Psicoterapia nos transtornos relacionados a trauma e a estressores: Outras intervenções focadas em trauma

Psicoterapia nos transtornos relacionados a trauma e a estressores – Outras intervenções focadas em trauma

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EMDR

A dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares (EMDR, do inglês eye movement desensitization and reprocessing) é uma intervenção relativamente recente, desenvolvida por Shapiro, em 1987,1 e extensamente utilizada para o tratamento de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

Embora várias controvérsias tenham sido levantadas quanto aos fundamentos teóricos da EMDR, evidências recentes sugerem que essa intervenção tem nível de evidência de eficácia ao menos moderado no tratamento de sintomas pós-traumáticos e na remissão completa do TEPT em comparação a abordagens terapêuticas de controle.2

No que se refere à comparação com intervenções em terapia cognitivo-comportamental (TCC), a EMDR apresentou evidências de eficácia equivalentes3 ou até mais favoráveis,4 principalmente para sintomas de intrusão e hiperatividade.

Abordagens inovadoras como a EMDR e a terapia de exposição (TE) por meio de realidade virtual são opções interessantes, especialmente para casos em que há dificuldades com um protocolo-padrão de TCC.

Terapia de exposição por meio de realidade virtual

Apesar de a TE prolongada ser considerada uma das intervenções recomendadas e com maiores níveis de eficácia para o tratamento de TEPT, existe uma parcela de pacientes que tem dificuldades de engajamento emocional durante as sessões de exposição por imagens mentais.

Esses pacientes comumente relatam dificuldade de imersão na cena traumática, e, por essa razão, estudos sugerem que essas dificuldades poderiam ser responsáveis pela ineficácia ou pelo abandono da terapia.

Abordagens com cenários de realidade virtual podem representar uma ferramenta útil para aqueles casos em que a exposição imagística não promove os resultados esperados.5

A TE por meio de realidade virtual facilita o envolvimento emocional de pacientes com TEPT durante as sessões de exposição, uma vez que possibilita a exposição a diversos estímulos sensoriais (ou gatilhos) presentes no ambiente virtual.

Os ambientes costumam ser ricos em detalhes que podem ser relacionados à experiência traumática do paciente. Além disso, o ambiente virtual possibilita maior controle do terapeuta sobre a intensidade dos estímulos apresentados (i.e., os estímulos podem ser fornecidos de forma gradual).

O uso desse tipo de intervenção é recomendado em situações nas quais há limitações de tempo, bem como em situações em que a exposição in vivo é ameaçadora ou impraticável (p. ex., em traumas relacionados a guerras ou catástrofes naturais).6,7

Ainda que esse formato de intervenção seja relativamente pouco utilizado e que os estudos nas últimas décadas sejam variáveis quanto aos métodos empregados, os resultados são favoráveis quanto à redução nos sintomas de TEPT.

Assim, a TE por meio de realidade virtual surge como uma alternativa promissora para pacientes refratários, que não se beneficiaram de intervenções tradicionais de TE.5,6

No Brasil, país com elevada ocorrência de traumas ligados à violência urbana, cenários de realidade virtual podem recriar situações relativamente típicas (p. ex., assaltos em ônibus, ataques a banco) de maneira mais segura do que seria possível in vivo.8

Referências

Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.

  1. Shapiro F. Eye movement desensitization and reprocessing: basic principles, protocols, and procedures. New York: Guilford; 1995.
  2. Cusack K, Jonas DE, Forneris CA, Wines C, Sonis J, Middleton JC, et al. Psychological treatments for adults with posttraumatic stress disorder: a systematic review and meta-analysis. Clin Psychol Rev. 2016;43(290):128-41.
  3. Seidler GE, Wagner FE. Comparing the efficacy of EMDR and trauma-focused cognitive-behavioral therapy in the treatment of PTSD: a meta-analytic study. Psychol Med. 2006;36(11):1515-22.
  4. Chen L, Zhang G, Hu M, Liang X. Eye movement desensitization and reprocessing versus cognitive-behavioral therapy for adult posttraumatic stress disorder. J Nerv Ment Dis. 2015;203(6):443-51.
  5. Powers MB, Emmelkamp PMG. Virtual reality exposure therapy for anxiety disorders: a meta-analysis. J Anxiety Disord. 2008;22(3):561-9.
  6. Gonçalves R, Pedrozo AL, Coutinho ESF, Figueira I, Ventura P. Efficacy of virtual reality exposure therapy in the treatment of PTSD: a systematic review. PLoS One. 2012;7(12):1-7.
  7. Rizzo AS. Virtual reality exposure therapy for PTSD and VR resilience training [Internet]. Youtube; 2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=nrgUPVFY44o>. Acesso em: 09 jan. 2018.
  8. Donat JC, Barbosa ME, Silva GR, Kristensen CH. Virtual reality exposure therapy for posttraumatic stress disorder of bank employees: a case study with the virtual bank. Context Clínicos. 2017;10(1):23-32.

Autores

Saulo Gantes Tractenberg
Gustavo Ramos Silva
Christian Haag Kristensen
Rodrigo Grassi-Oliveira