Psicoterapia no transtorno bipolar: Terapia de ritmo interpessoal e social
Ver também
- Psicoterapia no transtorno bipolar – Aspctos gerais
- Psicoeducação
- Terapia cognitivo-comportamental (TCC)
- Terapia focada na família (TFF)
Introdução
Sujeitos com transtorno bipolar (TB) apresentam dificuldades na manutenção do ritmo circadiano e problemas nas relações interpessoais. Em vista disso, a adição da terapia de ritmo social à TIP deu origem a uma nova proposta de intervenção individual projetada especificamente para o tratamento do TB: a terapia de ritmo interpessoal e social (TRIPS).
A TRIPS foi estabelecida a partir de um modelo cronobiológico do TB e postula que os indivíduos com esse transtorno têm predisposição genética a apresentar problemas na manutenção do ritmo circadiano e do ciclo sono-vigília, os quais podem ser responsáveis, em parte, pelas manifestações sintomáticas da doença.
Nesse modelo, eventos de vida (tanto negativos como positivos) podem causar interrupções nos ritmos sociais dos pacientes que, por sua vez, perturbam os ritmos circadianos e os ciclos de sono-vigília, levando ao desenvolvimento de sintomas de alteração de humor.
Como os demais modelos de intervenção para o tratamento do TB, essa abordagem deve ser combinada com a intervenção farmacológica. Dessa forma, a TRIPS combina os princípios básicos da TIP com técnicas comportamentais para ajudar os pacientes a regularizar suas rotinas diárias, diminuir problemas interpessoais e aderir a regimes medicamentosos.
Objetivos
A terapia tem por objetivo modular fatores biológicos e psicossociais, a fim de diminuir as vulnerabilidades circadianas e do ciclo sono-vigília dos pacientes, melhorando o funcionamento geral e gerenciando de modo mais adequado o potencial caos decorrente dos sintomas de alteração de humor do TB.
A proposta de Frank e colaboradores1 para a TRIPS está focada:
- Na relação entre humor e eventos de vida.
- Na importância da manutenção de ritmos diários regulares elucidados por meio da Social Rhythm Metric (instrumento projetado para categorizar as diferenças individuais na regularidade do ritmo social, bem como rastrear o declínio e a recuperação de um episódio afetivo).
- Na identificação e no manejo de potenciais preditores de desregulação do ritmo, com atenção especial aos desencadeantes interpessoais.
- Na facilitação do luto pelo “eu-sadio” perdido.
- Na identificação e no manejo dos sintomas de alteração de humor.
O processo terapêutico
O processo terapêutico é dividido em quatro fases que serão descritas em detalhes a seguir:
- Inicial.
- Intermediária.
- Preventiva.
- Final.
Fase inicial do processo terapêutico
Na fase inicial, o clínico coleta informações sobre a história da doença, conduz um inventário interpessoal, identifica uma área de problemas interpessoais, educa o paciente sobre o transtorno e aplica a Social Rhythm Metric.
O tratamento pode ser iniciado enquanto o paciente estiver totalmente sintomático, subsindrômico ou eutímico.
Como o tratamento dos sintomas agudos pode retardar o início das principais características da TRIPS, a duração da fase inicial pode variar de muitas semanas a diversos meses, dependendo da gravidade dos sintomas atuais do paciente.
Durante esse período, o paciente e o terapeuta se reúnem semanalmente em sessões de 45 minutos.
Fase intermediária do processo terapêutico
A fase intermediária do tratamento é realizada semanalmente ao longo de alguns meses. Durante esse período, o terapeuta ajuda o paciente a desenvolver estratégias para controlar os sintomas afetivos, estabilizar os ritmos diários e resolver a área de problema interpessoal selecionada.
O terapeuta também fornece um espaço para o paciente lamentar o “eu-sadio” perdido, lutar contra a negação da doença e encontrar um equilíbrio entre a espontaneidade e a estabilidade.
Fase preventiva do processo terapêutico
O principal objetivo dessa fase é evitar novos episódios de humor e melhorar o funcionamento durante períodos eutímicos.
Aqui a frequência do tratamento diminui para mensal e dura dois ou mais anos.
O paciente tem a oportunidade de consolidar os ganhos terapêuticos e aumentar a confiança em sua capacidade de aplicar as técnicas da TRIPS fora das sessões.
Fase final do processo terapêutico
O terapeuta analisa os êxitos terapêuticos, bem como as potenciais vulnerabilidades do paciente, ajudando-o a identificar estratégias para o gerenciamento das dificuldades interpessoais futuras e do surgimento de sintomas.
O término deve ser gradual, e o paciente deve ser encorajado sobre sua capacidade de exercer suas novas habilidades de forma independente.
No final do tratamento, os pacientes podem ser felicitados pelo progresso que atingiram em seus relacionamentos interpessoais e na estabilidade do ritmo social durante o curso da TRIPS.
Considerações finais
A TRIPS tem-se mostrado eficaz na remissão de sintomas e na prevenção de novos episódios em pacientes com TB.2 Além disso, a TRIPS também melhora o funcionamento global, os relacionamentos interpessoais e a satisfação com a vida nos pacientes com o transtorno. Recentemente, um grupo norte-americano desenvolveu o MoodRhythm, um aplicativo que incorpora elementos de autorrelato existentes na TRIPS, como a verificação de humor e de atividades, e os combina com as medidas obtidas por meio dos sensores de smartphones.3
Referências
Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V. ; GREVET, E. H.(Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.
- Frank E, Swartz HA, Kupfer DJ. Interpersonal and social rhythm therapy: managing the chaos of bipolar disorder. Biol Psychiatry. 2000;48(6):593-604.
- Crowe M, Beaglehole B, Inder M. Social rhythm interventions for bipolar disorder: a systematic review and rationale for practice. J Psychiatr Ment Health Nurs. 2016;23(1):3-11.
- Matthews M, Abdullah S, Murnane E, Voida S, Choudhury T, Gay G, et al. Development and evaluation of a smartphone-based measure of social rhythms for bipolar disorder. Assessment. 2016;23(4):472-83.
Autores
Ives Cavalcante Passos
Karen Jansen
Luciano Dias de Mattos Souza
Flávio Milman Shansis