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A carbamazepina é um bloqueador dos canais de sódio e cálcio dependentes de voltagem do glutamato, com ação originalmente anticonvulsivante e antineurálgica para dor crônica, mas também apresenta evidência como medicação antimaníaca.

O seu principal mecanismo de ação é o bloqueio dos canais de sódio pré-sinápticos voltagem-dependentes. Acredita-se que esse bloqueio iniba a liberação de glutamato na fenda sináptica e estabilize as membranas neuronais. Essas ações seriam as responsáveis pelos efeitos anticonvulsivante e analgésico (central e periférico), via diminuição dos impulsos neuronais excitatórios espontâneos. Subagudamente, a carbamazepina reduz a metabolização (turnover) da dopamina e, em concentrações maiores, inibe a recaptação da noradrenalina e da serotonina, o que poderia explicar suas propriedades antimaníacas.

As ações anticonvulsivantes parecem ser exercidas na amígdala por meio de receptores BZDs do tipo periférico. Esse sistema está relacionado à entrada do cálcio e ao transporte de colesterol na membrana, produzindo aumento na formação de pregnenolona, que posteriormente é transformada em um esteroide neuroativo com ação anticonvulsivante nos receptores BZDs do tipo central.

A carbamazepina atua, ainda, diminuindo o turnover do GABA e bloqueando receptores glutamatérgicos do tipo NMDA, além de apresentar uma atividade anticolinérgica moderada. Por fim, com o uso crônico, ela apresentaria algumas ações antidepressivas, com uma série de ações de longo prazo sobre o TRH, a substância P, a somatostatina, os receptores α-adrenérgicos, a adenosina e o turnover do IP3.

Farmacocinética

Após ingestão oral, sua absorção é lenta e errática. O pico sérico plasmático é atingido entre 4 e 8 horas após a administração na forma de comprimido, e em 2 horas na forma de suspensão oral. Sua ligação com proteínas plasmáticas situa-se em torno de 75 a 80%, mas seu efeito terapêutico está relacionado à porção livre, que varia de 7 a 31%. A biodisponibilidade da formulação de liberação lenta é 15% mais baixa do que a das demais preparações orais. Seu metabolismo é principalmente hepático, por meio do sistema mitocondrial oxidativo CYP3A4, com inúmeros metabólitos. Menos de 3% é excretado de forma inalterada pela urina. A meia-vida está entre 18 e 54 horas (média de 24 horas, antes do processo de autoindução do metabolismo).

A carbamazepina é uma potente indutora de enzimas hepáticas, particularmente CYP3A4, CYP1A2 e CYP2C9, induzindo seu próprio metabolismo, podendo sua meia-vida ser reduzida para 8 horas com o uso crônico – razão pela qual é fundamental controlar suas concentrações séricas nos primeiros meses de uso. A autoindução (taquifilaxia)1 costuma completar-se em 2 a 4 semanas. Além disso, interfere no metabolismo de muitos medicamentos. É excretada pelo rim (72%) e pelas fezes (28%).

A carbamazepina tem eficácia comprovada por meio de estudos no tratamento de mania aguda, no episódio misto e, com evidências discretamente menores, na fase de manutenção.1,2 Quando associada a outros estabilizadores do humor (em especial ao lítio), diminui a taxa de recorrência e hospitalizações no tratamento de manutenção do TB.3 Também, em casos de ciclagem rápida, sua adição ao regime farmacológico promove benefícios profiláticos consideráveis.2

Após 5 dias de uma dose estável, deve-se fazer uma dosagem sérica (com intervalo de 12 horas entre a tomada e a coleta sanguínea) e, de acordo com os níveis e com a resposta clínica, seguir aumentando a dosagem, se necessário. Após 2 a 4 semanas de tratamento, a meia-vida é reduzida pela autoindução do metabolismo, sendo recomendável ingerir a dose diária em mais tomadas ao dia (p. ex., 3 a 4 vezes) ou, preferencialmente, aumentar a dosagem.

Referências

Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.

  1. Post R, Ketter TA, Uhde T, Ballanger JC. Thirty years of clinical experience with carbamazepine in the treatment of bipolar illness: principles and practice. CNS Drugs. 2007;21(1):47-71. PMID [17190529]
  2. Yatham LN, Kennedy SH, Parikh SV, Schaffer A, Bond DJ, Frey BN, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders (ISBD) 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disord. 2018;20(2):97-170. PMID [29536616]

Organizadores

Aristides Volpato Cordioli

Carolina Benedetto Gallois

Ives Cavalcante Passos

Autores

Vanessa Gnielka