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Classe, mecanismo de ação e farmacodinâmica
A desvenlafaxina é um IRSN, com fraca afinidade por transportadores dopaminérgicos no córtex pré-frontal.1
Em comparação à venlafaxina, a desvenlafaxina apresenta maior potência de bloqueio dos transportadores noradrenérgicos. E, assim como a venlafaxina, ela é, em baixas doses, predominantemente um inibidor de serotonina, associando a inibição da noradrenalina com a elevação das doses. A desvenlafaxina não é um IRSN equilibrado, sendo 10 vezes mais potente na inibição serotonérgica em comparação à noradrenérgica, similar à duloxetina.2 Entretanto, ela ainda é mais equilibrada do que a venlafaxina (que é 30 vezes mais serotonérgica do que noradrenérgica), com atividade noradrenérgica mais consistente.
Como os demais IRSNs, em dosagens menores, surgem os efeitos colaterais serotonérgicos; e, nas dosagens mais altas, os efeitos colaterais noradrenérgicos. Não tem afinidade significativa in vitro com outros receptores, tais como colinérgicos, muscarínicos, histaminérgicos, adrenérgicos e segundos mensageiros.1 A desvenlafaxina também não tem afinidade significativa com canais iônicos rápidos, incluindo cálcio, cloreto, potássio e sódio, o que a faz ser uma medicação relativamente segura na intoxicação.
Farmacocinética
A desvenlafaxina, na formulação oral do O-desmetilvenlafaxina, é o principal e primeiro metabólito ativo da venlafaxina.3 Apresenta biodisponibilidade oral de aproximadamente 80%. O pico de concentração plasmática é em torno de 7,5 horas após a administração oral. A meia-vida de eliminação é de aproximadamente 11 horas. Com a administração 1 vez ao dia, são alcançadas concentrações plasmáticas em estado de equilíbrio em cerca de 4 a 5 dias. A ligação a proteínas plasmáticas é baixa (30%) e independente da concentração do medicamento. A excreção renal é a maior via de eliminação da desvenlafaxina, com 45% de excreção inalterada na urina.
Ela tem baixo potencial para interações medicamentosas,4 pois é primariamente metabolizada por conjugação e, em menor parte, por metabolismo oxidativo. A CYP3A4 é a isoenzima do citocromo P450 que participa do metabolismo oxidativo da desvenlafaxina. Menos de 5% da desvenlafaxina sofre metabolismo hepático, o que faz dela um dos ADs mais vantajosos em doenças do fígado. A variabilidade do seu metabolismo é menos influenciada pela genética do sujeito, em comparação à venlafaxina. A venlafaxina necessita da enzima CYP2D6 para sua metabolização, a qual não está envolvida na metabolização da desvenlafaxina.1 A desvenlafaxina não apresenta metabólitos ativos e não há influência da raça no seu metabolismo.
A única aprovação da desvenlafaxina pela FDA é para TDM, em 2008. A dose recomendada é de 50 a 100 mg/dia, com melhoras significativas em relação ao placebo. É eficaz no tratamento agudo e na prevenção de recaídas de novos episódios depressivos. Também é eficaz no tratamento de sintomas vasomotores associados à menopausa, na dosagem de 100 mg/dia. Ela não foi extensivamente comparada com os demais ADs, em termos de eficácia.
Em análises secundárias, com doses mais altas, houve melhora dos sintomas dolorosos associados à depressão unipolar. Em pacientes com dor crônica, em polifarmácia e com insuficiência hepática, a desvenlafaxina pode ser uma boa opção, tanto para a depressão comórbida quanto para o tratamento de dores neuropáticas.1,5
O efeito colateral mais comum é a náusea. Em doses terapêuticas, ela não afeta a condução cardíaca (incluindo o intervalo QT),6 nem altera o limiar convulsivante. Pacientes com resposta positiva inicial apresentam maior chance de remissão na 8ª semana.
Referências
Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.
- Kornstein SG, McIntyre RS, Thase ME, Boucher M. Desvenlafaxine for the treatment of major depressive disorder. Expert Opinion Pharmacother. 2014;15(10):1449-63. PMID [24914479]
- Berhan Y, Berhan A. Is desvenlafaxine effective and safe in the treatment of menopausal vasomotor symptoms? A meta-analysis and meta-regression of randomized double-blind controlled studies. Ethiop J Health Sci. 2014;24(3):209-18. PMID [25183927]
- Yang LPH, Plosker GL. Desvenlafaxine extended release. CNS Drugs. 2008;22(12):1061-9. PMID [18998743]
- Low Y, Setia S, Lima G. Drug-drug interactions involving antidepressants: Focus on desvenlafaxine. Neuropsychiatric Dis Treat. 2018;14:567-80. PMID [29497300]
- Alcántara-Montero A. Desvenlafaxina y dolor neuropático: beneficios clínicos adicionales de un inhibidor de la recaptación de serotonina-noradrenalina de segunda generación. Rev Neurol. 2017;64(5):219-26. PMID [28229443]
- Carrasco JL, Kornstein SG, McIntyre RS, Fayyad R, Prieto R, Salas M, et al. An integrated analysis of the efficacy and safety of Desvenlafaxine in the treatment of major depressive disorder. Int Clin Psychopharmacol. 2016;31(3):136-46. PMID [26895080]
Organizadores
Aristides Volpato Cordioli
Carolina Benedetto Gallois
Ives Cavalcante Passos
Autores
Alexandre Annes Henriques