Psicoterapia no transtorno bipolar - Psicoeducação: Exemplo clínico 2
Terapeuta: O uso de substâncias pode interferir em seu humor e no efeito esperado de seu tratamento. Você já usou drogas alguma vez na vida?
Paciente: Sim. Há muitos anos, usei cocaína algumas vezes.
Terapeuta: Você lembra da última vez em que usou?
Paciente: Acho que foi em uma festa com amigos que eu tinha na época. Foi bem naquele período que mudei de cidade e estava passando por um momento difícil.
Terapeuta: Você notou alguma alteração em seu humor? Como foram os dias seguintes?
Paciente: Eu lembro que estava muito irritado na época com a mudança de cidade. Naquela festa, acabei me envolvendo em uma briga. No dia seguinte, eu estava muito angustiado e agitado. Alguns dias depois, pedi demissão para começar um empreendimento, mas não consegui levar adiante, porque estava muito agitado e desconcentrado. Pelo que conversamos nas outras sessões, acho que foi um dos momentos mais “pra cima” de minha vida.
Terapeuta: É bastante possível que o uso de cocaína tenha colaborado com a instabilidade de seu humor e causado ou agravado um episódio de mania.
Paciente: Ainda bem que não uso mais.
Terapeuta: Sim. Esse tipo de droga estimulante pode causar prejuízos importantes. Existe alguma outra substância ilegal ou legal que você perceba que altera seu humor dessa maneira?
Paciente: Minha esposa diz que, quando bebo muito café, fico muito agitado. Acho que é um pouco parecido.
Terapeuta: Como ela percebe isso?
Paciente: De vez em quando, ela sabe que exagerei no café, porque fico mais elétrico, não paro quieto e falo mais rápido. Também fico sem vontade de dormir à noite e mais tempo trabalhando em coisas da casa. Faço barulho, e ela não gosta, pois já está tarde.
Terapeuta: Sim, te entendo. É parecido com os momentos “pra cima”?
Paciente: Quase. Isso não costuma durar muito tempo... Algumas horas, 1 a 2 dias talvez.
Terapeuta: Ok. Acredito que seria bom monitorar o consumo do café e limitar a quantidade para evitar que isso colabore com alguma oscilação de humor. Você acha que é possível?
Paciente: Sim. Não sinto necessidade de tomar café todos os dias. Posso não tomar ou diminuir bastante.
Referência
Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V. ; GREVET, E. H.(Orgs.). Psicoterapias : abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.
Autores
Ives Cavalcante Passos
Karen Jansen
Luciano Dias de Mattos Souza
Flávio Milman Shansis