Psicoterapia no transtorno bipolar: Psicoeducação
Ver também
- Psicoterapia no transtorno bipolar – Aspctos gerais
- Terapia cognitivo-comportamental (TCC)
- Terapia focada na família (TFF)
- Terapia de ritmo interpessoal e social (TRIPS)
Introdução
Em geral, o termo “psicoeducação” está associado à terapia cognitivo comportamental (TCC) e caracteriza a etapa inicial do tratamento.
A palavra pode ser entendida também como uma técnica a ser realizada durante o processo terapêutico que visa ao fluxo de informações de terapeuta para paciente, e vice-versa. É importante salientar que todas as intervenções psicoterapêuticas para o transtorno bipolar (TB) apresentam componentes psicoeducativos. Assim, nesta seção desde conteúdo, a psicoeducação é considerada uma intervenção psicossocial exclusivamente pedagógica, independentemente de abordagens teóricas.
Objetivos
Os principais objetivos da psicoeducação para os pacientes diagnosticados com TB, são:
- Conhecer as definições de critérios diagnósticos para o transtorno, sua etiologia e as principais formas de tratamento.
- Elaborar estratégias de identificação e prevenção de episódios de alteração do humor.
- Aprender métodos de lidar com eventos potencialmente estressores.
- Aumentar a adesão ao tratamento farmacológico.
Atualmente, estudos consistentes (nível de evidência 1A) sinalizam que a psicoeducação reduz a não adesão ao tratamento farmacológico e, quando combinada à TCC, melhora o funcionamento geral do paciente e reduz a ocorrência de sintomas de mania.1
Além disso, a intervenção está relacionada com redução na probabilidade de recaídas e aumento do tempo entre episódios, bem como apresenta custo e incidência de efeitos adversos baixos.
Os protocolos de intervenção de psicoeducação devem ir além de oferecer informações ao paciente sobre o TB. Sua meta é fazer do paciente um colaborador ativo em seu processo terapêutico, ampliando a eficiência da psicoeducação. Para tal, é relevante que o paciente esteja em fase de humor eutímico ou com poucos sintomas de depressão.
Nesse período, o paciente está mais propenso a aceitar e conhecer a doença, perceber que pode executar comportamentos de automoderação e identificar a si mesmo como capaz de assumir um processo autorreflexivo e de mudança.
Sobre protocolos e seções
Em geral, os protocolos de psicoeducação têm número de sessões preestabelecido e utilizam uma forma estruturada para a sequência de conteúdos para as sessões a serem desenvolvidas. A postura do terapeuta deve ser diretiva, colaborativa e empática à resolução dos problemas enfrentados pelo paciente. Portanto, é necessário que o terapeuta tenha habilidades profissionais de lidar com situações ambivalentes para os pacientes em diversas situações de vida.
O protocolo Psychoeducation Manual for Bipolar Disorder
O Psychoeducation Manual for Bipolar Disorder2 é um dos protocolos mais reconhecidos para o tratamento do TB. Sua aplicação pode ser tanto individual como em grupo, com número máximo de 12 participantes. Sua estrutura está disposta em cinco unidades:
- Conscientização do transtorno.
- Adesão ao tratamento farmacológico.
- Prevenção do uso de substâncias psicoativas.
- Detecção precoce de novos episódios.
- Hábitos regulares e manejo do estresse.
Essas unidades são abordadas de forma individualizada em uma intervenção.
O número de sessões pode variar entre 6 e 21 encontros.
Cada encontro pode ter duração variável entre 60 e 90 minutos.
Foi demonstrado que o tratamento em grupo pode trazer mais vantagens aos pacientes, especialmente reduzindo o número de recaídas e aumentando o tempo entre hospitalizações.3
Primeira unidade do protocolo - Conscientização do transtorno (sessões 1 a 6)
Total de encontros: 6
Primeiro encontro: destina-se a apresentações e estabelecimentos de regras para o tratamento. Esse momento se faz necessário especialmente nas modalidades de intervenção de grupo, pois são previstas combinações sobre a frequência dos encontros e regras de sigilo e de comunicação.
Segundo encontro: trata da definição do TB, conceitos de humor, emoções, desmistificação de ideias distorcidas do paciente e reforço da natureza biológica do transtorno.
Terceiro encontro: tem como conteúdo os fatores etiológicos e desencadeantes do TB, possibilitando ao paciente compreender possíveis determinantes para sua condição. Aqui, são distinguidas as noções de causalidade do transtorno (caráter biológico) e de desencadeante (pode ter caráter tanto biológico como comportamental).
Quarto e quinto encontros: lidam, respectivamente, com o refinamento sobre os sintomas de mania/hipomania e sobre os sintomas depressivos e mistos. Essas sessões são essenciais para a identificação de futuros sintomas iniciais de episódios de desregulação do humor.
Sexto encontro: são debatidos aspectos relacionados à evolução e ao prognóstico do TB, com explicações relativas a recuperação, remissão, manutenção, resposta, recaída, recorrência e viragem. São enfatizadas as características crônicas e cíclicas do transtorno.
O que se espera ao final da primeira unidade
Espera-se que o paciente saiba definir o que faz ou não faz parte do TB e sua perspectiva longitudinal, tanto retrospectiva quanto prospectiva. Na prática clínica, ressalta-se que diversos métodos de aprendizagem (fôlderes elucidativos, livros acessíveis a leigos, livros técnicos e filmes) colaboram com a conscientização sobre o transtorno e podem ser utilizados nesse momento da psicoeducação. Também nessa etapa, é útil incluir técnicas para o gerenciamento de sentimentos de medo, ansiedade, estigma e baixa autoestima.
Segunda unidade do protocolo - Adesão ao tratamento
Os estabilizadores do humor (sessões 7 a 9)
A segunda unidade do protocolo de Colom e Vieta contempla 7 sessões.2
Sessões 7 a 9: dizem respeito aos medicamentos relacionados com frequência à farmacoterapia do transtorno: estabilizadores do humor, antipsicóticos e antidepressivos, respectivamente.
Essas sessões são indicadas para ampliar a compreensão do paciente sobre a necessidade de intervenção medicamentosa, bem como da boa comunicação com os profissionais da saúde envolvidos no tratamento, para sinalização dos efeitos desejados e não desejados dos medicamentos.
Além desses tópicos específicos, o profissional deve estar preparado para esclarecer dúvidas pontuais comuns nos processos de psicoeducação, conforme ilustrado no exemplo a seguir.
Acesse aqui um Exemplo clínico
Esquemas especiais de tratamento (sessões 10 a 13)
Sessões 10 a 12: tratam de especificidades de alguns esquemas terapêuticos ou condições que frequentemente necessitam de atenção especial no tratamento de pessoas com TB – controle de níveis plasmáticos (litemia), gestação e aconselhamento genético, assim como realização de práticas terapêuticas alternativas.
Seção 13: essa sessão é completamente voltada para os riscos associados à retirada do tratamento medicamentoso, uma vez que a baixa adesão é um problema constante nesse contexto.
O que se espera ao final da segunda unidade
É esperado que o paciente se conscientize do papel da farmacoterapia e aperfeiçoe suas habilidades em colaborar com a proteção de seu humor. Tendo em vista que a adesão ao medicamento é objetivo primordial da psicoeducação, esses ensinamentos teóricos e práticos são vitais para motivar o paciente. No caso de tratamentos individuais, essas sessões podem ser adaptadas às necessidades de cada paciente. Informações sobre os conceitos de neuroprogressão e de deterioração cognitiva dos pacientes com TB sem tratamento podem ser relevantes nesse momento.4
Terceira unidade do protocolo - Proteção neuroquímica (sessão 14)
Sessão 14: na direção de uma proteção neuroquímica do paciente com TB, essa sessão aborda os riscos associados a substâncias psicoativas. É comum a comorbidade com abuso/dependência de substâncias (p. ex., álcool, maconha, cocaína, ácidos, etc.), e esse quadro está associado a piores condições de funcionamento e piores resultados no processo psicoeducativo.3,4 Além disso, é discutido o uso de estimulantes na alimentação (café, bebidas energéticas ou à base de cola) e de substâncias para tratamento de outras condições.
Quarta unidade do protocolo - Sugestões de mudanças comportamentais a serem adotadas (sessões 15 a 17)
A quarta unidade visa à individualização de atitudes práticas para monitoramento dos sintomas relacionados ao TB. Aqui, destaca-se a importância de personalizar essa etapa para cada paciente, visto que a manifestação dos episódios de alteração de humor pode variar conforme o contexto clínico do indivíduo.
Apesar da grande variabilidade na forma de manifestação dos episódios de desregulação do humor, seus sintomas iniciais duram período suficientemente longo para serem identificados: em torno de um mês.
Por isso, as sessões 15 e 16 podem ser conduzidas por meio de três passos para a identificação precoce de sintomas iniciais.
- Relembrar os conteúdos desenvolvidos nas sessões 4 e 5 (unidade 1) e se refere à informação dos sintomas potencialmente presentes em episódios de desregulação do humor.
- Esse passo é chamado de individualização e se refere à personalização de cada tipo de episódio.
- Especialização na identificação dos sintomas iniciais de cada episódio.
Esses passos são elaborados didática e colaborativamente para que o paciente reconheça como foram seus episódios de mania/hipomania, depressivos e/ou mistos anteriores, especialmente seus sintomas iniciais. Portanto, esses encontros servem para a detecção precoce de episódios futuros. Assim, o paciente passa a ter papel ativo no tratamento ao reconhecer sintomas que venham a gerar uma possível recaída.
Sessão 17: trata sobre o que fazer em caso de um novo episódio. Nesse momento, são elaboradas estratégias de ação e são identificados pontos de apoio para cada situação. Tais aspectos são fundamentais para a melhora do curso clínico do transtorno.
Unidade final do protocolo – Regulação de hábitos de vida, controle de estresse e solução de problemas (sessões 18 a 20)
A maioria dos pacientes com TB apresenta rupturas significativas na regulação de seu ritmo biológico e funcionamento. Aquisição de horários regulares de sono, alimentação e atividades físicas, bem como a estruturação de atividades sociais, são pontos-chave para manutenção do equilíbrio do humor.
Sessão 19: técnicas de controle de estresse são úteis, uma vez que situações estressoras podem desencadear novos episódios. Assim, nesta sessão, o terapeuta deve enfatizar o papel do estresse no desequilíbrio do humor; identificar, com o paciente, gatilhos estressores (passados e futuros); e ensinar técnicas de controle respiratório e de regulação de comportamentos impulsivos.
Sessão 20: trata da resolução de problemas. O processo de tomada de decisão dos pacientes com TB frequentemente sofre influência negativa do humor. Dessa forma, a aquisição de ferramentas para lidar com situações cotidianas é de grande importância (decisão a respeito de para quem contar sobre o diagnóstico, planejamento de férias, finanças, relacionamentos amorosos, etc.). Ao final, uma sessão de fechamento é incentivada para que sejam discutidos os benefícios da intervenção oferecida e identificadas as limitações e distorções ainda presentes no contexto.
Sessões de acompanhamento: é interessante sinalizar que, devido ao curso clínico do TB e às frequentes oscilações de motivação para o tratamento, sessões de acompanhamento após o término do protocolo são recomendáveis. Encontros trimestrais, semestrais ou anuais podem colaborar para a manutenção de humor eutímico e o reforço das aprendizagens da intervenção. Cabe ressaltar, ainda, a importância da comunicação congruente e coesa entre os membros da equipe de profissionais que lidam com pacientes com TB.
Evidências de eficácia/efetividade do protocolo
A administração precoce dessa intervenção apresenta potencial benefício ao paciente,5 pois um período longo de duração do TB não tratado está associado a pior curso clínico, como menor probabilidade de períodos de remissão completa de sintomas, maior ciclagem rápida e sintomas de ansiedade.6 Contudo, estudos de acompanhamento de longa duração são necessários para avaliar os potenciais efeitos dessas intervenções.
Psicoeducação da família do paciente com TB
A psicoeducação também pode ser realizada exclusivamente para familiares de pacientes com TB. Essa é uma estratégia considerada relevante como medida qualificadora dos cuidados prestados ao indivíduo diagnosticado com TB, bem como para prevenção da saúde desses cuidadores, frequentemente sobrecarregados.7 Em adaptação ao modelo proposto por Colom e Vieta, familiares de pacientes com TB foram submetidos a um modelo psicoeducacional em grupo de 12 sessões. Essa modalidade demonstrou ser eficaz como tratamento adjunto ao prestado aos pacientes, reduzindo o risco de recorrências, particularmente de mania e hipomania,7 e minimizando a percepção de sobrecarga nos cuidadores.7
A psicoeducação é uma intervenção de caráter pedagógico eficaz, tanto para a saúde do paciente com TB como para seus familiares.
Aplicativos para psicoeducação e monitoramento de sintomas do transtorno bipolar
O aperfeiçoamento de tecnologias levou à adaptação de protocolos de psicoeducação para aplicativos (iMoodJournal, SIMPLe, Daylio, etc.) e métodos de monitoramento de sintomas on-line (https://oxfordhealth.truecolours.nhs.uk/www/en/). Estudos iniciais sobre essas novas tecnologias sinalizam que elas são modalidades viáveis e bem aceitas pelos pacientes8 e que os efeitos de intervenções autoadministradas podem ser similares aos de modelos presenciais de tratamento.9
Referências
Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V. ; GREVET, E. H.(Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.
- Chatterton M Lou, Stockings E, Berk M, Barendregt JJ, Carter R, Mihalopoulos C. Psychosocial therapies for the adjunctive treatment of bipolar disorder in adults: network meta-analysis. Br J Psychiatry. 2017;210(5):333-41.
- Colom F, Vieta E. Psychoeducation manual for bipolar disorder. Cambridge: Cambridge University; 2006. p.218.
- Kallestad H, Wullum E, Scott J, Stiles TC, Morken G. The long-term outcomes of an effectiveness trial of group versus individual psychoeducation for bipolar disorders. J Affect Disord. 2016;202:32-8.
- Passos IC, Mwangi B, Vieta E, Berk M, Kapczinski F. Areas of controversy in neuroprogression in bipolar disorder. Acta Psychiatr Scand. 2016;134(2):91-103.
- Vieta E, Morilla I. Early group psychoeducation for bipolar disorder. Lancet Psychiatry. 2016;3(11):1000-1.
- Medeiros GC, Senço SB, Lafer B, Almeida KM. Association between duration of untreated bipolar disorder and clinical outcome: data from a Brazilian sample. Rev Bras Psiquiatr. 2016;38(1):6-10.
- Reinares M, Colom F, Sánchez-Moreno J, Torrent C, Martínez-Arán A, Comes M, et al. Impact of caregiver group psychoeducation on the course and outcome of bipolar patients in remission: a randomized controlled trial. Bipolar Disord. 2008;10(4):511-9.
- Hidalgo-Mazzei D, Mateu A, Reinares M, Murru A, del Mar Bonnín C, Varo C, et al. Psychoeducation in bipolar disorder with a SIMPLe smartphone application: feasibility, acceptability and satisfaction. J Affect Disord. 2016;200:58-66.
- Bilderbeck AC, Atkinson LZ, McMahon HC, Voysey M, Simon J, Price J, et al. Psychoeducation and online mood tracking for patients with bipolar disorder: A randomised controlled trial. J Affect Disord. 2016;205:245-51.
Autores
Ives Cavalcante Passos
Karen Jansen
Luciano Dias de Mattos Souza
Flávio Milman Shansis