamento de quase 2 anos com as sessões de reforço.10
Outra estratégia que também busca diminuir as recaídas inclui as habilidades de solução de problemas.
Referências
Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.
- Heldt E, Blaya C, Isolan L, Kipper L, Teruchkin B, Otto MW, et al. Quality of life and treatment outcome in panic disorder: cognitive behavior group therapy effects in patients refractory to medication treatment. Psychother Psychosom. 2006;75(3):183-6.
- Otto MW, Deveney C. Cognitive-behavioral therapy and the treatment of panic disorder: efficacy and strategies. J Clin Psychiatry. 2005;66(4):28-32.
- Black DW. Efficacy of combined pharmacotherapy and psychotherapy versus monotherapy in the treatment of anxiety disorders. CNS Spectr. 2006;11(10-12):29-33.
- Bandelow B, Reitt M, Rover C, Michaelis S, Gorlich Y, Wedekind D. Efficacy of treatments for anxiety disorders: a meta-analysis. Int Clin Psychopharmacol. 2015;30(4):183-92.
- Heldt E, Kipper L, Blaya C, Salum GA, Hirakata VN, Otto MW, et al. Predictors of relapse in the second follow-up year post cognitive-behavior therapy for panic disorder. Rev Bras Psiquiatr. 2011;33(1):23-9.
- Porter E, Chambless DL. A systematic review of predictors and moderators of improvement in cognitive-behavioral therapy for panic disorder and agoraphobia. Clin Psychol Rev. 2015;42:179-92.
- Wesner AC, Gomes JB, Detzel T, Blaya C, Manfro GG, Heldt E. Effect of cognitive-behavioral group therapy for panic disorder in changing coping strategies. Compr Psychiatry. 2014;55(1):87-92.
- Marchand A, Roberge P, Primiano S, Germain V. A randomized, controlled clinical trial of standard, group and brief cognitive-behavioral therapy for panic disorder with agoraphobia: a two-year follow-up. J Anxiety Disord. 2009;23(8):1139-47.
- Roy-Byrne P, Craske MG, Sullivan G, Rose RD, Edlund MJ, Lang AJ, et al. Delivery of evidence-based treatment for multiple anxiety disorders in primary care: a randomized controlled trial. JAMA. 2010;303(19):1921-8.
- White KS, Payne LA, Gorman JM, Shear MK, Woods SW, Saksa JR, et al. Does maintenance CBT contribute to long-term treatment response of panic disorder with or without agoraphobia? A randomized controlled clinical trial. J Consult Clin Psychol. 2013;81(1):47-57.
Autores
Gisele Gus Manfro
Elizeth Heldt
Carolina Blaya Dreher