Depressão em crianças e adolescentes

Depressão em crianças e adolescentes

O que é?

Conforme o Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5),1 a depressão na criança e no adolescente é semelhante à do adulto (veja os critérios do DSM-5 para Transtorno disruptivo da desregulação do humor e para Transtorno depressivo maior). Assim, os mesmos critérios diagnósticos da depressão no adulto podem ser utilizados nessa população.2 Entretanto, em crianças na fase pré-verbal, deve-se atentar para manifestações como inquietação, retraimento, choro frequente, recusa alimentar, alterações do sono, apatia e piora da resposta aos estímulos visuais e auditivos. Crianças pré-escolares com frequência apresentam sintomas somáticos (dores abdominais, etc.), prejuízo no desenvolvimento pôndero-estatural, fácies tristonha, irritabilidade, anorexia, hiperatividade e alterações do sono, além de auto e heteroagressividade. Escolares também podem apresentar lentificação, distorções cognitivas de cunho autodepreciativo, pensamentos de morte ou suicidas e queda no desempenho acadêmico, além de irritabilidade, sintomas ansiosos e transtornos da conduta. Na adolescência, as manifestações depressivas se assemelham muito ao quadro na adultez, mas é frequente a comorbidade com uso de psicotrópicos, o que dificulta sua detecção.3 Pais e professores, em geral, não observam a depressão em seus filhos e alunos; por isso, o adolescente costuma ser a melhor fonte de informação, e seus colegas e amigos são os que mais facilmente reparam nas modificações ocasionadas pela patologia. Assim, para o diagnóstico, o relato de pais e educadores contribui quando informa súbitas mudanças de comportamento (principalmente se forem descontextualizados) e de condutas irritáveis, destrutivas e agressivas, com a violação de regras sociais anteriormente aceitas.4

Em uma abordagem psicopatológica, a análise da etiologia dos transtornos do humor considera a interação das dimensões biológica, psicológica e social. Assim, a depressão é considerada uma resposta neurobiológica excessivamente ativa a eventos estressores, de forma similar à ansiedade. Desse modo, os indivíduos com depressão teriam uma vulnerabilidade psicológica experimentada como sentimentos de inadequação para enfrentar dificuldades, atitudes essas correlacionadas a marcadores bioquímicos associados a circuitos cerebrais específicos. Pode-se dizer, então, que fatores precipitantes (eventos estressores) atuariam sobre fatores predisponentes (caracterizados por vulnerabilidade biológica, características de personalidade, primeiras experiências, respostas ao estresse e influências socioculturais), o que levaria a processos como atrofia dos neurônios do hipocampo (que ajuda a regular as emoções, entre outros comprometimentos), principalmente pela falta de intervenção e pela ação de fatores perpetuadores (p. ex., influências familiares negativas).5

Considerando-se as taxas de prevalência descritas, elas são variadas, uma vez que são estimadas em diferentes populações, mas o aprimoramento de instrumentos diagnósticos tem tornado mais precisa essa avaliação. Estudos epidemiológicos realizados nos Estados Unidos relataram prevalência de depressão de 0,9% em pré-escolares, de 1,9% em crianças escolares e de 4,7% em adolescentes.4

Por ser a depressão de natureza multicausal, é necessária uma avaliação que considere história familiar, antecedentes familiares e, portanto, fatores biológicos, assim como aspectos do próprio indivíduo, como antecedentes pessoais que colaboram para a apresentação do quadro e seu prognóstico. Não menos importante é a verificação das condições médicas associadas, que podem ser desencadeadoras do quadro, e ambientais – como o suporte familiar –, que podem facilitar ou não o tratamento.

Finalmente, vale lembrar que sempre é necessário avaliar o nível de comprometimento funcional do indivíduo em atividades de vida diária (AVDs) e prática, uma vez que a presença de anedonia, em muitos casos, reduz a socialização, o que proporciona maior isolamento.

Confira mais informações sobre transtorno depressivo maior em crianças e adolescentes.

Transtorno de desregulação disruptiva do humor

No DSM 51 foi criada uma nova categoria, denominada transtorno de desregulação disruptiva do humor, considerada como uma crônica e persistente irritabilidade com explosões súbitas e frequentes desencadeadas por frustrações e manifestada verbal ou comportamentalmente. Paralelamente deve-se observar um persistente mau humor.

Será interessante observar a acurácia diagnóstica e a especificidade nessa nova categoria, bem como as implicações terapêuticas dela decorrentes.

Caso clínico

Confira o caso clínico de um adolescente de 16 anos que apresenta agressividade em ambiente doméstico e evasão escolar.

Referências

Este conteúdo foi originalmente publicado em: Assumpção Jr FB (Org.). Psiquiatria da Infância e da Adolescência: Casos Clínicos. Porto Alegre: Artmed; 2014.

  1. American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5.ed. Porto Alegre: Artmed; 2014.
  2. Bahls SC. Aspectos clínicos da depressão em crianças e adolescentes. J Pediatr (Rio J). 2002;78(5):359-66.
  3. Assumpção Jr FB. Aspectos psiquiátricos da criança escolar. Rev Psicopedag. 2009;26(81):441-57.
  4. Assumpção Jr FB, Curátolo E, editores. Psiquiatria infantil: guia prático. Rio de Janeiro: Manole; 2011.
  5. Barlow DH, Durand MR. Psicopatologia: uma abordagem integrada. São Paulo: Cengage Learning; 2011.

Adaptação editorial

Malu Macedo

Autores

Francisco B. Assumpção Jr.
Alessandra Freitas Russo
Carolina Rabello Padovani
Cristina Maria Pozzi
Evelyn Kuczynski
Marília Penna Bernal
Melanie Mendoza
Milena de Oliveira Rossetti