Caso clínico
| Paciente de 46 anos de idade, branca, casada, 3 filhos, apresenta história de um primeiro episódio depressivo maior há 15 anos, com duração de 8 meses e remissão espontânea, sem procurar auxílio médico. Há 8 anos, apresentou um segundo episódio, com as mesmas características. Procurou auxílio psicoterápico, tendo remitido sem uso de medicações após 12 meses. |
Atualmente, relata tristeza, desânimo, diminuição do apetite, insônia terminal, perda do prazer em atividades cotidianas e da libido e dificuldade para se concentrar há seis meses, com piora progressiva, atingindo uma intensidade que não ocorrera nos dois primeiros episódios. Diz que não tem conseguido desempenhar suas atividades habituais: “Fico irritada, sem energia para ir ao trabalho, tudo me cansa, minhas pernas pesam como chumbo”. Além disso, queixa-se de dores no corpo todo. Nega sintomas ou episódios anteriores de mania/hipomania e nega doenças clínicas.
Diante do quadro apresentado, considerou-se a hipótese diagnóstica de transtorno depressivo maior (TDM), com episódio recorrente grave sem sintomas psicóticos (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais — 5ª edição), ou transtorno depressivo recorrente, com episódio atual grave (Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde 10).
A paciente iniciou tratamento medicamentoso com fluoxetina (FLX), até 40 mg/dia, por 3 meses, sem melhora significativa. Optou-se pela introdução de venlafaxina (VFX) 75 mg/dia, atingindo 225 mg/dia após 2 meses, e com mais 1 mês de acompanhamento, não apresentava melhora clínica.
A paciente foi, então, encaminhada por seu clínico para ensaio clínico experimental com ayahuasca no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), em protocolo de pesquisa aprovado pelo Comitê de Ética da Instituição. Foi internada na Unidade Psiquiátrica de Hospital Geral Universitário para realização de wash-out e de protocolo de exames para avaliação de episódios de humor.
Após 4 semanas de wash-out, a paciente foi submetida à sessão experimental, com o consumo de 200 mL de ayahuasca. Após cerca de 45 minutos do consumo, a paciente começou a apresentar as vivências alucinatórias promovidas pela ayahuasca, com intensas características religiosas e rememoração de episódios tristes e de perdas de sua infância. Após 4 horas de avaliação, a paciente estava recuperada dos efeitos psicogênicos da ayahuasca e relatava estar sentindo apenas uma leve tristeza, bem menor que a que vinha apresentando.
Após 24 horas, referia já não sentir tristeza, e estava melhorando do desânimo. Ao longo das 2 semanas seguintes de internação, continuou apresentando melhora progressiva, com participação nas atividades da unidade e recuperação do apetite e, parcialmente, de seu peso. Após as 2 semanas, foi reintroduzida a FLX na dose de 20 mg/dia como parte do protocolo do estudo e a paciente teve alta em remissão do episódio.
Durante o acompanhamento ambulatorial, a paciente manteve a melhora observada na internação, retomou suas atividades profissionais e mantém-se em seguimento, utilizando a mesma dosagem de FLX há 2 anos.
Discussão
1. Qual é a principal molécula da ayahuasca responsável pelas vivências alucinatórias experimentadas pela paciente?
Resposta comentada
Atividade 1
Resposta: A principal molécula psicoativa/alucinógena presente na ayahuasca é a DMT, presente nas folhas do arbusto Psychotria viridis, responsável pelas vivências alucinatórias experimentadas pela paciente.
Deseja testar seus conhecimentos sobre Ayahuasca em psiquiatria com atividades que trazem respostas comentadas? Clique aqui.
Autores
Rafael Guimarães dos Santos
Jaime Eduardo Cecilio Hallak