Buprenorfina > Farmacodinâmica e farmacocinética

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Classe, mecanismo de ação e farmacodinâmica

A buprenorfina é um opioide e atua como um agonista parcial do receptor opioide mu (ROM), um antagonista fraco do receptor opioide kappa (ROK) e tem atividade agonista no receptor ORL-1, que auxilia no efeito analgésico e reduz efeitos adversos, como a constipação. Em comparação aos opioides que são fortes agonistas do ROM, produz analgesia com menos risco de efeitos graves como depressão respiratória e dependência. Apesar de ser um agonista parcial, tem alta afinidade pelo ROM, ou seja, é capaz de deslocar outros opioides com menor afinidade (oxicodona, metadona, heroína) sem ativar o receptor na mesma intensidade. Assim, em dependentes de opioides agonistas fortes com baixa afinidade, o início de buprenorfina pode precipitar síndrome de abstinência aguda, devendo ser feito apenas quando o paciente estiver com sintomas leves de abstinência.1

Farmacocinética

Há grande variabilidade de absorção de um indivíduo para outro, mas na mesma pessoa a variabilidade é baixa. A buprenorfina tem baixa biodisponibilidade pela VO, alta pelas vias IV e SC, mas menor pelas sublingual e bucal. A meia-vida de eliminação é de 37 horas. A maior parte do fármaco é excretada nas fezes (70%), e o restante, na urina. Sofre metabolização hepática pela CYP, gerando o metabólito ativo norbuprenorfina. A norbuprenorfina não tem efeito analgésico, mas é responsável pelos efeitos de depressão respiratória e constipação associados à buprenorfina.2 Demonstra baixa cinética de dissociação, que contribui para sua longa duração de ação e pelo uso menos frequente. A buprenorfina é altamente lipofílica e extensamente distribuída, ultrapassando rapidamente a barreira hematencefálica, bem como a placenta e o leite materno. Tem ligação proteica de cerca de 96%, primariamente a e β-globulina.3

A buprenorfina é utilizada para tratar o TUO, tanto no tratamento da abstinência quanto no de manutenção. Em uma metanálise para avaliação de retenção no tratamento para dependência de opioides, a buprenorfina foi mais efetiva do que a naltrexona (RC = 1,4 [1,1-1,8]) e o placebo (RC = 2,2 [1,8-2,7]), mas inferior à metadona (RC = 1,2 [1,1-1,4]).4 O manejo da dependência de opioides com buprenorfina pode ser dividido em três fases: indução, estabilização e manutenção.3 A indicação principal do adesivo de buprenorfina é para o tratamento da dor crônica. Entretanto, como é a única apresentação disponível no Brasil, em algumas situações se usa no tratamento do TUO, sobretudo quando há intolerância ou contraindicação ao uso da metadona.

No tratamento da dor crônica, a metanálise que avaliou o efeito da buprenorfina mostrou que o efeito é maior nos pacientes sem comorbidade com TUO (redução da dor –2,19 [–2,88; –1,51]) do que nos pacientes com comorbidades e TUO.5

Referências

Conteúdo originalmente publicado em Cordioli AV; Gallois CB; Passos IC. Psicofármacos: consulta rápida. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2023.

  1. Restiva® [Bula de medicamento] [Internet]. São Paulo: Mundipharma Brasil Produtos Médicos e Farmacêuticos; 2021 [capturado em 16 ago 2022]. Disponível em: https://br.mundipharma.com/sites/mundi-pharma-brazil/files/mundipharma/productos/restiva_pi_patient.pdf.
  2. Davis MP, Pasternak G, Behm B. Treating chronic pain: an overview of clinical studies centered on the buprenorphine option. Drugs. 2018;78(12):1211-28. PMID [30051169]
  3. Dankiewicz EH, Haddox JD. Clarification on transdermal buprenorphine. J Pain Palliat Care Pharmacother. 2014;28(4):415-6. PMID [25348227]
  4. Lim J, Farhat I, Douros A, Panagiotoglou D. Relative effectiveness of medications for opioid-related disorders: a systematic review and network meta-analysis of randomized controlled trials. PLoS One. 2022;17(3):e0266142. PMID [35358261]
  5. Lazaridou A, Paschali M, Edwards RR, Gilligan C. Is buprenorphine effective for chronic pain? A systematic review and meta-analysis. Pain Med. 2020;21(12):3691-9. PMID [32330264]

Organizadores

Aristides Volpato Cordioli

Carolina Benedetto Gallois

Ives Cavalcante Passos

Autores

Lisia von Diemen