Psicoterapia nas deficiências intelectuais e no transtorno do espectro autista: Evidências de eficácia de outros modelos de intervenção
Ver também
Intervenção comportamental intensiva precoce (EIBI, do inglês early intensive behavioral intervention)
Uma metanálise que computou os achados de um ensaio clínico randomizado (ECR) controlado e de quatro ensaios controlados não randomizados, somando um total de 203 participantes pré-escolares com TEA, mostrou efeitos benéficos com considerável tamanho de efeito para todas as medidas de desfecho avaliadas, a saber: promoção de funcionamento adaptativo, melhora do quociente de inteligência (QI) e aprimoramento das habilidades de comunicação e de socialização.1
Tratamento da resposta pivotal (PRT, do inglês pivotal response treatment)
Em um ensaio clínico, 30 crianças com TEA com idade entre 6 e 11 anos foram submetidas a 2 sessões por semana de 60 minutos cada de PRT ou ABA. Crianças no grupo de PRT tiveram menos comportamentos disruptivos em relação àquelas no grupo de ABA.2
Modelo Denver de intervenção de início precoce (ESDM, do inglês early start Denver model)
Um ECR controlado incluiu 48 crianças de 18 a 30 meses com diagnóstico de TEA e comparou o ESDM com intervenção normalmente disponível na comunidade. As crianças foram mantidas em intervenção por 2 anos.
Os resultados mostraram que as crianças que receberam o ESDM apresentaram aumento no QI e no repertório de comportamentos adaptativos, bem como a reversão do diagnóstico de TEA para transtorno invasivo do desenvolvimento não especificado.3
Intervenções precoces mediadas pelos pais
Uma metanálise congregou dados de 17 ECRs controlados, totalizando 919 crianças.
As abordagens terapêuticas usadas nesses estudos foram bastante diversificadas, mas, de forma geral, as intervenções parentais não apresentaram mudanças significativas nos desfechos mais diretamente ligados a sintomas autísticos. Existe evidência de que essas intervenções podem melhorar a qualidade da interação entre os pais e a criança.4
Tratamento e educação de crianças com autismo e com dificuldades de comunicação (TEACCH, do inglês treatment and education of autistic and related communication-handicapped children)
Uma metanálise identificou 6 estudos controlados e 6 estudos abertos com o uso de TEACCH para crianças com TEA. Nenhuma menção foi feita aos procedimentos de randomização.
Os achados desses estudos apontaram para um possível efeito terapêutico em crianças e adultos com TEA, mas os efeitos eram pequenos para comunicação, atividade de vida diária e desenvolvimento motor. Os ganhos mostraram-se maiores para aspectos de sociabilidade e comportamentos desadaptativos.5
Musicoterapia
Uma metanálise que computou dados de 9 ECRs controlados e um ensaio controlado não randomizado evidenciou que a musicoterapia pode melhorar significativamente as interações sociais, a comunicação verbal e não verbal, a iniciativa de comportamentos e a reciprocidade socioemocional de crianças com autismo.
Intervenções físicas para desenvolvimento motor de crianças com deficiência intelectual
Uma revisão sistemática de literatura de 2016 identificou apenas 2 ECRs sobre o uso de intervenções físicas na promoção do desenvolvimento de habilidades motoras grossas em crianças com deficiência intelectual. Apesar de os achados serem limitados a poucos estudos e de as abordagens usadas por diferentes estudos serem bastante heterogêneas, existem evidências iniciais de que o treino de tarefa específico pode melhorar o desempenho de motricidade grossa na deficiência intelectual.6
Outra revisão de literatura focou especificamente os treinamentos neuromusculares para síndrome de Down e encontrou 7 estudos controlados. Os resultados mostraram efeito de grande a moderado na força geral; de moderado a pequeno na força máxima; e pequeno na mobilidade funcional.7 Isso sugere que talvez essas intervenções precisem ser mais bem compreendidas para se ter certeza de que são efetivas na promoção de comportamentos adaptativos.
Picture Exchange Communication System (PECS)
Apesar de ser uma abordagem terapêutica bastante consagrada na prática clínica, poucos estudos testaram a eficácia empírica do PECS. Uma revisão sistemática da literatura identificou apenas 3 ECRs controlados que testaram a eficácia do PECS no aumento dos comportamentos de comunicação, na intencionalidade de comunicação e no compartilhamento de atenção de indivíduos com TEA.
Esses estudos demonstraram benefícios do PECS em curto prazo, mas a resposta clínica não se manteve após alguns meses da intervenção.8
Terapia de integração auditiva (AIT, do inglês auditory integration training)
Uma metanálise identificou 7 ECRs controlados que testaram a AIT para indivíduos com TEA. Entre eles, apenas 2 estudos, envolvendo somente 35 participantes, mostraram melhoras estatisticamente significativas em duas medidas de desfecho.9
Intervenções baseadas em modelos de teoria da mente (ToM, do inglês Theory of Mind)
Uma metanálise identificou 22 ECRs controlados, e os dados conjuntos desses estudos foram considerados uma evidência fraca e de baixa qualidade de que habilidades de ToM podem ser ensinadas a indivíduos com TEA.
Existe pouca evidência de que essa intervenção possa ter efeitos propagáveis e que produzam avanços desenvolvimentais significativos.10
Intervenções sensoriais
As intervenções sensoriais são desenhadas para abordar as dificuldades de processamento sensorial das crianças com atrasos do desenvolvimento. A proposta teórica diz que elas ajudariam a organizar e controlar a regulação do ambiente sensorial.
Apesar de estarem se tornando cada vez mais populares, não existem evidências empíricas que suportem o uso dessas abordagens, tanto para TEA como para deficiência intelectual.11
Referências
Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H.(Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.
- Reichow B, Barton EE, Boyd BA, Hume K. Early intensive behavioral intervention (EIBI) for young children with autism spectrum disorders (ASD). Cochrane Database Syst Rev. 2012;10:CD009260.
- Mohammadzaheri F, Koegel LK, Rezaei M, Bakhshi E. A Randomized clinical trial comparison between Pivotal Response Treatment (PRT) and Adult-Driven Applied Behavior Analysis (ABA) intervention on disruptive behaviors in public school children with autism. J Autism Dev Disord. 2015;45(9):2899-907.
- Dawson G, Rogers S, Munson J, Smith M, Winter J, Greenson J, et al. Randomized, controlled trial of an intervention for toddlers with autism: the Early Start Denver Model. Pediatrics. 2010;125(1):e17-23.
- Oono IP, Honey EJ, McConachie H. Parent-mediated early intervention for young children with autism spectrum disorders (ASD). Cochrane Database Syst Rev. 2013(4):CD009774.
- Virues-Ortega J, Julio FM, Pastor-Barriuso R. The TEACCH program for children and adults with autism: a meta-analysis of intervention studies. Clin Psychol Rev. 2013;33(8):940-53.
- Hocking J, McNeil J, Campbell J. Physical therapy interventions for gross motor skills in people with an intellectual disability aged 6 years and over: a systematic review. Int J Evid Based Healthc. 2016;14(4):166-74.
- Sugimoto D, Bowen SL, Meehan WP, Stracciolini A. Effects of neuromuscular training on children and young adults with down syndrome: systematic review and meta-analysis. Res Dev Disabil. 2016;55:197-206.
- Preston D, Carter M. A review of the efficacy of the picture exchange communication system intervention. J Autism Dev Disord. 2009;39(10):1471-86.
- Sinha Y, Silove N, Hayen A, Williams K. Auditory integration training and other sound therapies for autism spectrum disorders (ASD). Cochrane Database Syst Rev. 2011(12):CD003681.
- Fletcher-Watson S, McConnell F, Manola E, McConachie H. Interventions based on the Theory of Mind cognitive model for autism spectrum disorder (ASD). Cochrane Database Syst Rev. 2014(3):CD008785.
- Barton EE, Reichow B, Schnitz A, Smith IC, Sherlock D. A systematic review of sensory-based treatments for children with disabilities. Res Dev Disabil. 2015;37:64-80.
Autores
Tais Silveira Moriyama
Tiago Zanatta Calza
Ana Soledade Graeff-Martins