Asenapina

Ver também

Terapêutica

Nomes comerciais:

  • Referência: Saphris® (Schering-Plough)
  • Similar: não disponível
  • Genérico: não disponível

Apresentações: Medicamento com registro Caduco/Cancelado junto à Anvisa. Porém, na data de atualização destas informações, disponível para venda nas apresentações:

  • Comprimido sublingual de 5 mg e de 10 mg – Embalagem com:
    • 60 cp: Saphris® 

Nota: Informações sobre nomes comerciais e apresentações atualizadas em mabril de 2021.*

Classe

  • Nomenclatura baseada na neurociência: antagonista de receptores de dopamina, serotonina e norepinefrina (ARDSN)
  • Antipsicótico atípico (antagonista da serotonina-dopamina; antipsicóticos de segunda geração; também um estabilizador do humor)

Comumente prescrita para

(em negrito, as aprovações da FDA)

  • Esquizofrenia, aguda e manutenção (adultos)
  • Mania aguda/mania mista, monoterapia (entre 10 e 17 anos e em adultos)
  • Mania aguda/mania mista, adjunto de lítio ou valproato (adultos)
  • Outros transtornos psicóticos
  • Manutenção bipolar
  • Depressão bipolar
  • Depressão resistente ao tratamento
  • Transtornos comportamentais em demência
  • Transtornos comportamentais em crianças e adolescentes
  • Transtornos associados a problemas com o controle dos impulsos

Principais sintomas-alvo

  • Sintomas positivos de psicose
  • Sintomas negativos de psicose
  • Sintomas cognitivos
  • Humor instável (depressão e mania)
  • Sintomas agressivos

Como a substância atua

  • Bloqueia os receptores dopaminérgicos 2, reduzindo sintomas positivos de psicose e estabilizando sintomas afetivos
  • Bloqueia os receptores de serotonina 2A, causando aumento da liberação da dopamina em certas regiões do cérebro e, assim, reduzindo os efeitos colaterais motores, bem como possivelmente melhorando os sintomas cognitivos e afetivos
  • As propriedades antagonistas da serotonina 2C, serotonina 7 e alfa-2 podem contribuir para as ações antidepressivas

Tempo para início da ação

  • Os sintomas psicóticos podem melhorar dentro de 1 semana, mas poderá demorar várias semanas para efeito completo no comportamento e na cognição
  • Classicamente recomendado esperar pelo menos de 4 a 6 semanas para determinar a eficácia da substância, mas, na prática, alguns pacientes podem precisar de até 16 a 20 semanas para apresentar uma boa resposta, especialmente nos sintomas cognitivos

Se funcionar

  • Na maioria das vezes reduz os sintomas positivos, mas não os elimina
  • Pode melhorar os sintomas negativos, além dos sintomas agressivos, cognitivos e afetivos na esquizofrenia
  • A maioria dos pacientes com esquizofrenia não tem uma remissão total dos sintomas, mas uma redução dos sintomas de aproximadamente um terço
  • Talvez de 5 a 15% dos pacientes com esquizofrenia experimentem uma melhora geral de mais de 50 a 60%, especialmente ao receber tratamento estável por mais de 1 ano
  • Tais pacientes são considerados super-respondedores ou “awakeners”, já que podem ficar suficientemente bem para obter emprego, viver de forma independente e manter relações de longa duração
  • Muitos pacientes bipolares podem experimentar uma redução dos sintomas pela metade ou mais
  • Continuar o tratamento até atingir um platô de melhora
  • Depois de atingir um platô satisfatório, continuar o tratamento por no mínimo 1 ano depois do primeiro episódio de psicose
  • Para segundo episódio de psicose e episódios subsequentes, poderá ser necessário tratamento por tempo indefinido
  • Mesmo para primeiros episódios de psicose, pode ser preferível continuar o tratamento
  • O tratamento pode não só reduzir a mania, mas também prevenir recorrências de mania em transtorno bipolar

Se não funcionar

  • Tentar um dos outros antipsicóticos atípicos (risperidona, olanzapina, quetiapina, ziprasidona, aripiprazol, paliperidona, iloperidona, amissulprida, lurasidona)
  • Se 2 ou mais monoterapias antipsicóticas não funcionarem, considerar clozapina
  • Alguns pacientes podem requerer tratamento com um antipsicótico convencional
  • Se nenhum antipsicótico de primeira linha for efetivo, considerar doses mais altas ou potencialização com valproato ou lamotrigina
  • Considerar a não adesão e trocar por outro antipsicótico com menos efeitos colaterais ou por antipsicótico que possa ser dado por injeção depot
  • Considerar início de reabilitação e psicoterapia, como a remediação cognitiva
  • Considerar abuso de substância concomitante

Melhores combinações de potencialização para resposta parcial ou resistência ao tratamento

  • Ácido valproico (valproato, divalproex, divalproex ER)
  • Outros anticonvulsivantes estabilizadores do humor (carbamazepina, oxcarbazepina, lamotrigina)
  • Lítio
  • Benzodiazepínicos

Dosagem e uso

Variação típica da dose

  • 10 a 20 mg/dia em 2 doses divididas para esquizofrenia
  • 10 a 20 mg/dia em 2 doses divididas para mania bipolar

Como dosar

  • Deve ser administrada por via sublingual; os pacientes não devem comer ou beber por 10 minutos após a administração
  • Esquizofrenia: dose inicial de 10 mg/dia em 2 doses divididas; dose máxima geralmente de 20 mg/dia em 2 doses divididas; experiência limitada com administração 1 vez ao dia
  • Mania bipolar (adultos, monoterapia): dose inicial de 20 mg/dia em 2 doses divididas; a dose pode ser reduzida para 10 mg/dia em 2 doses divididas se houver efeitos adversos
  • Mania bipolar (adultos, adjunto): dose inicial de 10 mg/dia em 2 doses divididas; pode ser aumentada para 20 mg/dia em 2 doses divididas
  • Mania bipolar (crianças, monoterapia): dose inicial de 5 mg/dia em 2 doses divididas; após 3 dias, pode ser aumentada para 10 mg/dia em 2 doses divididas; após mais 3 dias, pode ser aumentada para 20 mg/dia em 2 doses divididas
  • Pacientes pediátricos podem ser mais sensíveis a distonia com dosagem inicial se o esquema recomendado para titulação não for seguido

Dicas para dosagem

  • A asenapina não é absorvida depois de engolida (menos de 2% biodisponível oralmente) e, portanto, deve ser administrada por via sublingual (35% biodisponível), já que engolir tornaria o fármaco inativo
  • Os pacientes devem ser instruídos a colocar o comprimido sob a língua e deixar que dissolva completamente, o que irá ocorrer em segundos; o comprimido não deve ser dividido, triturado, mastigado ou engolido
  • Os pacientes não podem comer ou beber por 10 minutos após a administração sublingual para que a substância na cavidade oral possa ser absorvida localmente e não lançada no estômago (onde não seria absorvida)
  • O uso 1 vez ao dia parece teoricamente possível porque a meia-vida da asenapina é de 13 a 39 horas, mas isso não foi muito estudado e pode ser limitado pela necessidade de expor uma área reduzida da superfície da língua a uma quantidade restrita de dosagem sublingual da substância
  • Alguns pacientes podem responder a doses maiores do que 20 mg/dia, mas nenhuma administração deve ser maior do que 10 mg, necessitando-se, assim, de 3 ou 4 doses diárias separadas
  • Devido ao rápido início da ação, pode ser utilizada como uma dose “p.r.n.” ou “quando necessário” de rápida ação para agitação ou piora transitória de psicose ou mania em vez de uma injeção
  • O tratamento deve ser suspenso se a contagem absoluta de neutrófilos cair abaixo de 1.000/mm³

Overdose

  • Agitação, confusão

Uso prolongado

  • Não estudado, mas é frequentemente necessário tratamento de manutenção de longo prazo para esquizofrenia e transtorno bipolar

Formação de hábito

  • Não

Como interromper

  • Redução gradativa da dose, por 2 a 4 semanas quando possível, sobretudo quando iniciado simultaneamente um novo antipsicótico durante troca (i.e., titulação cruzada)
  • Teoricamente, a descontinuação rápida pode levar a psicose de rebote e piora dos sintomas

Farmacocinética

  • Meia-vida de 13 a 39 horas
  • Inibe CYP450 2D6
  • Substrato para CYP450 1A2
  • A biodisponibilidade ideal é com administração sublingual (~35%); se for consumido alimento ou líquido dentro de 10 minutos da administração, a biodisponibilidade diminui para 28%; e para 2% se a asenapina for engolida

Mecanismos de interações medicamentosas

  • Pode aumentar os efeitos de agentes anti-hipertensivos
  • Pode antagonizar levodopa, agonistas de dopamina
  • Inibidores de CYP450 1A2 (p. ex., fluvoxamina) podem elevar os níveis de asenapina
  • Via inibição de CYP450 2D6, a asenapina pode teoricamente interferir nos efeitos analgésicos da codeína e aumentar os níveis plasmáticos de alguns betabloqueadores e da atomoxetina
  • Via inibição de CYP450, a asenapina pode teoricamente aumentar as concentrações de tioridazina e causar arritmias cardíacas perigosas

Outras advertências/precauções

  • Usar com cautela em pacientes com condições que predispõem à hipotensão (desidratação, calor excessivo)
  • Disfagia foi associada ao uso de antipsicótico, e asenapina deve ser utilizada com cautela em pacientes em risco de pneumonia por aspiração

Não usar

  • Se houver uma alergia comprovada a asenapina

Potenciais vantagens e desvantagens

Potenciais vantagens

  • Pacientes que requerem início rápido de ação antipsicótica sem titulação da dosagem

Potenciais desvantagens

  • Pacientes que têm menos probabilidade de adesão

Dicas

  • A estrutura química da asenapina está relacionada ao antidepressivo mirtazapina e compartilha muitas das mesmas propriedades farmacológicas de ligação da mirtazapina, além de diversas outras
  • Não aprovada para depressão, mas as propriedades de ligação sugerem uso potencial em depressão resistente ao tratamento e depressão bipolar
  • A administração sublingual pode requerer a prescrição de asenapina para pacientes confiáveis e aderentes ou para aqueles que têm algum familiar que possa supervisionar a administração da substância
  • Pacientes com respostas inadequadas a antipsicóticos atípicos podem se beneficiar com a determinação dos níveis plasmáticos da substância e, se baixos, com um aumento na dosagem para além dos limites de prescrição usuais
  • Pacientes com respostas inadequadas a antipsicóticos atípicos também podem se beneficiar de um ensaio de potencialização com um antipsicótico convencional ou a troca por um antipsicótico convencional
  • Entretanto, a polifarmácia prolongada com uma combinação de um antipsicótico convencional com um antipsicótico atípico pode combinar seus efeitos colaterais sem aumentar claramente a eficácia de cada um
  • Para pacientes resistentes ao tratamento, especialmente aqueles com impulsividade, agressão, violência e autolesão, a polifarmácia de longa duração com 2 antipsicóticos atípicos ou com 1 atípico e 1 convencional pode ser útil ou mesmo necessária, mediante monitoramento atento
  • Em tais casos, poderá ser benéfico combinar 1 antipsicótico depot com 1 oral
  • Embora seja uma prática frequente por alguns clínicos, acrescentar 2 antipsicóticos convencionais tem pouca fundamentação e pode reduzir a tolerabilidade sem melhora clara da eficácia

A arte da troca

Troca de antipsicóticos orais para asenapina

  • Com aripiprazol, amissulprida e paliperidona ER, é possível a interrupção imediata; iniciar asenapina em dose média
  • Com risperidona, ziprazidona, iloperidona e lurasidona: iniciar asenapina gradualmente, titulando por no mínimo 2 semanas para permitir que os pacientes se tornem tolerantes ao efeito sedativo
  • Poderá ser necessário reduzir clozapina lentamente por 4 semanas ou mais


Referência

Conteúdo originalmente publicado em: STAHL, S. M. Fundamentos de psicofarmacologia de Stahl: guia de prescrição. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 834 p.

Leituras sugeridas

Citrome L. Asenapine for schizophrenia and bipolar disorder: a review of the efficacy and safety profile for this newly approved sublingually absorbed second-generation antipsychotic. Int J Clin Pract 2009;63(12):1762–84.

Shahid M, Walker GB, Zorn SH, Wong EH. Asenapine: a novel psychopharmacologic agent with a unique human receptor signature. J Psychopharmacol 2009;23(1):65–73.

Tarazi F, Stahl SM. Iloperidone, asenapine and lurasidone: a primer on their current status. Exp Opin Pharmacother 2012;13(13):1911–22.

*Revisão dos nomes comerciais e apresentações

Felipe Mainka

Autores

Stephen M. Stahl