Psicoterapia nos transtornos relacionados a trauma e a estressores: TCC focada no trauma com crianças e adolescentes

Psicoterapia nos transtornos relacionados a trauma e a estressores: Terapia cognitivo-comportamental focada no trauma com crianças e adolescentes

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Introdução

Já que a apresentação do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) tem especificidades em crianças e adolescentes, protocolos de terapia cognitivo-comportamental focada no trauma (TCC-FT) devem ser adaptados para atender a essas demandas de modo mais adequado.

Por exemplo, crianças podem ter dificuldades de compreender a razão e a probabilidade de que eventos desagradáveis aconteçam, o que favorece o desenvolvimento de crenças pós-traumáticas negativas.

Crianças pequenas têm uma tendência natural de egocentrismo, generalizando e fornecendo explicações simplistas aos acontecimentos (p. ex., “Papai me bateu porque sou má”).

Em sua tentativa natural de dar sentido ao mundo, e como consequência do desenvolvimento de seu sistema de crenças morais (“as coisas devem ser justas”) e sociais (“atitudes erradas costumam ser punidas”), crianças que sofreram um trauma podem acreditar que mereceram isso ou que são causadoras da experiência traumática que vivenciaram.

Nesse sentido, crenças de autorresponsabilização e vergonha são comumente desenvolvidas, podendo ser reforçadas pelo próprio agressor durante a experiência traumática (p. ex., “isso é culpa sua”, “você gosta disso”).

Protocolo PRACTICE

Um dos protocolos mais reconhecidos para tratamento de crianças com TEPT, descrito brevemente a seguir, denomina-se PRACTICE.1

Esse protocolo tem diversos componentes:

  • Tratamento com os pais e desenvolvimento de habilidades parentais.
  • Psicoeducação.
  • Relaxamento e habilidade de manejo de estresse.
  • Habilidade de regulação emocional.
  • Habilidade de enfrentamento cognitivo.
  • Narrativa do trauma e processamento cognitivo da experiência traumática da criança.
  • Dessensibilizações in vivo.
  • Sessões conjuntas com pais.
  • Promoção de segurança e desenvolvimento futuro.

Como alguns desses componentes são comuns aos protocolos de tratamento em adultos, são descritos, a seguir, apenas os componentes específicos ao tratamento infantil, conforme são utilizados no Ambulatório do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Trauma e Estresse (NEPTE), na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

O componente de tratamento com os pais e o desenvolvimento de habilidade parentais é focado na psicoeducação e em técnicas de relaxamento, regulação emocional e coping cognitivo que são utilizadas ao longo do tratamento com a criança.

Sugere-se que, além de reforçarem a prática dessas técnicas com a criança, os pais as utilizem para manejo das próprias reações emocionais.

O treino de pais é realizado, também, por meio de programas de reforço de contingência comportamental, elogio positivo e atenção seletiva.

Habilidades de regulação emocional e de coping cognitivo são estimuladas por meio de jogos e atividades lúdicas. A criança é encorajada a expressar suas emoções, identificar pensamentos e comportamentos disfuncionais e promover estratégias mais adaptativas.

O terapeuta auxilia a criança a identificar as emoções mais difíceis de lidar e estratégias de manejo adequadas para as situações que ativam essas emoções. Nessa fase, algumas crianças podem inicialmente necessitar do auxílio dos pais para identificar emoções e aplicar estratégias adequadas.

Técnicas para o trabalho com pensamentos alternativos incluem a realização de desenhos, a prática de role-playing (i.e., encenação) e analogias com filmes e seriados que são familiares para a criança.

A narrativa do trauma e o processamento cognitivo da experiência traumática têm início após a criança ter adquirido habilidades de manejo de estresse. Em crianças que sofreram vários traumas, pode ser feita uma narrativa única ou, alternativamente, histórias separadas para os diferentes traumas. Quando a criança conseguir descrever detalhadamente a situação traumática, inclusive expressando os pensamentos, sentimentos e sensações corporais envolvidos, o terapeuta estimula-a a examinar e avaliar esses pensamentos e a considerar interpretações alternativas.

Nas sessões finais, a narrativa do trauma é expressa pela criança diretamente aos pais. É importante que os pais já tenham ouvido os detalhes da situação traumática e que tenham sido treinados pelo terapeuta sobre como escutar e fornecer suporte à criança.

Deve ser estimulada a comunicação aberta da criança com os pais sobre o trauma.

Isso leva a criança a sentir-se confortável ao discutir com os pais, no futuro, qualquer informação relevante de maneira espontânea, estando os pais também preparados para o manejo necessário.

As sessões em conjunto podem ocorrer ao longo do tratamento, caso haja dificuldades ao abordar questões ou comportamentos problemáticos.

Referências

Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.

  1. Cohen JA, Mannarino AP, Deblinger E. Treating trauma and traumatic grief in children and adolescents. New York: Guildford; 2006. p.256.

Autores

Saulo Gantes Tractenberg
Gustavo Ramos Silva
Christian Haag Kristensen
Rodrigo Grassi-Oliveira