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Classe, mecanismo de ação e farmacodinâmica
Pertencente à classe dos adamantanos, a amantadina é uma amina tricíclica sintética hidrossolúvel utilizada originalmente como antiviral na profilaxia e no tratamento de infecções pelo vírus influenza A.1 Posteriormente, descobriu-se também que tem ação antiparkinsoniana, por meio de mecanismos menos conhecidos.
A ação da amantadina contra influenza A se dá por meio da inibição do vírus ao se ligar à proteína M2 de sua membrana. Já sua ação no SNC se dá por diferentes mecanismos. Apresenta agonismo dopaminérgico, e, portanto, promove aumento do tônus monoaminérgico, e antagonismo parcial dos receptores NMDA, então modula a transmissão de glutamato, contribuindo para o aumento de neurotrofinas cerebrais, estabiliza a membrana neuronal e promove diminuição do estresse oxidativo, envolvendo mecanismos de alteração do funcionamento glial no sistema nervoso.2-5
Farmacocinética
A amantadina é bem absorvida por VO e amplamente distribuída, com tendência a se concentrar nos tecidos; por isso, é encontrada em pouca quantidade na circulação. O pico de concentração plasmática é atingido em aproximadamente 3,3 horas, e o estado de equilíbrio plasmático, em 4 a 7 dias. Sua biodisponibilidade fica inalterada quando administrada em doses superiores a 50 a 300 mg, e sua concentração plasmática parece ter correlação com a melhora de ECEs e efeitos tóxicos. Noventa por cento da dose ingerida é excretada na urina de forma inalterada por meio de filtração glomerular e da secreção tubular. A amantadina tem meia-vida de eliminação de cerca de 16 horas em pacientes com função renal preservada. Somente de 5 a 15% da amantadina é metabolizada (acetilação).1,2,6
É usada em monoterapia ou em combinação com levodopa ou agonistas de receptores dopaminérgicos no tratamento dos sintomas da DP precoce e avançada, bem como em casos de ECEs induzidos por substâncias. Também pode diminuir a discinesia e flutuações motoras desencadeadas pela levodopa.2,3,7
Estudos recentes em desenvolvimento sugerem que a amantadina possa ser usada como adjuvante no tratamento da esquizofrenia para melhora de sintomas positivos, negativos, cognitivos e na catatonia.3,4 Existem evidências também para seu uso no tratamento da discinesia tardia induzida por medicamento no tratamento dos transtornos psicóticos.8 Seu uso também pode auxiliar na atenuação do ganho de peso relacionado ao uso de APs dentro dessa população.9
Potencial efeito terapêutico da amantadina tem sido investigado em outros transtornos mentais. Em relação ao TOC, um ensaio clínico randomizado com 100 pacientes portadores de TOC grave demonstrou diferença estatística do uso adjuvante de amantadina no tratamento com fluvoxamina 200 mg/dia, sugerindo uma possibilidade terapêutica para esses fins.10 Também se tem avaliado seu uso em alguns transtornos psiquiátricos da infância, como TDAH e TEA, com dados limitados apresentando efeitos terapêuticos positivos com relativa segurança nessa faixa etária, ainda que seu uso não seja aprovado para tais fins.2
Referências
Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.
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Organizadores
Aristides Volpato Cordioli
Carolina Benedetto Gallois
Ives Cavalcante Passos
Autores
Leonardo de Almeida Sodré