Clordiazepóxido > Farmacodinâmica e farmacocinética

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Classe, mecanismo de ação e farmacodinâmica

O clordiazepóxido potencializa o efeito inibitório do neurotransmissor GABA, modulando a atividade dos receptores GABA-A por meio da ligação com seu sítio específico (receptores BZDs). Tal ligação altera a conformação desses receptores, aumentando a afinidade do GABA com seus próprios receptores e a frequência da abertura dos canais de cloro, cuja entrada no neurônio é regulada por esse neurotransmissor, ocasionando a hiperpolarização da célula. O resultado dessa hiperpolarização é um aumento da ação gabaérgica inibitória do SNC.

Farmacocinética

O clordiazepóxido foi o primeiro derivado BZD disponível para uso clínico, lançado no mercado em 1959. Com o diazepam, foi um dos sedativos mais prescritos em todo o mundo nas décadas de 1960 e 1970. Além de ansiolítico, é anticonvulsivante e relaxante muscular. É rápida e integralmente absorvido por VO. A injeção IM é dolorosa, e a absorção por essa via é lenta e errática. A meia-vida de eliminação em indivíduos sadios, após uma única dose, situa-se entre 5 e 30 horas, entre intermediária e longa. O pico plasmático é atingido em 1 a 5 horas após administração oral. O volume de distribuição varia de 0,25 a 0,50 L/kg. É metabolizado no fígado com vários metabólitos ativos: demoxepam, desmetilclordiazepóxido (que tem meia-vida de eliminação longa, superior a 100 horas), desmetildiazepam e oxazepam. A excreção é de 60% na urina e de 10 a 20% nas fezes. A depuração do clordiazepóxido é reduzida, e a meia-vida é prolongada em idosos, em pacientes com cirrose e naqueles que estejam recebendo concomitantemente terapia com dissulfiram.1

Sendo o primeiro BZD sintetizado, durante um bom tempo o clordiazepóxido foi utilizado como ansiolítico. Na atualidade, junto ao diazepam e ao lorazepam (injetável), é um dos fármacos de escolha nos Estados Unidos para o tratamento da síndrome de abstinência de álcool e BZDs e, eventualmente, de opioides.2,3 O clordiazepóxido é uma das alternativas para o tratamento dessa condição, particularmente em pacientes com história de convulsões, DT ou que possam vir a apresentar algum desses problemas.4,5

O clordiazepóxido pode ser empregado, ainda, no tratamento das síndromes de retirada de BZDs em dependentes desses medicamentos. Nesses casos, deve-se substituir o BZD que estava sendo usado (se este for de meia-vida curta) pelo clordiazepóxido, em doses equivalentes, procedendo-se posteriormente à retirada lenta e gradual da mesma forma que a descrita para o álcool. Conforme antes citado, a apresentação comercial que possibilitava esses usos não está mais disponível no Brasil.

No passado, a combinação de clordiazepóxido e amitriptilina foi bastante utilizada no tratamento da depressão. Entretanto, a maioria dos estudos com tal intervenção foi realizada utilizando baixas doses do AD em pacientes com depressão leve ou moderada e não incluiu um grupo com placebo. Além disso, com a combinação, torna-se difícil o uso de doses do AD (amitriptilina) em concentrações terapêuticas recomendadas, e, muitas vezes, a associação de um BZD pode agravar os quadros depressivos.

Referências

Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.

  1. Greenblatt DJ, Shader RI, MacLeod SM, Sellers EM. Clinical pharmacokinetics of chlordiazepoxide. Clin Pharmacokinet. 1978;3(5):381-94. PMID [359214]
  2. Radoucothomas S, Garcin F, Guay D, Marquis PA, Chabot F, Huot J, et al. Double blind study on the efficacy and safety of tetrabamate and chlordiazepoxide in the treatment of the acute alcohol withdrawal syndrome. Prog Neuropsychopharmacol Biol Psychiatry. 1989;13(1-2):55-75. PMID [2664886]
  3. Drummond DC, Turkington D, Rahman MZ, Mullin PJ, Jackson P. Chlordiazepoxide vs. methadone in opiate withdrawal: a preliminary double blind trial. Drug Alcohol Depend. 1989;23(1):63-71. PMID [2646089]
  4. Saitz R, Mayo-Smith MF, Roberts MS, Redmond HA, Bernard DR, Calkins DR. Individualized treatment for alcohol withdrawal: a randomized double-blind controlled trial. JAMA. 1994;272(7):519-23. PMID [8046805]
  5. Saitz R, O’Malley SS. Pharmacotherapies for alcohol abuse: withdrawal and treatment. Med Clin North Am. 1997;81(4):881-907. PMID [9222259]

Organizadores

Aristides Volpato Cordioli

Carolina Benedetto Gallois

Ives Cavalcante Passos

Autores

Cristiano Tschiedel Belem da Silva