Psicoterapia nos transtornos neurocognitivos maiores (demências)

Psicoterapia nos transtornos neurocognitivos maiores (demências)

Introdução

As intervenções psicoterápicas para os transtornos neurocognitivos visam à redução dos sintomas comportamentais, à preservação das funções cognitivas pelo maior tempo possível, à melhora da qualidade de vida e da capacidade funcional e ao alívio da sobrecarga do cuidador.

As abordagens psicoterápicas estão sempre indicadas no tratamento dos pacientes com transtornos neurocognitivos em conjunto com o tratamento farmacológico para os sintomas cognitivos e funcionais. Além disso, são a primeira opção no tratamento dos sintomas comportamentais, considerando as limitações, os riscos e os potenciais efeitos colaterais dos psicofármacos.

Além do comprometimento cognitivo nos transtornos neurocognitivos maiores (TNMs, ou demências), sintomas comportamentais (neuropsiquiátricos) ocorrem frequentemente e estão associados a dificuldades nos cuidados com os pacientes, institucionalização precoce e sobrecarga do cuidador.1-3

O prejuízo cognitivo da demência implica incapacitação e, consequentemente, dependência de cuidados de terceiros. Portanto, as intervenções psicoterápicas envolvem necessariamente paciente e cuidador.4,5 Os efeitos dessas intervenções são observados em relação aos seguintes desfechos no paciente: sintomas comportamentais, cognição, qualidade de vida e declínio funcional. As psicoterapias podem também exercer efeito sobre a sobrecarga e a qualidade de vida do cuidador.

O caráter progressivo desses transtornos requer que as intervenções psicoterápicas sejam adaptadas a cada estágio da doença e limitadas no tempo.

Embora as demências possam ter várias etiologias, as intervenções psicoterápicas são as mesmas.

Em relação ao tratamento dos sintomas comportamentais das demências, há indicações do uso de psicofármacos para amenizar alguns sintomas, entretanto os resultados são limitados e associados a potenciais riscos e efeitos colaterais.6-8

Desse modo, as intervenções não farmacológicas, por exemplo, as psicoterapias, devem ser priorizadas no manejo dos sintomas neuropsiquiátricos da demência.9,10

As demências não se encaixam em um modelo conceitual específico de psicoterapia, todavia alguns sintomas comportamentais decorrentes de fatores ambientais ou da relação com o cuidador podem ser entendidos dentro do modelo comportamental.

Técnicas mais comuns utilizadas no tratamento dos TNMs (demências)

Estudos sobre as intervenções não farmacológicas demonstram grande heterogeneidade das técnicas utilizadas, no uso isolado ou combinado, assim como nos efeitos em diferentes desfechos.

As intervenções não farmacológicas podem ser agrupadas em três grandes categorias:11

  • Intervenções de estimulação sensorial: aromaterapia, musicoterapia, acupuntura, massagem, entre outras.
  • Intervenções focadas na cognição: são divididas em três grupos – estimulação, reabilitação e treino cognitivos. Essas intervenções objetivam um aprimoramento do funcionamento cognitivo e social do paciente.
  • Técnicas de manejo comportamental: incluem ensino de estratégias compensatórias para o paciente, psicoeducação aos familiares, treino na solução de problemas com identificação de desencadeantes dos sintomas e de suas consequências, bem como seu manejo e treinamento de habilidades de comunicação, entre outras.

As principais técnicas psicoterápicas estão incluídas na segunda e terceira categorias descritas e são psicoeducação para familiares e/ou cuidadores, intervenções cognitivas e terapia comportamental.

Conheça mais sobre cada uma dessas terapias por meio dos links a seguir:

Referências

Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.

  1. American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 5. ed. Porto Alegre: Artmed; 2014. p.948.
  2. Feast A, Moniz-Cook E, Stoner C, Charlesworth G, Orrell M. A systematic review of the relationship between behavioral and psychological symptoms (BPSD) and caregiver well-being. Int Psychogeriatr. 2016; 28(11):1761-74.
  3. Lyketsos CG, Lopez O, Jones B, Fitzpatrick AL, Breitner J, DeKosky S. Prevalence of neuropsychiatric symptoms in dementia and mild cognitive impairment: results from the cardiovascular health study. JAMA. 2002;288(12):1475-83.
  4. Moniz Cook ED, Swift K, James I, Malouf R, De Vugt M, Verhey F. Functional analysis-based interventions for challenging behaviour in dementia. Cochrane Database Sys Rev. 2012;(2):CD006929.
  5. Laver K, Dyer S, Whiehead C, Clemson L, Crotty M. Interventions to delay functional decline in people with dementia: a systematic review of systematic reviews. BMJ Open. 2016;27:6(4).
  6. Tan L, Tan L, Wang HF, Wang J, Tan CC, Tan MS, et al. Efficacy and safety of atypical antipsychotic drug treatment for dementia: a systematic review and meta-analysis. Alzheimers Res Ther. 2015;7(1):20.
  7. Locca JF, Büla CJ, Zumbach S, Bugnon O. Pharmacological treatment of behavioral and psychological symptoms of dementia (BPSD) in nursing homes: development of practice recommendations in a Swiss canton. J Am Med Dir Assoc. 2008;9(6):439-48.
  8. Sink KM, Holden KF, Yaffe K. Pharmacological treatment of neuropsychiatric symptoms of dementia: a review of the evidence. JAMA. 2005;293(5):596-608.
  9. Seitz DP, Brisbin S, Herrmann N, Rapoport MJ, Wilson K, Gill SS, et al. Efficacy and feasibility of nonpharmacological interventions for neuropsychiatric symptoms of dementia in long term care: a systematic review. J Am Med Dir Assoc. 2012;13(6):503-6.
  10. Turner S. Behavioral symptoms of dementia in residential settings: A selective review of non-pharmacological interventions. Aging and Mental Health. 2005;9(2):93-104.
  11. Abraha I, Rimland JM, Trotta FM, Dell’Aquila G, Cruz-Jentoft A, Petrovic M, et al. Systematic review of systematic reviews of nonpharmacological interventions to treat behavioral disturbances in older patients with dementia. The SENATOR-On Top series. BMJ Open. 2017;7(3).

Autores

Claudia Godinho
Letícia M. K. Forster
Analuiza Camozzato