Clomipramina > Farmacodinâmica e farmacocinética

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Classe, mecanismo de ação e farmacodinâmica

A clomipramina é uma amina terciária do grupo dos ADTs, porém o que a destaca entre os demais ADTs é sua potente ação serotonérgica. Tem também afinidade por receptores colinérgicos (ACh), adrenérgicos (α1), histaminérgicos (H1), serotonérgicos (5-HT2) e dopaminérgicos (DA). O efeito noradrenérgico pode ser devido, pelo menos em parte, à desmetilclomipramina, que inibe de forma significativa a recaptação da noradrenalina e tem meia-vida de eliminação de aproximadamente 96 horas.

A clomipramina promove, ainda, redução na sensibilidade dos receptores α-adrenérgicos. Em razão desse perfil farmacológico, produz efeitos anticolinérgicos intensos (xerostomia, visão borrada, taquicardia sinusal, constipação intestinal, retenção urinária, alterações da memória), anti-histamínicos (sedação, ganho de peso) e de bloqueio α-adrenérgico (hipotensão postural, tonturas, retardo na ejaculação, taquicardia reflexa). Aparentemente, apresenta maior efeito nas funções sexuais (p. ex., inibição da ejaculação), talvez devido à sua importante ação serotonérgica e α-adrenérgica.1

Farmacocinética

É bem absorvida por VO e sofre extensa desmetilação durante o metabolismo hepático de primeira passagem para seu principal metabólito, a desmetilclomipramina. Esse processo reduz sua biodisponibilidade para menos de 62%. A clomipramina tem uma farmacocinética de eliminação de primeira ordem, e seu pico de concentração geralmente ocorre entre 2 e 6 horas. Apresenta meia-vida de eliminação de 24 horas, permitindo o uso em dose única diária. No cérebro, a concentração é equivalente a 2% da concentração plasmática. Tem alta ligação proteica (98%) e grande volume de distribuição. Sua excreção ocorre basicamente por via renal (60%) e nas fezes (30%).1,2

Esse fármaco demonstrou eficácia no tratamento do TDM,3 em diversos transtornos de ansiedade, como TP,4 e principalmente no TOC.5 É o agente mais serotonérgico entre os ADTs, e sua eficácia no tratamento do TOC foi bem estabelecida mediante várias metanálises e ECRs, sendo claramente superior, por exemplo, a ADs mais noradrenérgicos, como a desipramina. Metanálises que comparam a eficácia no TOC da clomipramina com a dos ISRSs evidenciam uma leve superioridade desse fármaco, o que não se confirma em estudos controlados que comparam um medicamento diretamente com outro. Contudo, em função de um melhor perfil de efeitos adversos, os ISRSs costumam ser a primeira escolha nesse transtorno, e a clomipramina, então, permanece como alternativa para casos mais resistentes.5

Referências

Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.

  1. Trimble MR. Worldwide use of clomipramine. J Clin Psychiatry. 1990;51 Suppl:51-8. PMID [2199435]
  2. McTavish D, Benfield, P. Clomipramine: an overview of its pharmacological properties and a review of its therapeutic use in obsessive compulsive disorder and panic disorder. Drugs.1990;39(1):136-53. PMID [2178909]
  3. Cipriani A, Furukawa T, Salanti G, Chaimani A, Atkinson L, Ogawa Y, et al. Comparative efficacy and acceptability of 21 antidepressant drugs for the acute treatment of adults with major depressive disorder: a systematic review and network meta-analysis. Lancet. 2018;391(10128):1357-66. PMID [29477251]
  4. Du Y, Du B, Diao Y, Yin Z, Li J, Shu Y, et al. Comparative efficacy and acceptability of antidepressants and benzodiazepines for the treatment of panic disorder: A systematic review and network meta-analysis. Asian J Psychiatr. 2021;60:102664. PMID [33965693]
  5. Del Casale A, Sorice S, Padovano A, Simmaco M, Ferracuti S, Lamis DA, et al. Psychopharmacological treatment of obsessive-compulsive disorder (OCD). Curr Neuropharmacol. 2019;17(8):710-36. PMID [30101713]

Organizadores

Aristides Volpato Cordioli

Carolina Benedetto Gallois

Ives Cavalcante Passos

Autores

Marcelo Basso de Souza