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Classe, mecanismo de ação e farmacodinâmica
A bupropiona é um AD pertencente ao grupo das aminocetonas que age como um inibidor não seletivo dos transportadores da dopamina e da noradrenalina, inibindo a recaptação desses neurotransmissores (IRND). Conta com metabólitos ativos, e seu metabólito ativo principal, a hidroxibupropiona, tem meia-vida de 20 a 27 horas. Alguns estudos sugerem uma ação antagonista nos receptores nACh, o que pode colaborar para sua ação no tratamento do tabagismo. Praticamente não tem ação sobre a recaptação da serotonina, apresentando efeitos sobre os sistemas de busca de novidade, gratificação ou prazer, em contrapartida aos ISRSs, que apresentam atuações mais notáveis sobre os comportamentos de inibição mediados pela rafe.1
Estudos pré-clínicos e observações empíricas sugerem que sintomas como retardo psicomotor, anedonia, hipersonia, pensamento lento, desatenção, pseudodemência e “fissura” sejam secundários à deficiência de dopamina. Tais sintomas parecem responder ao uso de bupropiona.
A bupropiona não tem efeitos sobre os receptores serotonérgicos, muscarínicos, histaminérgicos e α-adrenérgicos.
Farmacocinética
A bupropiona é uma fenilaminocetona monocíclica, com estrutura semelhante à da anfetamina. É rapidamente absorvida no TGI (1,5 hora), e o pico plasmático da forma IR é atingido em cerca de 3 horas. Assim como esperado, as formulações SR, utilizadas em 2 doses diárias, e XL, em uma dose diária, têm tempos de absorção superiores (3 e 5 horas, respectivamente). Embora os tempos de absorção sejam diferentes, as três formas são consideradas bioequivalentes.2 A absorção não sofre influência da ingestão de alimentos. Liga-se a proteínas plasmáticas em aproximadamente 85%, e a meia-vida é de 21 horas em média, podendo variar de 8 a 39 horas. Seis horas depois da administração, as concentrações plasmáticas são de apenas 30% da concentração no pico. Sua metabolização é predominantemente hepática, pela isoenzima CYP2B6, e potenciais interações com outros fármacos metabolizados pela isoenzima CYP2B6, como a nortriptilina, devem ser consideradas. Além disso, a bupropiona inibe moderadamente a isoenzima CYP2D6, reduzindo a depuração dos agentes metabolizados por essa enzima. A bupropiona tem metabólitos que parecem ser ativos (com efeitos do tipo anfetamina) e responsáveis por ação clínica; no entanto, a contribuição de cada um na resposta terapêutica ainda não é clara. Como os metabólitos têm meia-vida maior do que a própria bupropiona, após várias doses, a concentração plasmática é maior. Seu perfil de interações com outras substâncias é relativamente favorável.1,3 A bupropiona atinge o estado de equilíbrio em 5 dias, e seus metabólitos, em 10 dias (em média 8 dias). Apresenta ampla distribuição nos tecidos. A eliminação do fármaco e de seus metabólitos ocorre em 87% pela urina e 10% pelas fezes.
É normalmente bem tolerada, devido ao seu perfil de efeitos colaterais. Raramente produz sedação e costuma causar pouca ou nenhuma disfunção sexual.3 Concentra-se na saliva, produzindo um pouco de secura na boca. Raramente desencadeia “fissura” por doces, como os ADTs, e ganho de peso. Parece ser mais comum que gere uma leve diminuição do apetite do que o aumento.
A eficácia da bupropiona para depressão em adultos está bem estabelecida4 em suas três apresentações principais. No entanto, como a bupropiona XL parece ser bioequivalente às apresentações de liberação imediata e SR e permite apenas uma dose diária, otimizando a tolerabilidade e a adesão, tem sido a opção de preferência. O tratamento da depressão por até 1 ano mostrou reduzir a taxa de recaída. Na apresentação XL, demonstrou ser efetiva na prevenção de novos episódios de transtorno depressivo com padrão sazonal.5
A bupropiona é um dos ADs recomendados por especialistas para a depressão bipolar.
Além de eficaz no tratamento da depressão, a bupropiona revelou-se mais efetiva do que o placebo para auxiliar na cessação do tabagismo.6 Recentemente também se mostrou efetiva para o tratamento do tabagismo em pacientes com transtornos do espectro da esquizofrenia.7
No tratamento do TDAH, é considerada uma opção de segunda linha, depois do metilfenidato e da lisdexanfetamina,8 mas pode ser uma opção interessante para pacientes com potencial de abuso de estimulantes e em pacientes que tiverem depressão como comorbidade. Em doses de 300 mg/dia, mostrou-se efetiva para o tratamento do transtorno do interesse/excitação sexual feminino.9 No entanto, é importante informar que outra metanálise10 encontrou forte influência do efeito placebo no tratamento desse transtorno, sugerindo cautela para essa indicação. Também na dose de 300 mg/dia, há estudos11 mostrando eficácia para o tratamento de disfunção sexual induzida por ISRSs.
Há estudos clínicos randomizados demonstrando eficácia da bupropiona na fadiga relacionada ao câncer,12 e algumas evidências menos robustas para fadiga relacionada a outras doenças clínicas.
Recente metanálise demonstrou que a bupropiona, na combinação com a naltrexona, apresentou maior eficácia na perda de peso em comparação com placebo, e tem evidência de eficácia para tratamento da obesidade.13 Os estudos também destacam o cuidado necessário com eventos adversos na descontinuação do fármaco. É indicado juntamente com dieta e exercícios físicos.13
Referências
Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.
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Organizadores
Aristides Volpato Cordioli
Carolina Benedetto Gallois
Ives Cavalcante Passos
Autores
Eduardo Schneider Vitola
Eugenio Horacio Grevet
Rafael Gomes Karam