Psicoterapia nos transtornos depressivos
Introdução
Os transtornos depressivos caracterizam um grupo de patologias que compartilham sintomas comuns, como tristeza e anedonia, acompanhados de sintomas somáticos e cognitivos e que afetam significativamente o funcionamento e a qualidade de vida do indivíduo.
A depressão maior representa a condição clássica desse grupo e, em geral, é recorrente, associada a altos níveis de incapacitação funcional e prejuízo na qualidade de vida. Veja os critérios diagnósticos do DSM-5 para transtorno depressivo maior.
A depressão é uma importante questão de saúde pública, pois acomete 5 a 15% da população em geral, gerando grande incapacitação.
A depressão piora a saúde de forma mais impactante que outras doenças crônicas, como angina, artrite, asma e diabetes.1 Além disso, o custo anual com tratamento de sintomas depressivos no Brasil supera os gastos com doenças crônicas, como osteoporose e esquizofrenia.
Apesar da alta prevalência da depressão e de seu importante impacto, os tratamentos disponíveis são moderadamente eficazes, e, ainda hoje, a maioria dos pacientes com depressão não recebe um cuidado apropriado.2
Epidemiologia e curso da doença
A depressão é bastante frequente no mundo. Dados recentes da Organização Mundial da Saúde3 apontam que, entre 1990 e 2013, houve aumento de quase 50% no número de pessoas comprometidas por algum transtorno do humor, e perto de 10% da população mundial atual é afetada de alguma forma.
No Brasil, a prevalência estimada ao longo da vida é de aproximadamente 14% e, nos últimos 12 meses, de 8%.4,5
A depressão é duas vezes mais comum em mulheres do que em homens, podendo manifestar-se em qualquer idade, mas com maior média de ocorrência em torno dos 25 anos.6
Apesar de ser um quadro prevalente, a depressão é subdiagnosticada.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), menos de 50% das pessoas com depressão recebem tratamento no mundo, passando para menos de 10% em alguns países.
Entre pacientes com transtorno depressivo tratados em atenção primária no Brasil, cerca de apenas 9% são tratados de forma adequada com antidepressivos, e, após 9 meses de tratamento, apenas 25% apresentam remissão dos sintomas.
As barreiras ao cuidado efetivo incluem a falta de recursos, a falta de profissionais treinados e o estigma social associado aos transtornos mentais.
O curso da depressão maior é bastante variável, porém a recorrência dos sintomas é frequente. Por exemplo, cerca de metade dos indivíduos que atingiram remissão de um primeiro episódio depressivo terá um ou mais episódios adicionais durante a vida. Após o terceiro episódio depressivo, a recorrência é ainda mais comum, ocorrendo em cerca de 90% dos indivíduos.7
Os pacientes apresentam, em média, 5 a 9 episódios depressivos durante a vida.
Algumas variáveis já foram identificadas como preditoras de pior prognóstico nos transtornos depressivos, como a maior gravidade e duração do episódio, a ocorrência de sintomas ansiosos associados e a comorbidade com transtornos da personalidade.
A depressão está relacionada a altas taxas de mortalidade, principalmente por suicídio. O risco de um paciente com depressão cometer suicídio é cerca de 20 vezes maior comparado com o da população em geral.8
Os transtornos depressivos são comuns nos jovens, e aproximadamente 20% deles apresentam um episódio depressivo até os 19 anos.4,5 Esses dados são de extrema relevância para a saúde pública, pois esta é a faixa etária em que a mortalidade por suicídio mais aumentou nos últimos anos, tanto no Brasil9 como em outros lugares do mundo.10
Dentro dessa perspectiva, alguns autores desenvolveram intervenções destinadas a jovens, aplicadas em escolas, faculdades ou na comunidade, com o objetivo de diminuir sintomas subsindrômicos de depressão.11
As intervenções que utilizam técnicas cognitivo-comportamentais mostram-se as mais frequentes e são responsáveis pela redução de até 60% da sintomatologia.11 A maior parte dessas intervenções aborda fatores associados com o desencadeamento da depressão, como cognições negativas, atividades prazerosas restritas e déficit de habilidade social e de estratégias adequadas de solução de problemas.12
O tempo de intervenção é bastante variável: 1 a 10 sessões.11
Tratamento da depressão
As evidências indicam que a combinação de farmacoterapia e manejo psicoterápico se mostra efetiva e possibilita melhora, ainda que muitas vezes parcial, para a maioria dos pacientes.
Ao longo dos últimos anos, um maior investimento em estudos baseados em evidências demonstrou a eficácia das psicoterapias no manejo da depressão, mesmo que os tratamentos farmacológicos apresentem maior visibilidade.
As abordagens psicoterápicas para a compreensão da depressão reconhecem e entendem os transtornos do humor como influenciados fortemente por fatores genéticos, biológicos e ambientais.
De fato, a doença depressiva serve como um modelo ideal para estudar como os genes e o ambiente interagem, e essa interação acaba manifestando-se sob a forma de sintomas clínicos.
Agora, é possível reconhecer que a etiologia da depressão unipolar inclui, aproximadamente, fatores 40% genéticos e 60% ambientais.13
O tratamento da depressão pode ser feito com psicofármacos ou psicoterapia. O uso de fármacos no tratamento da depressão tem a mesma evidência de eficácia da terapia cognitivo-comportamental (TCC), porém apresenta como incômodos a ocorrência de efeitos colaterais, a dificuldade de adesão em longo prazo e o risco de abandono terapêutico precoce.10
Entre as psicoterapias, a TCC é a técnica mais embasada em evidência, com 63 ensaios clínicos demonstrando sua eficácia. O tamanho de efeito dessa intervenção é considerado moderado (g = 0,75).14
Quanto mais técnicas cognitivas são adicionadas a técnicas comportamentais, mais a TCC mostra-se eficaz, inclusive em longo prazo.9
Poucos estudos avaliaram a eficácia de procedimentos específicos de TCC, pois a validade dessa abordagem é feita com um conjunto de técnicas.
A técnica da ativação comportamental é uma das poucas abordagens que foi testada isoladamente. Essa técnica pode ser aplicada mais facilmente, em virtude do menor treinamento necessário dado aos profissionais.11
Um estudo recente comparou a ativação comportamental com a TCC e descobriu que a primeira, mesmo aplicada por um profissional sem muita experiência, não foi inferior à TCC-padrão.15
Existem poucos estudos que compararam a TCC com outras psicoterapias. A TCC se mostrou mais eficaz quando comparada com todas as outras terapias, embora não haja diferença de eficácia quando a comparação é feita isoladamente entre a TCC,16 a terapia interpessoal (TIP)16 e a terapia psicodinâmica.17
No entanto, são poucos os estudos que compararam a eficácia das diferentes técnicas de psicoterapias, então esses resultados ainda são preliminares.
A indicação de psicoterapia e/ou farmacoterapia depende da gravidade do quadro e das preferências do paciente.
Pacientes com depressão leve devem ser preferencialmente tratados com psicoterapia.
Para aqueles com depressão moderada, deve ser feita uma ponderação entre tratamento psicoterápico, farmacológico ou combinado.
Em pacientes com depressão grave, é imperativo iniciar o tratamento farmacológico imediatamente, associado ou não à psicoterapia.
A avaliação de um paciente com depressão sempre deve incluir a identificação minuciosa do risco de suicídio, de indicação de internação ou de outras abordagens, como a eletroconvulsoterapia ou a neuroestimulação.16
As técnicas mais utilizadas são terapia cognitivo-comportamental (TCC), a terapia interpessoal (TIP) e a terapia psicodinâmica.
Conheça mais sobre cada uma dessas terapias por meio dos links a seguir:
Referências
Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.
- Moussavi S, Chatterji S, Verdes E, Tandon A, Patel V, Ustun B. Depression, chronic diseases, and decrements in health: results from the World Health Surveys. Lancet. 2007;370(9590):851-8.
- Mor N, Haran D. Cognitive-behavioral therapy for depression. Isr J Psychiatry Relat Sci. 2009;46(4):269-73.
- World Health Organization. Investing in treatment for depression and anxiety leads to fourfold return. Geneva: WHO; 2016.
- Hankin BL, Abramson LY, Moffitt TE, Silva PA, McGee R, Angell KE. Development of depression from preadolescence to young adulthood: emerging gender differences in a 10-year longitudinal study. J Abnorm Psychol. 1998;107(1):128-40.
- Lewinsohn PM, Rohde P, Seeley JR. Major depressive disorder in older adolescents: prevalence, risk factors, and clinical implications. Clin Psychol Rev. 1998;18(7):765-94.
- Machado SCEP. Psicoterapia psicodinâmica das depressões e psicoterapia do luto normal e patológico. In: Cordioli AV, organizador. Psicoterapias: abordagens atuais. 3. ed. Porto Alegre: Artmed; 2008. p.399-411.
- Kessler RC, McGonagle KA, Zhao S, Nelson CB, Hughes M, Eshleman S, et al. Lifetime and 12-month prevalence of DSM-III-R psychiatric disorders in the United States. Results from the National Comorbidity Survey. Arch Gen Psychiatry. 1994;51(1):8-19.
- Burcusa SL, Iacono WG. Risk for recurrence in depression. Clin Psychol Rev. 2007;27(8):959-85.
- Alves VM, Francisco LC, de Melo AR, Novaes CR, Belo FM, Nardi AE. Trends in suicide attempts at an emergency department. Rev Bras Psiquiatr. 2017;39(1):55-61.
- Bridge JA, Greenhouse JB, Sheftall AH, Fabio A, Campo JV, Kelleher KJ. Changes in suicide rates by hanging and/or suffocation and firearms among young persons aged 10-24 years in the United States: 1992-2006. J Adolesc Health. 2010;46(5):503-5.
- Christensen H, Pallister E, Smale S, Hickie IB, Calear AL. Community-based prevention programs for anxiety and depression in youth: a systematic review. J Prim Prev. 2010;31(3):139-70.
- Stice E, Shaw H, Bohon C, Marti CN, Rohde P. A meta-analytic review of depression prevention programs for children and adolescents: factors that predict magnitude of intervention effects. J Consult Clin Psychol. 2009;77(3):486-503.
- Nemeroff CB, Heim CM, Thase ME, Klein DN, Rush AJ, Schatzberg AF. Differential responses to psychotherapy versus pharmacotherapy in patients with chronic forms of major depression and childhood trauma. Proc Natl Acad Sci U S A. 2003;100(24):14293-6.
- Cuijpers P, Cristea IA, Karyotaki E, Reijnders M, Huibers MJH. How effective are cognitive behavior therapies for major depression and anxiety disorders? A meta-analytic update of the evidence. World Psychiatry. 2016;15(3):245-58.
- Richards DA, Ekers D, McMillan D, Taylor RS, Byford S, Warren FC, et al. Cost and outcome of behavioural activation versus cognitive behavioural therapy for depression (COBRA): a randomised, controlled, non-inferiority trial. Lancet. 2016;388(10047):871-80.
- Parikh SV, Quilty LC, Ravitz P, Rosenbluth M, Pavlova B, Grigoriadis S, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2016 Clinical guidelines for the management of adults with major depressive disorder: section 2. Psychological treatments. Can J Psychiatry. 2016;61(9):524-39.
- Driessen E, Van Henricus L, Peen J, Don FJ, Kool S, Westra D, et al. Therapist-rated outcomes in a randomized clinical trial comparing cognitive behavioral therapy and psychodynamic therapy for major depression. J Affect Disord. 2015;170:112-8.
Autores
Carolina Blaya Dreher
Alice C. M. Xavier
Pedro Beria
Guilherme Kirsten Barbisan
Cinthia D. A. Vasconcelos Rebouças
Marcelo Pio de Almeida Fleck
Neusa Sica da Rocha