Clozapina > Farmacodinâmica e farmacocinética

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Classe, mecanismo de ação e farmacodinâmica

A clozapina é um composto heterocíclico do grupo das dibenzodiazepinas, sendo considerada um APA devido ao seu perfil clínico e neuroquímico. Embora tenha atividade antipsicótica, não produz ECEs significativos em humanos (o que é um efeito direto do bloqueio D2 no sistema nigroestriatal). Tem baixa afinidade pelos receptores D2 (ocupa-os somente entre 40 e 50%), o que resulta em aumento na razão do bloqueio D1/D2. Bloqueia também outros receptores (como D1, D3, D4, colinérgicos e serotonérgicos, em especial 5-HT2A e 5-HT2C), demonstrando um perfil de ação diferente dos demais APs (que bloqueiam principalmente receptores D2).

Níveis elevados de D4 foram encontrados no córtex frontal, na região mesencefálica, na amígdala e no bulbo, em contraposição a níveis muito baixos detectados nos gânglios da base (onde supostamente se originam ECEs), explicando, desse modo, a aparente não ocorrência de discinesia tardia, rigidez muscular e acinesia durante o tratamento com clozapina. A clozapina tem atividade anticolinérgica e antiadrenérgica.

Doses superiores a 450 mg/dia envolvem risco aumentado de reações adversas, particularmente de convulsões, cuja ocorrência é dose-dependente e aumenta 0,7% a cada 100 mg. Poucos pacientes necessitam de doses superiores a 650 mg/dia. Na presença de convulsões, deve-se administrar concomitantemente um anticonvulsivante (de preferência AVP), que pode ser usado de modo profilático quando empregadas doses superiores a 550 mg/dia.

Farmacocinética

Apresenta meia-vida de eliminação de 10 a 17 horas, e sua absorção não é afetada pela ingestão de alimentos. O pico plasmático é atingido em 1 a 3 horas, podendo levar mais de 10 dias para alcançar a estabilização da concentração sérica. Existe uma relação linear entre a dose oral de clozapina na faixa de 25 a 800 mg/dia e sua concentração plasmática. Liga-se em 92 a 95% às proteínas plasmáticas. É metabolizada no fígado, provavelmente pela isoenzima CYP1A2, e, em menor grau, pelas isoenzimas 2D6 e 3A4, em norclozapina.

A clozapina vem sendo utilizada principalmente no tratamento da esquizofrenia refratária. Existem inúmeras evidências de sua superioridade em relação a outros APs. Em 2009, uma metanálise da Cochrane, incluindo 3.950 indivíduos, demonstrou superioridade da clozapina em relação aos APTs em quatro aspectos: sintomas da esquizofrenia, ocorrência de recaída, ECEs e grau de satisfação dos pacientes. A maioria dos estudos incluídos envolvia clorpromazina ou haloperidol.1

A superioridade da clozapina em relação a outros APSGs foi confirmada por uma metanálise publicada em 2013 que comparou 15 APs no tratamento da esquizofrenia. A clozapina teve melhor desempenho em relação à eficácia, mas não foi melhor em relação a diferentes efeitos colaterais e à descontinuação em comparação às outras substâncias.2

Também foi verificada a superioridade da clozapina em relação a outros APs no controle de comportamento agressivo e suicida não apenas na esquizofrenia, mas em outros transtornos com psicose e em outros transtornos psiquiátricos e/ou transtornos orgânicos.3

A clozapina tem sido usada para tratar a agitação e sintomas psicóticos em pacientes com transtornos neurocognitivos maiores, especialmente quando decorrentes da DP, em razão de não piorar os distúrbios de movimento.4 A clozapina é também indicada no manejo da discinesia tardia provocada por outros APs.5 Com boas evidências de eficácia, estudos recentes mostram que a clozapina é também indicada a pacientes com TB grave refratário a outros medicamentos.6 Pacientes com tumores produtores de prolactina e que necessitam de APs devem ser medicados com clozapina, uma vez que ela não provoca hiperprolactinemia. Em razão de raramente provocar ECEs, é uma opção para pacientes que apresentam tais efeitos com outros APs.

Seu uso é limitado apenas pelo risco de agranulocitose, um efeito colateral grave, porém raro, demandando, no entanto, realização periódica de exames de rotina. Especialmente nos primeiros 6 meses, o uso de clozapina está associado a risco de leucopenia (3%) e agranulocitose (1%), que eventualmente podem ser fatais. No entanto, em uma metanálise de sete estudos que incluíram mais de 31.000 pacientes que foram tratados com clozapina e acompanhados por até 2 anos, a incidência cumulativa de neutropenia grave após 12 meses de tratamento diminuiu para um nível quase insignificante de 0,3 a 0,4 casos por 100 pessoas-ano de exposição.7

Referências

Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.

  1. Essali A, Al-Haj Haasan N, Li C, Rathbone J. Clozapine versus typical neuroleptic medication for schizophrenia. Cochrane Database Syst Rev. 2009;2009(1):CD000059. PMID [19160174]
  2. Leucht S, Cipriani A, Spineli L, Mavridis D, Orey D, Richter F, et al. Comparative efficacy and tolerability of 15 antipsychotic drugs in schizophrenia: a multiple-treatments meta-analysis. Lancet. 2013;382(9896):951-62. PMID [23810019]
  3. Frogley C, Taylor D, Dickens G, Picchioni M. A systematic review of the evidence of clozapine’s anti-aggressive effects. Int J Neuropsychopharmacol. 2012;15(9):1351-71. PMID [22339930]
  4. Miyasaki JM, Shannon K, Voon V, Ravina B, Kleiner-Fisman G, Anderson K, et al. Practice parameter: evaluation and treatment of depression, psychosis, and dementia in Parkinson disease (an evidence-based review): report of the Quality Standards Subcommittee of the American Academy of Neurology. Neurology. 2006;66(7):996-1002. PMID [16606910]
  5. Spivak B, Mester R, Abesgaus J, Wittenberg N, Adlersberg S, Gonen N, et al. Clozapine treatment for neuroleptic-induced tardive dyskinesia, parkinsonism, and chronic akathisia in schizophrenic patients. J Clin Psychiatry. 1997;58(7):318-22. PMID [9269253]
  6. Delgado A, Velosa J, Zhang J, Dursun SM, Kapczinski F, Cardoso TA. Clozapine in bipolar disorder: a systematic review and meta-analysis. J Psychiatr Res. 2020;125:21-27. PMID [32182485]
  7. Myles N, Myles H, Xia S, Large M, Kisely S, Galletly C, et al. Meta-analysis examining the epidemiology of clozapine-associated neutropenia. Acta Psychiatr Scand. 2018;138(2):101-9. PMID [29786829]

Organizadores

Aristides Volpato Cordioli

Carolina Benedetto Gallois

Ives Cavalcante Passos

Autores

Rafael Rocha Luzini