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Terapêutica
Nomes comerciais:
- Referência: Depakene® (Abbott)
- Similar: Epilenil (Biolab); Lavie (Prati Donaduzzi); Valpakine (Sanofi); Vodsso (Abbot)
- Genérico: Valproato de sódio (Abbott; Hipolabor; Prati Donaduzzi)
Apresentações:
- Comprimido revestido de liberação entérica de 300 mg – Embalagem com:
- 25 cp: Depakene®; Prati Donaduzzi; Abbott
- 30 cp: Prati Donaduzzi
- 300* cp: Prati Donaduzzi
- Comprimido revestido de liberação entérica de 500 mg – Embalagem com:
- 30 cps: Prati Donaduzzi
- 50 cps: Depakene®; Epilenil; Vodsso; Abbott; Prati Donaduzzi
- 300* cps: Prati Donaduzzi
- Comprimido revestido de liberação prolongada de 300 mg – Embalagem com:
- 10 cp: Torval® CR
- 30 cp: Torval® CR
- 60 cp: Torval® CR
- 90 cp: Torval® CR
- Comprimido revestido de liberação prolongada de 500 mg – Embalagem com:
- 10 cp: Torval® CR
- 30 cp: Torval® CR
- 60 cp: Torval® CR
- 90 cp: Torval® CR
- Xarope de 50 mg/mL – Frascos com:
- 100 mL: Depakene®; Lavie; Vodsso; Abbott; Hipolabor; Prati Donaduzzi
- Solução oral de 200 mg/mL – Frasco com:
- 40 mL: Valpakine
*Embalagem hospitalar
- Apresentações combinadas: Valproato de sódio + Ácido valpróico (Torval® CR [Torrent])
Nota: Informações sobre nomes comerciais e apresentações atualizadas em abril de 2021.*
Classe
- Nomenclatura baseada na neurociência: ainda a ser determinada
- Anticonvulsivante, estabilizador do humor, profilaxia de enxaqueca, modulador dos canais de sódio sensíveis a voltagem
Comumente prescrito para
(em negrito, as aprovações da FDA)
- Mania aguda (divalproex) e episódios mistos (divalproex, divalproex ER, ácido valproico de liberação retardada)
- Convulsões parciais complexas que ocorrem isoladamente ou em associação com outros tipos de convulsões (monoterapia e adjuvante)
- Crises de ausência simples e complexas (monoterapia e adjuvante)
- Convulsões de múltiplos tipos, incluindo crises de ausência (adjuvante)
- Profilaxia de enxaqueca (divalproex, divalproex ER, ácido valproico de liberação retardada)
- Tratamento de manutenção de transtorno bipolar
- Depressão bipolar
- Psicose, esquizofrenia (adjuvante)
Principais sintomas-alvo
- Humor instável
- Ocorrência de enxaqueca
- Incidência de convulsões parciais complexas
Como a substância atua
- Bloqueia os canais de sódio sensíveis a voltagem por meio de um mecanismo desconhecido
- Aumenta as concentrações cerebrais do ácido gama-aminobutírico (GABA) por meio de um mecanismo desconhecido
Tempo para início da ação
- Para mania aguda, devem ocorrer efeitos dentro de poucos dias, dependendo da formulação da substância
- Pode levar várias semanas ou meses para otimizar um efeito na estabilização do humor
- Também deve reduzir convulsões e melhorar enxaqueca em poucas semanas
Se funcionar
- O objetivo do tratamento é a completa remissão dos sintomas (p. ex., mania, convulsões, enxaqueca)
- Continuar o tratamento até que todos os sintomas tenham desaparecido ou até que a melhora seja estável, e então continuar o tratamento por tempo indefinido enquanto a melhora persistir
- Continuar o tratamento por tempo indefinido para evitar recorrência de mania, depressão, convulsões e cefaleias
Se não funcionar
Para transtorno bipolar
- Muitos pacientes têm apenas uma resposta parcial, em que alguns sintomas são melhorados, mas outros persistem ou continuam a oscilar, sem estabilização do humor
- Outros pacientes podem ser não respondedores, sendo algumas vezes chamados de resistentes ou refratários ao tratamento
- Considerar a verificação do nível plasmático da substância, aumento da dose, troca por outro agente ou adição de um agente de potencialização apropriado
- Considerar o acréscimo de psicoterapia
- Considerar a falta de adesão ao tratamento e aconselhar o paciente
- Trocar por outro estabilizador do humor com menos efeitos colaterais
- Considerar avaliação para outro diagnóstico ou para uma condição comórbida (p. ex., doença clínica, abuso de substância, etc.)
Melhores combinações de potencialização para resposta parcial ou resistência ao tratamento
- Lítio
- Antipsicóticos atípicos (especialmente risperidona, olanzapina, quetiapina, ziprasidona e aripiprazol)
- Lamotrigina (com cautela e na metade da dose na presença de valproato, porque ele pode dobrar os níveis de lamotrigina)
- Antidepressivos (com cautela, porque eles podem desestabilizar o humor em alguns pacientes, incluindo indução de ciclagem rápida ou ideação suicida; em particular, considerar bupropiona; também ISRSs, IRSNs, outros; em geral, evitar ADTs, IMAOs)
Dosagem e uso
Variação típica da dosagem
- Mania: 1.200 a 1.500 mg/dia
- Enxaqueca: 500 a 1.000 mg/dia
- Epilepsia: 10 a 60 mg/kg por dia
Como dosar
- A dose inicial típica para mania ou epilepsia é de 15 mg/kg em 2 doses divididas (1 vez por dia para valproato de liberação prolongada)
- Mania aguda (adultos): dose inicial de 1.000 mg/dia; aumentar a dose rapidamente; dose máxima geralmente de 60 mg/kg por dia
- Para mania menos aguda, pode-se começar com 250 a 500 mg no primeiro dia e depois titular de modo crescente conforme tolerado
- Enxaqueca (adultos): dose inicial de 500 mg/dia; dose máxima recomendada de 1.000 mg/dia
- Epilepsia (adultos): dose inicial de 10 a 15 mg/kg por dia; aumentar de 5 a 10 mg/kg por semana; dose máxima geralmente de 60 mg/kg por dia
Dicas para dosagem
- Carga oral de 20 a 30 mg/kg por dia pode reduzir o início da ação para 5 dias ou menos e ser especialmente útil para o tratamento de mania aguda em contextos hospitalares
- Dada a meia-vida do valproato de liberação imediata, a dosagem diária de 2 vezes ao dia é provavelmente o ideal
- O valproato de liberação prolongada pode ser dado 1 vez por dia
- Entretanto, o valproato de liberação prolongada tem apenas 80% da biodisponibilidade do valproato de liberação imediata, produzindo níveis plasmáticos da substância 10 a 20% mais baixos em comparação a este último
- Assim, o valproato de liberação prolongada é dosado aproximadamente 8 a 20% mais alto quando os pacientes são convertidos para a formulação ER
- Divalproato de sódio é um composto entérico revestido e estável contendo ácido valproico e valproato de sódio
- A formulação de divalproex de liberação imediata reduz os efeitos colaterais gastrintestinais
- O divalproex ER melhora os efeitos colaterais gastrintestinais e a alopecia em comparação ao divalproex de liberação imediata ou valproato genérico
- A amida do ácido valproico está disponível na Europa (valpromida)
- Níveis plasmáticos da substância > 45 µg/mL podem ser necessários para efeitos antimaníacos ou ações anticonvulsivantes
- Níveis plasmáticos da substância de até 100 µg/mL são geralmente bem tolerados
- Níveis plasmáticos da substância de até 125 µg/mL podem ser necessários em alguns pacientes agudamente maníacos
- As dosagens para atingir níveis plasmáticos terapêuticos variam muito, frequentemente entre 750 a 3.000 mg/dia
Overdose
- Foram relatadas mortes; coma, inquietação, alucinações, sedação, bloqueio cardíaco
Uso prolongado
- Requer testes regulares da função hepática e contagem das plaquetas
Formação de hábito
- Não
Como interromper
- Reduzir a dose gradualmente; poderá ser necessário ajustar a dosagem de medicações concomitantes conforme o valproato é descontinuado
- Os pacientes podem ter crise convulsiva durante a retirada, especialmente se for abrupta
- A descontinuação rápida aumenta o risco de recaída no transtorno bipolar
- Sintomas de descontinuação são incomuns
Farmacocinética
- Meia-vida média terminal de 9 a 16 horas
- Metabolizado primariamente pelo fígado, cerca de 25% dependente do sistema CYP450 (CYP450 2C9 e 2C19)
- Inibe CYP450 2C9
- Alimentos retardam o ritmo, mas não a extensão da absorção
Mecanismos de interações medicamentosas
- A dose de lamotrigina deve ser reduzida em talvez 50% se for utilizada com valproato, já que o valproato inibe o metabolismo da lamotrigina e eleva seus níveis plasmáticos, teoricamente aumentando o risco de erupção cutânea
- Os níveis plasmáticos de valproato podem ser reduzidos por carbamazepina, fenitoína, etossuximida, fenobarbital, rifampicina
- Aspirina pode inibir o metabolismo de valproato e aumentar seus níveis plasmáticos
- Os níveis plasmáticos de valproato também podem ser aumentados por felbamato, clorpromazina, fluoxetina, fluvoxamina, topiramato, cimetidina, eritromicina e ibuprofeno
- O valproato inibe o metabolismo de etossuximida, fenobarbital e fenitoína, podendo assim aumentar seus níveis plasmáticos
- Não há interações farmacocinéticas prováveis de valproato com lítio ou antipsicóticos atípicos
- O uso de valproato com clonazepam pode causar estado de ausência
- Há relatos de hiperamonemia com ou sem encefalopatia em pacientes que tomavam topiramato combinado com valproato, embora isso não se deva a uma interação farmacocinética; em pacientes que desenvolvem letargia inexplicável, vômitos ou alterações no estado mental, deve ser medido o nível de amônia
Outras advertências/precauções
- Estar alerta aos seguintes sintomas de hepatotoxicidade que requerem atenção imediata: mal-estar, fraqueza, letargia, edema facial, anorexia, vômitos, pele e olhos amarelados
- Estar alerta aos seguintes sintomas de pancreatite que requerem atenção imediata: dor abdominal, náusea, vômitos, anorexia
- Efeitos teratogênicos no desenvolvimento fetal, como defeitos no tubo neural, podem ocorrer com o uso de valproato
- A sonolência pode ser mais comum em idosos e estar associada a desidratação, ingesta nutricional reduzida e perda de peso, requerendo aumentos mais lentos da dosagem, doses mais baixas e monitoramento da ingestão de líquidos e nutrientes
- Não é recomendado o uso em pacientes com trombocitopenia; pacientes devem relatar equimoses ou sangramento
- Avaliar para distúrbios do ciclo da ureia, pois encefalopatia hiperamonêmica, algumas vezes fatal, foi associada à administração de valproato nesses distúrbios incomuns; distúrbios no ciclo da ureia, como deficiência de ornitina transcarbamilase, estão associados a encefalopatia inexplicável, retardo mental, amônia plasmática elevada, vômitos cíclicos e letargia
- O valproato está associado a uma condição cutânea rara, mas grave, conhecida como reação a substâncias com eosinofilia (DRESS). A DRESS pode começar como uma erupção cutânea, mas progredir para outras partes do corpo, e pode incluir sintomas como febre, linfonodos inchados, inflamação dos órgãos e um aumento nos leucócitos conhecido como eosinofilia. Em alguns casos, ela pode levar à morte
- Alertar pacientes e seus cuidadores sobre a possibilidade de ativação de ideação suicida e aconselhá-los a relatar esses sintomas imediatamente
Não usar
- Se o paciente tiver pancreatite
- Se o paciente tiver doença hepática séria
- Se o paciente tiver distúrbio no ciclo da ureia
- Se houver uma alergia comprovada a ácido valproico, valproato ou divalproex
Potenciais vantagens e desvantagens
Potenciais vantagens
- Fase maníaca de transtorno bipolar
- Funciona bem em combinação com lítio e/ou antipsicóticos atípicos
- Pacientes para quem é aconselhável monitoramento medicamentoso terapêutico
Potenciais desvantagens
- Fase depressiva de transtorno bipolar
- Pacientes que não toleram sedação ou ganho de peso
- Múltiplas interações medicamentosas
- Múltiplos riscos de efeitos colaterais
- Pacientes gestantes
Dicas
Para transtorno bipolar
- O valproato é uma opção de tratamento de primeira linha que pode ser melhor para pacientes com estados mistos de transtorno bipolar ou pacientes com transtorno bipolar de ciclagem rápida
- Parece ser mais efetivo no tratamento de episódios maníacos do que episódios depressivos em transtorno bipolar (trata melhor “de cima para baixo” do que “de baixo para cima”)
- Também pode ser mais efetivo na prevenção de episódios maníacos do que na prevenção de episódios depressivos (estabiliza melhor “de cima para baixo” do que “de baixo para cima”)
- Apenas um terço dos pacientes bipolares experimenta alívio adequado com monoterapia, portanto a maioria necessita de múltiplas medicações para melhor controle
- É útil em combinação com antipsicóticos atípicos e/ou lítio para mania aguda
- Também pode ser útil para transtorno bipolar em combinação com lamotrigina, mas a dose desta deve ser reduzida pela metade quando combinada com valproato
- A utilidade para transtorno bipolar em combinação com anticonvulsivantes diferentes de lamotrigina não está bem demonstrada; tais combinações podem ser caras e ineficazes ou até mesmo irracionais
- Pode ser útil como adjunto de antipsicóticos atípicos para início rápido da ação em esquizofrenia
- É utilizado para tratar agressão, agitação e impulsividade não somente em transtorno bipolar e esquizofrenia, mas também em muitos outros transtornos, incluindo demência, transtornos da personalidade e lesão cerebral
- Pacientes com mania aguda tendem a tolerar melhor os efeitos colaterais do que aqueles com hipomania ou depressão
- Multivitaminas fortificadas com zinco e selênio podem ajudar a reduzir a alopecia
- A associação de valproato com ovários policísticos é controversa e pode estar relacionada a ganho de peso, obesidade ou epilepsia
- No entanto, é aconselhável cautela na administração de valproato a mulheres em idade reprodutiva, especialmente as pacientes bipolares adolescentes, e monitorar cuidadosamente o peso, a condição endócrina e o tamanho e a função ovariana
- Mulheres em idade reprodutiva que são ou provavelmente se tornarão sexualmente ativas, devem ser informadas sobre o risco de danos ao feto, e monitorar a condição contraceptiva
- A associação de valproato com massa óssea reduzida é controversa e pode estar relacionada aos níveis de atividade, exposição à luz solar e epilepsia, podendo ser prevenida pela suplementação de vitamina D 2.000 IU/dia e cálcio 600 a 1.000 mg/dia
- A nova cápsula de liberação retardada de ácido valproico pode ser mais fácil de engolir do que outras formulações
- Um pró-fármaco do ácido valproico, a valpromida, está disponível em vários países europeus
- Embora a valpromida seja rapidamente transformada em ácido valproico, ela apresenta características únicas que podem afetar as interações medicamentosas
- Em particular, a valpromida é um inibidor potente da hipóxido hidrolase microssomal hepática e assim causa aumentos clinicamente significativos nos níveis plasmáticos de carbamazepina-10, 11-epóxido (o metabólito ativo da carbamazepina)
Referência
Conteúdo originalmente publicado em: STAHL, S. M. Fundamentos de psicofarmacologia de Stahl: guia de prescrição. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 834 p.
Leituras sugeridas
Bowden CL. Valproate. Bipolar Disorders 2003;5:189–202.
Gill D, Derry S, Wiffen PJ, Moore RA. Valproic acid and sodium valproate for neuropathic pain and fibromyalgia in adults. Cochrane Database Syst Rev 2011;(10):CD009183.
Landy SH, McGinnis J. Divalproex sodium – review of prophylactic migraine efficacy, safety and dosage, with recommendations. Tenn Med 1999;92:135–6.
Macritchie KA , Geddes JR, Scott J, Haslam DR, Goodwin GM. Valproic acid, valproate and divalproex in the maintenance treatment of bipolar disorder. Cochrane Database Syst Rev 2001;(3):CD003196.
Smith LA, Cornelius V, Warnock A, Tacchi MJ, Taylor D. Pharmacological interventions for acute bipolar mania: a systematic review of randomized placebo-controlled trials. Bipolar Disord 2007;9(6):551–60.
*Revisão dos nomes comerciais e apresentações
Felipe Mainka
Autores
Stephen M. Stahl