Psicoterapia nos transtornos psicóticos: TCC

Psicoterapia nos transtornos psicóticos: Terapia cognitivo-comportamental

Ver também

Introdução

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a abordagem psicoterápica mais amplamente investigada no tratamento da esquizofrenia e demais psicoses persistentes. Embora tenha sido originalmente formulada para o tratamento de depressão, um dos primeiros relatos sobre o uso da TCC pertence ao tratamento da esquizofrenia.1

A TCC para psicose (TCCp) é proposta como uma intervenção adjuvante ao tratamento farmacológico.

O National Institute for Health and Care Excellence sugere oferecer TCCp na modalidade individual tanto na prevenção em indivíduos sob alto risco para desenvolver transtornos psicóticos como em primeiro episódio psicótico e recorrências.2

A TCCp é particularmente interessante quando sintomas residuais persistem apesar da farmacoterapia otimizada.

Evidências

Em metanálise de 2014, a TCCp foi mais bem-sucedida que contato amistoso, remediação cognitiva, psicoeducação e aconselhamento para tratamento de sintomas positivos, mas foi inferior ao treinamento de habilidades sociais (THS) para a melhora de sintomas negativos.1

Outra metanálise publicada no mesmo ano avaliou a eficácia de TCCp para esquizofrenia resistente ao tratamento, mostrando redução de sintomas positivos e sintomas gerais ao término do tratamento e após 12 meses.3

Também existem evidências favoráveis ao uso da TCCp em prevenir psicose em indivíduos de altíssimo risco.4

Modelos cognitivos de psicopatologia

Elementos cognitivos foram propostos para explicar o desenvolvimento e a manutenção de crenças irrealísticas e processamento perceptivo bizarro.

A pesquisa básica sobre os processos cognitivos da psicose sugere que os delírios e as alucinações podem ser variantes extremas de processos comuns de avaliação e formação de crenças, considerando que os sintomas psicóticos existem na população em um continuum, desde poucos sintomas que dispensam tratamento até o transtorno completo.5

Delírios

Do ponto de vista cognitivo, os processos que podem levar pessoas a terem crenças delirantes consistem em interpretações equivocadas das experiências. Em virtude de vieses do pensamento, pessoas suscetíveis tendem a não avaliar interpretações errôneas como inferências, mas como representações factuais da realidade.

Três desses vieses são particularmente importantes:

  1. O viés autorreferencial (atribuição de significância pessoal a situações irrelevantes e coincidências para detectar intencionalidade de entidades externas).
  2. A causação externa para experiências subjetivas.
  3. As atribuições indiscriminadas de intenções positivas ou negativas a outras pessoas.

Erros cognitivos, como abstração seletiva, juízos extremos e supergeneralização, também estão envolvidos no processamento cognitivo dos delírios. Além disso, os pacientes delirantes demonstram vieses atencionais para estímulos relacionados à ameaça.

Uma vez formadas, as crenças delirantes podem ser mantidas por meio de vieses contra evidências contrárias: evidências confirmatórias são valorizadas, enquanto as não confirmatórias são ignoradas ou menosprezadas.6

Alucinações

O modelo cognitivo das alucinações inclui uma combinação entre:

  • Predisposição à geração de imagens mentais não intencionais.
  • Crenças e cognições hiperativas, que são transformadas em imagens auditivas, excedendo o limiar perceptivo e vivenciadas como idênticas a sons externos.
  • Viés externalizante (tendência a atribuir experiências internas a um agente externo).
  • Teste de realidade deficiente.

As crenças sobre a identidade, o poder e a autoridade das vozes, além daquelas sobre as consequências de não as obedecer, perpetuam as alucinações.6

Sintomas negativos

Os sintomas negativos são formulados como expressão da diminuição de vivências interiores de motivação, emoção e pensamento, somada a déficit na percepção de estímulos que indicam recompensa.7

Além disso, o acúmulo de experiências negativas e o comprometimento cognitivo podem perpetuar ou aumentar os sintomas negativos ao longo da vida.8

Princípios gerais da TCCp

A TCCp baseia-se, em grande medida, no modelo biopsicossocial de diátese-estresse, que enfatiza a relação entre eventos de vida, circunstâncias, predisposição genética, psicológica e social, levando a diferentes graus de vulnerabilidade para a deflagração de sintomatologia psicótica.

Os objetivos devem ser particularizados para cada caso, mas, em geral, incluem reduzir:

  • A frequência e a intensidade de sintomas psicóticos.
  • O sofrimento associado ao transtorno e ao estigma.
  • As recaídas.

A TCCp opera mediante uma iniciativa de colaboração empírica (empirismo colaborativo).

Terapeuta e paciente unem forças durante cerca de 20 sessões (com a possibilidade de ampliação e sessões de manutenção) a serem realizadas em 6 a 9 meses, com a finalidade principal de modificar crenças que limitam a realização de objetivos de vida do paciente.

Os pacientes também são guiados a reavaliar suas experiências e identificar novos modos de responder a elas.

Rumo ao fim da terapia, o foco é manter os ganhos e auxiliar o indivíduo a prevenir recaídas.

Particularidades da TCCp

A TCCp pode ser aplicada tanto em consultórios privados como em ambientes de assistência coletiva, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPSs).

Sugere-se que o terapeuta reserve 1 hora para cada sessão.

É possível que, especialmente no início do atendimento, certos pacientes não tolerem permanecer durante todo o tempo da sessão, sendo importante que o terapeuta seja flexível tanto para reduzir a extensão de sessões iniciais como para prolongar o número total de sessões, caso seja necessário.

Além disso, recomenda-se estabelecer contato e vínculo com familiares ou cuidadores do paciente, especialmente no início do tratamento.

Fatores que podem predizer resposta positiva à TCCp incluem pacientes do sexo feminino, menor duração dos sintomas, sintomas menos graves e baixo nível de convicção delirante.9,10

A TCCp não é tão efetiva quando o paciente apresenta insight muito baixo ou ausente, têm sintomas negativos primários extremos, como alogia e embotamento afetivo graves, ou apresenta comorbidades, como abuso de substância.11

Alguns aspectos da técnica cognitivo-comportamental aplicada às psicoses são de particular importância para o sucesso da intervenção:

  • A agenda deve ser menos explícita, e as emoções, evocadas com cuidado.
  • A aliança terapêutica deve ser caracterizada por aceitação, apoio e colaboração.
  • Quando sintomas positivos estão presentes, o terapeuta trata os conteúdos delirantes como um assunto a ser refletido, e não confrontado. Em linhas gerais, é melhor evitar usar rótulos como “delírios” ou “sintomas psicóticos”, mas referir-se a crenças ou ideias.
  • No ambiente seguro da relação terapêutica, cria-se abertura e possibilidade de discussão das evidências que sustentam os sintomas. Assim, tomando, por exemplo, delírios flexíveis, é possível considerar uma explicação alternativa e outra maneira de interpretar suas vivências. Quando isso não é possível, como no caso de delírios irredutíveis, ou os sintomas psicóticos são egossintônicos, atitudes adaptativas tornam-se o foco de trabalho com o paciente, buscando-se reduzir a gravidade e a interferência dos sintomas para promover funcionalidade e qualidade de vida.12

A apresentação fenotípica altamente heterogênea dessa doença torna a avaliação caso a caso (conforme a formulação sugerida na Figura 1) imprescindível para ponderar quais pacientes podem usufruir dessa técnica, ainda que ela se adapte a casos intricados com dificuldades multifacetadas.

O terapeuta deve realizar uma formulação individualizada da relação sui generis entre as experiências, os pensamentos, as emoções e o comportamento problemático de seu paciente.

Essa abordagem baseada em formulação individual leva a adaptações refinadas, as quais permitem um movimento claro em direção a metas fundamentadas em alvos e desfechos “feitos sob medida”.

FIGURA 1 | Formulação biopsicossocial aplicada aos transtornos psicóticos.
Fonte: Adaptada de Wright e colaboradores.13

Acesse aqui um Exemplo clínico

A compreensão detalhada do primeiro episódio psicótico traz informações-chave para as crenças e percepções atuais. As informações sobre as crenças atuais e sobre como elas progrediram são reunidas em uma formulação que elenca fatores predisponentes, precipitantes, perpetuadores e protetores.

A seguir, são apresentados aspectos específicos da TCCp para delírios, alucinações e sintomas negativos.

A Tabela 1 resume a avaliação, a conceituação e a intervenção específica para cada grupo de sintomas.

TABELA 1 | RESUMO DAS INTERVENÇÕES DE TCC PARA TRANSTORNOS PSICÓTICOS


DELÍRIOS

ALUCINAÇÕES

SINTOMAS NEGATIVOS

Avaliação

  • Foco delirante
  • Distorções cognitivas
  • Evidências em favor do delírio
  • Gatilhos delirantes
  • Crenças subjacentes
  • Respostas evocadas por interpretações delirantes
  • Caracterização dos sintomas
  • Avaliação das crenças e cognições
  • Gatilhos para o surgimento das vozes
  • Enfrentamentos desadaptativos e comportamentos de segurança
  • Efeitos colaterais de medicamento
  • Comorbidade: transtorno depressivo ou de ansiedade
  • Gatilhos ambientais
  • Sintomas positivos que causam sintomas negativos
  • Estigma
  • Cognições: pouca expectativa de prazer; pouca expectativa de sucesso

Conceituação

Antecedentes da crença

Evidências em favor da crença

Interpretações errôneas de eventos cotidianos

Prejuízos atuais

Cognições e crenças

Gatilhos ambientais

Enfrentamentos desadaptativos

Aspectos ambientais

Crenças disfuncionais

Prejuízos atuais

Intervenções

Psicoeducação e normalização


  • Questionamento das evidências em favor das crenças delirantes
  • Construir e consolidar crenças alternativas
  • Trabalhar com crenças nucleares não delirantes
  • Exposição gradual
  • Abordagens comportamentais: distração e alívio de ansiedade
  • Crenças: registro de pensamentos disfuncionais para alucinações auditivas
  • Trabalhar com crenças nucleares não delirantes
  • Exposição gradual
  • Sintomas positivos: exposição gradual após intervenções específicas para sintomas positivos
  • Pouca expectativa de prazer: prescrição gradual de atividades; registro de nível de prazer in vivo; ênfase em evidências desconfirmatórias de pouco prazer
  • Baixa expectativa de sucesso: reduzir a pressão externa; decompor objetivos amplos em passos menores; remover barreiras; ênfase nas evidências desconfirmatórias de incapacidade

Veja informações específicas para:

Referências

Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H.(Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.

  1. Turner DT, van der Gaag M, Karyotaki E, Cuijpers P. Psychological interventions for psychosis: a meta-analysis of comparative outcome studies. Am J Psychiatry. 2014;171(5):523-38.
  2. Excellence NIfHaC. Psychosis and schizophrenia in adults: prevention and management. NICE; 2014.
  3. Burns AM, Erickson DH, Brenner CA. Cognitive-behavioral therapy for medication-resistant psychosis: a meta-analytic review. Psychiatr Serv. 2014;65(7):874-80.
  4. Hutton P, Taylor PJ. Cognitive behavioural therapy for psychosis prevention: a systematic review and meta-analysis. Psychol Med. 2014;44(3):449-68.
  5. Rector NA, Beck AT. Cognitive behavioral therapy for schizophrenia: an empirical review. J Nerv Ment Dis. 2012;200(10):832-9.
  6. Beck AT, Rector NA, Stolar N, Grant P. Terapia cognitiva da Esquizofrenia. Porto Alegre: Artmed; 2010.
  7. Kapur S. Psychosis as a state of aberrant salience: a framework linking biology, phenomenology, and pharmacology in schizophrenia. Am J Psychiatry. 2003;160(1):13-23.
  8. Sarin F, Wallin L. Cognitive model and cognitive behavior therapy for schizophrenia: an overview. Nord J Psychiatry. 2014;68(3):145-53.
  9. Brabban A, Tai S, Turkington D. Predictors of outcome in brief cognitive behavior therapy for schizophrenia. Schizophr Bull. 2009;35(5):859-64.
  10. Tarrier N, Yusupoff L, Kinney C, McCarthy E, Gledhill A, Haddock G, et al. Randomised controlled trial of intensive cognitive behaviour therapy for patients with chronic schizophrenia. BMJ. 1998;317(7154):303-7.
  11. Tai S, Turkington D. The evolution of cognitive behavior therapy for schizophrenia: current practice and recent developments. Schizophr Bull. 2009;35(5):865-73.
  12. Barlow DH. Clinical handbook of psychological disorders: a step-by-step treatment manual. 5. ed. New York: The Guilford; 2014.
  13. Wright JH, Turkington D, Kingdon DG, Basco MR. Cognitive-behavior therapy for severe mental illness: an illustrated guide. Washington: American Psychiatric; 2009.

Autores

André Luiz Schuh Teixeira da Rosa
Juliana Unis Castan
Fernanda Lucia Capitanio Baeza