Ayahuasca em psiquiatria

Ayahuasca em psiquiatria

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Introdução

[definição]
A ayahuasca é uma bebida alucinógena/psicodélica usada tradicionalmente por grupos indígenas do Noroeste Amazônico, que envolve grupos indígenas do Brasil, do Peru, da Colômbia e do Equador.1,2

O nome ayahuasca vem do Quéchua, em que aya significa “alma” ou “espírito morto” e waska “corda” ou “trepadeira”.1,2 Portanto, ayahuasca poderia ser traduzida como “corda das almas” ou “trepadeira dos espíritos”. Não se sabe a época exata em que começou a ser utilizada nem qual grupo indígena teria sido o “descobridor” de seus usos, mas a sua utilização por grupos indígenas existe há pelo menos centenas de anos.2

Desde o final do século XIX e início do século XX, a ayahuasca também vem sendo utilizada por populações não indígenas do Noroeste Amazônico para fins medicinais e rituais, incluindo ribeirinhos e pessoas que trabalham na extração da borracha em regiões do estado do Acre.2,3 Neste contexto e nessa região do Brasil foi que nasceram as primeiras religiões ayahuasqueiras brasileiras, que incluem o Santo Daime, a Barquinha e a União do Vegetal.2,3

Essas instituições se expandiram das pequenas cidades de países amazônicos para as grandes capitais do Brasil ao longo do século XX, e nos últimos 20 anos alcançaram os EUA, a Europa e a Ásia. Atualmente, estima-se que existam cerca de 20 mil membros desses grupos no Brasil e no exteriror.2,3

Estudos pré-clínicos, relatos de caso, estudos observacionais e, inclusive, estudos controlados publicados nos últimos 5 a 10 anos mostram que a ayahuasca e os seus alcaloides possuem propriedades ansiolíticas e antidepressivas, além de apresentar potencial para tratar a dependência e o abuso de algumas drogas.4,5

O presente conteúdo resume o trajeto da ayahuasca da selva amazônica para as grandes cidades do mundo e detalha seus componentes, mecanismos de ação, potenciais usos terapêuticos e principais efeitos adversos.

Objetivos

Ao final da leitura deste capítulo, o leitor será capaz de:

  • Explicar os aspectos botânicos, históricos, culturais, químicos, farmacológicos e toxicológicos da ayahuasca.
  • Descrever as principais plantas utilizadas na preparação da ayahuasca e de seus principais componentes químicos (alcaloides).
  • Analisar os mecanismos de ação desses alcaloides isoladamente e como eles interagem na ayahuasca.
  • Descrever os contextos rituais e religiosos nos quais a ayahuasca é tradicionalmente consumida.
  • Revisar os principais estudos em seres humanos envolvendo a ayahuasca, tanto os estudos observacionais sobre a saúde mental de pessoas que utilizam a ayahuasca por décadas em comunidades tradicionais quanto os estudos experimentais e clínicos com voluntários saudáveis e pacientes com depressão.
  • Considerar os principais efeitos adversos associados à ayahuasca.
  • Conceituar simultaneamente, de forma ampla e resumida, a farmacologia humana da ayahuasca e de seus potenciais usos em psiquiatria.

O que é a ayahuasca?

A leitura deste capítulo permitirá um conhecimento ao mesmo tempo amplo e resumido da farmacologia humana da ayahuasca e de seus potenciais usos em psiquiatria.

A Figura 1 mostra os tópicos que serão abordados.


Figura 1 | Ilustração dos principais tópicos abordados no capítulo. // HAR: harmina; DMT: dimetiltriptamina; THH: tetra-hidro-harmina; HML: harmalina; 5-HT2A: receptor serotoninérgico; IMAOs: inibidores da monoaminoxidase; ADs: antidepressivos.
Fonte: Arquivo de imagens dos autores.

[definição]
A palavra ayahuasca (do quéchua “corda das almas”) se refere a uma trepadeira amazônica denominada Banisteriopsis caapi (Figuras 2A e B) e também à bebida preparada com essa planta (Figuras 3AC).

Figura 2 | Banisteriopsis caapi (jagube, mariri). Detalhe do caule (A) e das flores (B).
Fonte: Arquivo de imagens do autor Rafael Guimarães dos Santos.

Figura 3 | Ayahuasca (Daime, Vegetal, Hoasca Yajé, Kamarampi, Huni etc.). Ayahuasca em cozimento (A e B) e preparada (C).
Fonte: Arquivo de imagens do autor Rafael Guimarães dos Santos.

Essa trepadeira pode ser utilizada sozinha ou junto com outras plantas na preparação da ayahuasca, que é usada, de forma tradicional, por grupos indígenas do Noroeste Amazônico (Brasil, Peru, Colômbia, Equador), onde recebe diversos nomes (Yajé, Kamarampi, Huni).1,2 Também é utilizada, tradicionalmente, por comunidades religiosas originadas no Brasil, como o Santo Daime, a Barquinha e a União do Vegetal, onde é denominada Daime ou Vegetal/Hoasca.2,3

No contexto indígena, diversas plantas podem ser adicionadas à trepadeira na preparação da ayahuasca. Entretanto, no Brasil (e também no Peru), a ayahuasca é preparada utilizando-se o caule da liana Banisteriopsis caapi (denominada jagube ou mariri) e as folhas do arbusto Psychotria viridis (chamado de chacrona ou rainha) (Figuras 4A e B).2,3

Figura 4 | Psychotria viridis (rainha, chacrona). Arbusto (A) e detalhe das folhas (B).
Fonte: Arquivo de imagens do autor Rafael Guimarães dos Santos.

Em que contextos e com que finalidade a ayahuasca é utilizada?

A ayahuasca é utilizada por dezenas de grupos indígenas do Noroeste Amazônico com finalidades rituais/religiosas e medicinais. Pode ser utilizada em rituais de iniciação, na caça, para tomar decisões importantes e para o tratamento de doenças físicas e espirituais. A ayahuasca é considerada um espírito que ensina e cura.1–3

[lembrar]
Nas chamadas religiões ayahuasqueiras brasileiras, como o Santo Daime, a Barquinha, a União do Vegetal e as diversas organizações que derivaram desses grupos, a ayahuasca é considerada uma bebida sagrada, utilizada nos rituais para concentração, autoavaliação, indução de experiências místicas e visionárias (as chamadas mirações) e também de forma terapêutica, para a resolução de problemas espirituais e no auxílio ao tratamento de diversas doenças físicas e mentais.3,6

O uso ritual e religioso da ayahuasca em alguns desses grupos, como no caso do Santo Daime e da Barquinha, ocorre desde 1920 e 1940 na Região Norte do Brasil (Acre). A União do Vegetal foi fundada da década de 1960 também na Região Norte (Rondônia). Esses grupos se disseminaram para as capitais brasileiras a partir das décadas de 1970 e 1980, e para o exterior a partir da década de 1990. Nos últimos 20 anos, esses grupos alcançaram os EUA, a Europa e a Ásia, e, atualmente, estima-se que existam cerca de 20 mil membros desses grupos no Brasil e no exteriror.2,3

A ayahuasca é legalizada no Brasil?

O uso ritual e religioso da ayahuasca é permitido no Brasil desde a década de 1980, sendo regulado por uma série de relatórios produzidos ao longo dos anos, resultando na Resolução nº 1, de 25 de janeiro de 2010, do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad).3,7,8

Essa resolução do Conad estabelece certas regras, normas e princípios éticos para o uso da ayahuasca, que incluem:7,8

  • Critérios para controle da extração e conservação das plantas utilizadas na preparação da bebida.
  • Autorização do uso da ayahuasca por mulheres grávidas, crianças e adolescentes.
  • Estímulo à pesquisa científica dos potenciais terapêuticos da ayahuasca.

Quais são os principais componentes da ayahuasca e seus efeitos farmacológicos?

Os principais compostos presentes na trepadeira Banisteriopsis caapi são as beta-carbolinas HAR, THH e HML (Figura 5).

Figura 5 | Beta-carbolinas: HAR, THH e harmalina.
Fonte: Arquivo de imagens dos autores.

Estas moléculas são estruturalmente similares à serotonina (5-hidroxitriptamina [5-HT]) e são inibidoras reversíveis e seletivas da enzima monoaminaoxidase tipo A (MAO-A).

Estudos pré-clínicos em roedores demostraram que a HAR possui propriedades antidepressivas e neuroprotetoras que parecem estar relacionadas não só com a inibição da MAO, mas também com o aumento da síntese da neurotrofina fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF).4,5,9

A principal molécula psicoativa/alucinógena presente na ayahuasca é a DMT, presente nas folhas do arbusto Psychotria viridis (Figura 6).

Figura 6 | DMT. // DMT: dimetiltriptamina.
Fonte: Arquivo de imagens dos autores.

Assim como as beta-carbolinas, a estrutura química da DMT é similar à da serotonina. O principal mecanismo de ação da DMT é atuar como um agonista parcial de receptores de serotonina (5-HT1A/2A/2C), especialmente nos receptores 5-HT2A presentes em regiões cerebrais, como o córtex pré-frontal (CPF), a ínsula e o hipocampo (HIP).10,11 Esses receptores estão envolvidos em processamento emocional, autoconsciência e introspecção e neuroplasticidade.

Outros mecanismos de ação podem estar envolvidos na farmacologia da DMT, como a ativação/agonismo do receptor sigma-1 (Sig-1R),12 embora estudos em humanos tenham demonstrado que o principal mecanismo parece estar relacionado ao receptor serotoninérgico tipo 2A (5-HT2A).13

Quais os mecanismos de ação da ayahuasca?

Quando ingerida por via oral, a DMT pura é degradada pela enzima MAO-A periférica (hepática e intestinal), portanto, não produz efeitos psicoativos. No entanto, as beta-carbolinas presentes na ayahuasca — especialmente a HAR — inibem a MAO-A, permitindo que a DMT chegue ao sistema nervoso central (SNC)14 (Figura 7).

Figura 7 | Esquema dos principais mecanismos de ação da ayahuasca. // 5-HT: serotonina; 5-HT2A: receptor serotoninérgico; AYA: ayahuasca; DMT: dimetiltriptamina; CPC: córtex pré-frontal; AMG: amígdala; CCP: córtex cingulado posterior; HIP: hipocampo; 5-HT2A: 5-hidroxitriptamina tipo 2A; DMN: default mode network; MAO-A: monoaminaoxidase tipo A; HAR: harmina.
Fonte: Adaptada do arquivo de imagens dos autores.

No SNC, a DMT atua como um agonista parcial dos receptores serotoninérgicos tipo 2A (5-HT2A). Esses receptores são encontrados em regiões cerebrais envolvidas no processamento emocional, na introspecção, na interocepção, na autoconsciência e na memória, incluindo partes da DMN, como o córtex cingulado anterior (CCA), o CPF, a amígdala e o HIP (ver Figura 6).10,11,15

Quais são os principais efeitos da ayahuasca?

Nas últimas duas décadas, vários estudos observacionais e experimentais foram publicados sobre os efeitos da ayahuasca, envolvendo tanto avaliações psiquiátricas e neuropsicológicas de consumidores com uso ritual prolongado quanto estudos experimentais randomizados envolvendo a avaliação subjetiva e neurofisiológica de uma ou poucas doses de ayahuasca em voluntários saudáveis.16

Os principais efeitos subjetivos, cognitivos e fisiológicos da ayahuasca (agudos, subagudos e prolongados) são apresentados na Tabela 1, e os efeitos neurofisiológicos, na Tabela 2.

TABELA 1 | EFEITOS SUBJETIVOS, COGNITIVOS E FISIOLÓGICOS DA AYAHUASCA

EFEITOS

ASPECTO

DURAÇÃO

EXEMPLOS

Subjetivos

Positivos

Agudos

  • Introspecção
  • Serenidade
  • Calma
  • Recordação de memórias autobiográficas
  • Humor e afeto positivo
  • Bem-estar
  • Percepção alterada de cores e sons (sinestesia)
  • Experiências místicas/religiosas
  • Melhor desempenho em funções executivas (planejamento e controle inibitório)

Prolongados

  • Percepção mais positiva de saúde

Negativos

Agudos/Subagudos

  • Déficits na memória de trabalho
  • Ansiedade, pânico e medo (pouco comum)
  • Sintomas psicóticos (raro)

Prolongados

  • TA (raro)
  • Transtornos psicóticos (raro)

Fisiológicos

Agudos/Transitórios

  • Aumento moderado da PA e da FC
  • Midríase
  • Aumento moderado da temperatura corporal
  • Aumento dos níveis de PRL, cortisol e GH
  • Aumento dos níveis de linfócitos NK
  • Aumento dos níveis de linfócitos CD3 e CD4
TA: transtorno de ansiedade; PA: pressão arterial; FC: frequência cardíaca; PRL: prolactina; GH: hormônio do crescimento; NK: natural killer.
Fonte: Adaptado de Santos e colaboradores (2016);11 Santos e colaboradores (2016);16 Santos e colaboradores (2017);17 Ona e colaboradores (2019).18


TABELA 2 | EFEITOS NEUROFISIOLÓGICOS DA AYAHUASCA, POR EXAME

EEG

  • Duração: Agudos
    • Descrição: 
      • Redução na potência das bandas alfa, delta e teta
      • Aumento na potência das bandas beta e gama

Neuroimagem

  • Duração: Agudos
    • Descrição: 
      • Aumento da ativação de áreas límbicas (giro para-hipocampal, ínsula, amígdala, córtices frontal e visual, CCA) (SPECT, RMf)
      • Aumento da ativação do córtex visual durante tarefa de imaginação (RMf)
      • Redução da ativação de áreas da DMN (CCP, CPF, precuneus) (RMf)
      • Redução da CF em áreas da DMN (CCP/precuneus) (RMf)
  • Duração: Prolongados
    • Descrição:
      • Aumento da EC no giro pré-central e CCA (RM)
      • Redução da EC no giro frontal inferior e superior, giro temporal médio, precuneus, CCP, e giro occipital superior (RNM)

EEG: eletroencefalograma; CCA: córtex cingulado anterior; SPECT: tomografia computadorizada por emissão de fóton único; RMf: ressonância magnética funcional; DMN: default mode network; CCP: córtex cingulado posterior; CF: conectividade funcional; EC: espessura cortical; RNM: ressonância nuclear magnética.
Fonte: Adaptado de Palhano-Fontes e colaboradores (2015);10 Santos e colaboradores (2016);11 Santos e colaboradores (2016);16 Santos e colaboradores (2017).17

Estudos pré-clínicos e em humanos sugerem que os efeitos subjetivos, fisiológicos e neurofisiológicos da ayahuasca estão diretamente relacionados com o papel agonista da DMT em receptores serotoninérgicos 5-HT2A presentes nas áreas cerebrais descritas anteriormente (ver Tabela 2).10,11,16

O efeito agonista da DMT nesses receptores é similar ao efeito produzido por outras substâncias alucinógenas/psicodélicas que também possuem esse mesmo mecanismo de ação, como a dietilamida do ácido lisérgico (LSD) e a psilocibina.10,11,16

Embora esses estudos demonstrem o papel central dos receptores 5-HT2A nos efeitos dos chamados alucinógenos serotoninérgicos (ayahuasca/DMT, LSD, psilocibina), os mecanismos de ação desses compostos ainda não foram completamente explicados. O mesmo é valido para a ayahuasca, que, além da DMT, possui as beta-carbolinas, que têm mecanismos de ação variados que podem contribuir para o efeito global da ayahuasca.

Estudos pré-clínicos mostram que as beta-carbolinas possuem outros mecanismos de ação além da inibição da MAO-A, envolvendo aumento da síntese de BDNF da neuroplasticidade.4,5,9 Esses mecanismos poderiam ser responsáveis pelos efeitos benéficos das beta-carbolinas (especialmente da HAR) em modelos pré-clínicos de depressão, dependência a drogas e neurotoxicidade.4,5,9

A ayahuasca produz efeitos adversos?

Estudos experimentais — abertos e controlados — conduzidos nos últimos 20 anos envolvendo a administração de uma ou poucas doses de ayahuasca a voluntários saudáveis demonstram que a ayahuasca pode ser administrada em ambiente controlado de forma segura.10,13,14,16,17,19 Os efeitos adversos mais comuns observados nesses estudos incluem desconforto gastrintestinal, náusea e vômitos.

[lembrar]
Com menor frequência, a ayahuasca pode gerar ansiedade e, às vezes, medo, que em casos extremos pode chegar ao pânico. Sintomas psicóticos, como paranoia e delírios, podem ocorrer em casos raros. Esses efeitos são, de maneira geral, transitórios, com duração similar aos efeitos da ayahuasca (4 a 6 horas). Em geral, são quadros que não necessitam de uma intervenção médica. Efeitos adversos prolongados nunca foram observados em estudos experimentais.16,17,19

Os principais efeitos adversos da ayahuasca (agudos, subagudos e prolongados) são apresentados na Tabela 3.

TABELA 3 | EFEITOS ADVERSOS DA AYAHUASCA, POR TIPO

Sintomas físicos

  • Duração: Agudos
    • Sintomas: 
      • Desconforto gastrintestinal
      • Náusea
      • Vômito
      • Aumento moderado da PA e da FC
      • Diarreia (pouco comum)
      • Dor de cabeça (pouco comum)

Sintomas psicológicos

  • Duração: Agudos/Subagudos
    • Sintomas: 
      • Ansiedade
      • Medo e pânico (pouco comum)
      • Sintomas psicóticos (pouco comum)
  • Duração: Prolongados
    • Sintomas: 
      • Transtornos psicóticos (raro)

PA: pressão arterial; FC: frequência cardíaca.
Fonte: Adaptado de Santos e colaboradores (2017).17

Estudos observacionais envolvendo avaliações psiquiátricas e neuropsicológicas de consumidores com uso ritual prolongado também sugerem que a ayahuasca é uma substância com baixa toxicidade e um bom perfil de segurança.16–21

De forma consistente, esses estudos relatam uma ausência de problemas psiquiátricos ou déficits cognitivos em pessoas que usam a ayahuasca há anos. De forma surpreendente, alguns desses estudos mostram, inclusive, que os usuários apresentam uma melhor saúde mental e melhores índices de qualidade de vida (QV) do que os sujeitos dos grupos de comparação.16,18,20,21

Especificamente, alguns estudos mostram que os usuários de ayahuasca apresentam:18,20,21

  • Menos sintomas e/ou transtornos psiquiátricos.
  • Melhores pontuações em testes de memória e atenção.
  • Maior espiritualidade.
  • Percepção mais positiva da saúde.
[importante]
Existem casos raros de reações psicóticas mais prolongadas associados ao uso ritual da ayahuasca. No entanto, esses quadros parecem ocorrer em indivíduos com predisposição a esse tipo de reação, nunca tendo sido observados em estudos experimentais.16,17,19 Uma possível explicação para essa diferença talvez seja o maior rigor exigido durante a seleção de voluntários para participar em estudos experimentais, em que voluntários com histórico de transtornos psicóticos e/ou com antecedentes familiares são excluídos.19


[lembrar]
Tanto no contexto ritual quanto no experimental, a ayahuasca parece ser uma substância bem tolerada e com baixa toxicidade.

Como agir diante de uma experiência difícil com a ayahuasca?

Nos contextos rituais, as experiências difíceis, ou seja, aquelas caracterizadas por ansiedade, medo e, raramente, sintomas psicóticos, são manejadas de acordo com os conhecimentos e as crenças de cada grupo. Algumas vezes, o canto ou a reza são utilizados, mas outros elementos, como massagens, toques e conversas, também podem ser utilizados. Não há uma pesquisa sobre a eficácia dessas técnicas, mas a incidência de casos de reações adversas prolongadas em contextos rituais é baixa.19

[lembrar]
Em ambientes de pesquisa experimental ou clínica, nunca foi observada uma reação negativa prolongada associada à administração de ayahuasca. Nos poucos casos descritos de reações adversas, e de acordo com as observações nos estudos clínicos realizados e que se continua a realizar, a maior parte das experiências é positiva, sem necessidade de qualquer intervenção.19

Em alguns casos, que não são a maioria, podem ocorrer experiências negativas, caracterizadas por sentimentos transitórios de ansiedade e, às vezes, medo e sintomas psicóticos, como paranoia. Essas situações costumam ocorrer entre 1 e 2 horas após o consumo da ayahuasca, no pico de seus efeitos subjetivos. Essas experiências negativas, em geral, remitem por si mesmas, sem a necessidade de qualquer intervenção.

Em caso raros e de maior ansiedade, pode haver a necessidade de intervenção dos pesquisadores. Essa intervenção é caracteriza por uma abordagem acolhedora, na qual os pesquisadores explicam calmamente ao voluntário a natureza dos efeitos da substância, lembrando que o seu efeito é transitório e que outras pessoas já passaram por isso. Em alguns casos, os pesquisadores podem sugerir que o voluntário respire de maneira calma e se concentre em sua respiração ou para que o voluntário simplesmente se entregue à experiência. Em contextos clínicos, nunca foi descrita a necessidade de uso de medicação para controlar esses quadros.

[indicação]
Em alguns casos, a pessoa que ingeriu ayahuasca pode ser levada a uma emergência psiquiátrica. Dependendo da gravidade de cada caso, antes de utilizar uma medicação, o profissional de saúde deve avaliar se o paciente relata redução dos sintomas de ansiedade etc., apenas conversando com o profissional em um local mais isolado e com poucos estímulos (por exemplo, em uma sala com a luz baixa e com pouco barulho).

Pode haver interação entre a ayahuasca e as medicações?

As beta-carbolinas presentes na ayahuasca são inibidoras reversíveis da MAO-A. Ademais, a THH também é uma inibidora da recaptação de serotonina. Portanto, esses dois mecanismos podem elevar a concentração de serotonina.14

[contraindicação]
O uso de fármacos pró-serotoninérgicos — por exemplo, ADs e ansiolíticos inibidores da recaptação de serotonina (IRS) —, junto com a ayahuasca, é contraindicado, pois existe o risco de síndrome serotoninérgica.22,23 Além disso, a HAR é um inibidor seletivo da enzima citocromo P450 2D6 (CYP2D6), e o uso concomitante de inibidores dessa enzima com fármacos IRS também pode gerar uma síndrome serotoninérgica.14,22,23

Outras substâncias pró-serotoninérgicas que também possuem o potencial de interagir com a ayahuasca e induzir a síndrome serotoninérgica incluem:22,23

  • Triptofano.
  • Ginseng (Panax ginseng).
  • Erva de São João (hipérico; Hypericum perforatum).
  • Dextrometorfano.
  • Anfetaminas.
  • 3,4-metilenodioximetanfetamina (MDMA, ecstasy).
[lembrar]
Alguns alucinógenos, como psilocibina, mescalina, LSD e maconha, podem potencializar os efeitos psicoativos da ayahuasca.22,23

A inibição da MAO pelas beta-carbolinas presentes na ayahuasca também pode gerar uma reação de hipertensão se forem ingeridas de maneira simultânea com produtos ricos em tiramina, como alguns queijos envelhecidos, produtos em conserva e bebidas fermentadas, como vinho e cerveja.

[importante]
A possível interação da ayahuasca com medicações e plantas medicinais em geral é pouco conhecida. Portanto, é prudente evitar o uso simultâneo de ayahuasca com medicações em geral, mas especialmente as de uso no tratamento de transtornos psiquiátricos e neurológicos.22,23

A ayahuasca tem propriedades terapêuticas?

Estudos em modelos animais demonstraram que a ayahuasca e os seus alcaloides exercem efeitos ansiolíticos e ADs,4 além de efeitos benéficos em modelos de abuso de substâncias psicoativas.5

No caso da DMT, esses efeitos parecem ser modulados por sua ação agonista nos receptores corticais 5-HT2A, que estimulariam receptores glutamatérgicos envolvidos na síntese de BDNF. E, no caso das beta-carbolinas, parecem estar relacionados com a inibição da MAO e o aumento dos níveis cerebrais de neurotransmissores, como dopamina, noradrenalina e serotonina.4,5,11,21

Ademais, estudos pré-clínicos também demostraram que a DMT e as beta-carbolinas possuem efeitos neuroprotetores e neuroplásticos, que, no caso da DMT, estão associados a seus efeitos de ativação/agonismo nos receptores 5-HT2A e Sig-1R, enquanto as beta-carbolinas aumentariam a síntese de BDNF (efeito produzido também pela DMT).4,5,9,11,12

Estudos observacionais da saúde mental de membros de religiões ayahuasqueiras, como Santo Daime, Barquinha e União do Vegetal, mostram que pessoas que começaram a frequentar esses grupos apresentam, em relação aos sujeitos dos grupos de comparação, menos sintomas de ansiedade e depressão, menos problemas relacionados ao uso de drogas, melhor saúde mental global e melhores índices de QV.16,18,20,21

Estudos experimentais e clínicos corroboram os dados pré-clínicos e observacionais relacionados aos efeitos antidepressivos e ansiolíticos da ayahausca.15,23,24

Um estudo duplo-cego e controlado com placebo descreveu efeitos ansiolíticos e antidepressivos 1 hora após o consumo de uma dose única de ayahuasca em nove membros do Santo Daime.24

Um estudo aberto com 17 pacientes com depressão maior resistente ao tratamento descreveu efeitos ansiolíticos e antidepressivos de uma dose de ayahuasca. Esses efeitos foram observados já nas primeiras horas e seus primeiros dias após a administração da ayahuasca, durando até 21 dias. Além disso, 8 horas após o consumo da ayahuasca, observou-se um aumento do fluxo sanguíneo em áreas cerebrais envolvidas no processamento emocional e no efeito terapêutico de antidepressivos tradicionais (ínsula, núcleo accumbens, área subgenual).15

Esses resultados são muito promissores para o tratamento da depressão, pois, além de eficácia limitada e presença de efeitos adversos significativos, os ADs tradicionais necessitam 2 a 3 semanas (ou mais) para começarem a produzir seus efeitos terapêuticos, o que pode, inclusive, gerar ansiedade nesse período.

Recentemente, esses resultados foram replicados em um estudo randomizado e controlado com placebo com 29 pacientes.25 Comparada ao placebo, uma dose única de ayahuasca reduziu, de forma significativa, os sintomas de depressão e ansiedade uma semana após o consumo das duas substâncias.

[lembrar]
Até o momento, não foram realizados estudos clínicos sobre o possível uso da ayahuasca no tratamento da dependência a drogas ou em outros quadros nos quais existem relatos de possíveis efeitos benéficos da ayahuasca, como em casos de luto e estresse pós-traumático. Mais estudos nessas áreas são necessários.

Os principais efeitos terapêuticos da ayahuasca são descritos na Tabela 4 e ilustrados na Figura 8.

TABELA 4 | PRINCIPAIS EFEITOS TERAPÊUTICOS DA AYAHUASCA, POR TIPO DE ESTUDO

Estudos pré-clínicos

  • Evidências: 
    • Ansiolítico
    • AD
    • Redução de uso de drogas
    • Neuroprotetor

Estudos observacionais

  • Evidências: 
    • Ansiolítico
    • AD
    • Redução de uso de drogas
    • Melhora na saúde mental global
    • Melhores índices de QV

Estudos experimentais e clínicos (abertos e controlados)

  • Evidências: 
    • Ansiolítico
    • AD

AD: antidepressivo; QV: qualidade de vida.
Fonte: Adaptado de Santos e colaboradores (2017).17

A Figura 8 ilustra os principais efeitos terapêuticos da ayahuasca e seus possíveis mecanismos de ação.

Figura 8 | Esquema dos principais efeitos terapêuticos da ayahuasca e seus possíveis mecanismos de ação. // ***Evidências de estudos pré-clínicos, observacionais e experimentais/clínicos. **Evidências de estudos pré-clínicos e observacionais. *Evidências de estudos pré-clínicos. // 5-HT2A: receptor serotoninérgico 2A; DMN: default mode network; DMT: dimetiltriptamina; BDNF: fator neurotrófico derivado do cérebro; MAO-A: monoaminoxidase tipo A; Sig-1R, receptor sigma-1.
Fonte: Arquivo de imagens dos autores.

Considerações finais

A ayahuasca é uma bebida alucinógena à base de plantas usada tradicionalmente por grupos indígenas e por organizações religiosas com finalidades rituais e terapêuticas. Apesar de ser um alucinógeno, estudos pré-clínicos, observacionais e experimentais demonstraram que a ayahuasca e os seus alcaloides possuem propriedades antidepressivas e ansiolíticas, e também potencial para uso no tratamento da dependência de drogas.

Estudos clínicos controlados com uma única dose de ayahuasca já confirmaram os seus efeitos antidepressivos, embora mais estudos com um número maior de pacientes e com outros esquemas de dosagem devam ser realizados.

Utilizada em contextos controlados, seja ritual ou experimental, a ayahuasca apresenta boa tolerabilidade. Considerando que uma parcela significativa de pacientes com transtorno de ansiedade e transtornos do humor ou com dependência química não se beneficia com os tratamentos farmacológicos disponíveis e que esses remédios podem produzir reações adversas significativas, mais pesquisas são necessárias para conhecer melhor os possíveis usos benéficos da ayahuasca em psiquiatria.

Caso clínico e atividades

Acesse um caso clínico com sugestões de discussão e avalie seus conhecimentos com atividades que trazem respostas comentadas.

Referências

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  3. Labate BC, Rose IS, Santos RG. Ayahuasca religions: a comprehensive bibliography and critical essays. Santa Cruz: Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies; 2009.
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  5. Nunes AA, Santos RG, Osório FL, Sanches RF, Crippa JA, Hallak JE. Effects of ayahuasca and its alkaloids on drug dependence: a systematic literature review of quantitative studies in animals and humans. J Psychoactive Drugs. 2016 Jul–Aug;48(3):195–205.
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  7. Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas. Resolução nº 01 de 25 de janeiro de 2010. Brasília: DOU; 2010.
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Autores

Rafael Guimarães dos Santos
Jaime Eduardo Cecilio Hallak