Dislexia (Transtorno específico da aprendizagem)

Dislexia (Transtorno específico da aprendizagem)

O que é?

Conforme Ferraz e Gonçalves,1

“[...] transtornos específicos do desenvolvimento se referem a um grupo de alterações mentais, funcionais e adaptativas que se manifestam no decorrer do desenvolvimento infantil e que afetam diretamente a aprendizagem acadêmica, a alfabetização, a leitura, a escrita e os cálculos matemáticos”.

Cabe ao clínico diferenciar os quadros de dificuldade de aprendizagem, fazendo uma discriminação entre os indivíduos com dificuldades escolares – com alterações de origem e ordem pedagógica ou ambiental – e aqueles que têm transtornos da aprendizagem. Esses transtornos são quadros de origem neurobiológica relacionada a diversos fatores, incluindo aspectos etiológicos, cognitivos e comportamentais, que interferem no processo e na aquisição das habilidades escolares.2,3

O transtorno específico da leitura, também chamado de “dislexia”, é o mais frequente entre os transtornos da aprendizagem, afetando 5 a 10% da população ­infantil4,5 e podendo ocorrer de forma isolada ou em comorbidade com outros transtornos específicos. A dislexia caracteriza-se por comprometimento do reconhecimento das palavras, leitura fraca e inexata e baixa compreensão da leitura na ausência de déficits de inteligência ou de memória significativos.6

O transtorno da leitura consiste em rendimento da leitura substancialmente ­inferior ao esperado para a idade cronológica, a inteligência medida e a escolaridade, com a perturbação da leitura interferindo significativamente no rendimento escolar ou nas atividades de vida diária (AVDs) que exigem leitura. É importante lembrar quena presença de um déficit sensorial, as dificuldades de leitura excedem aquelas geralmente a este associadas.

Até a década de 1960, a dislexia era frequentemente conceituada como um transtorno decorrente de déficits perceptivo-visuais. Em 1997, no entanto, Frith8 propôs um modelo causal da dislexia centrado no déficit de processamento fonológico, manifestado pelo baixo desempenho em tarefas de consciência fonológica, memória fonológica e nomeação. Ramus e colaboradores,9 em estudo com universitários disléxicos, utilizando uma extensa bateria de testes, identificaram importantes prejuízos em habilidades fonológicas, ainda que existissem outros prejuízos possivelmente associados a esse quadro, mas em proporções muito menores, como, por exemplo, déficits visuais e auditivos ou alterações motoras.

Outros autores, no entanto, constataram que indivíduos com os mesmos graus de prejuízos no aprendizado, isto é, com o mesmo sintoma, podem ter diferenças claras nos padrões cognitivos ativos deficitários. Isso parece fazer sentido, uma vez que no ato da leitura estão envolvidos vários processos, e, assim, o sintoma pode ter diferentes etiologias – ou, pelo menos, perfis neuropsicológicos subjacentes distintos, configurando alguns subtipos.1

Rourke e Fuerst10 propõem dois grupos principais:

  1. Dificuldade no processamento fonológico básico: indivíduos desse grupo exibem muitas inabilidades psicolinguísticas, associadas a habilidades visuoespacial-organizacional, tátil-perceptuais, psicomotoras e de resolução não verbal de problemas. Apresentam inabilidades para leitura e soletração, mas, embora ainda prejudicadas, competências aritméticas mecânicas muito mais desenvolvidas.
  2. Dificuldades de aprendizagem não verbal: indivíduos exibem problemas significativos nas competências visuoespacial-organizacional, tátil-perceptuais, psicomotoras e de solução não verbal de problemas. Entretanto, apresentam claras habilidades psicolinguísticas, como aprendizado verbal, casamento de grafema-fonema, quantidade de débito verbal e de classificação verbal. As crianças que exibem essa síndrome experimentam suas principais dificuldades de aprendizagem acadêmica na aritmética, enquanto mostram níveis avançados de reconhecimento de palavras e soletração.

Uma vez que se trata de um transtorno do desenvolvimento, alguns sinais podem ser percussores de dislexia. Muter e Snowling,11 em um estudo com crianças com parente em primeiro grau disléxico – portanto com alto risco para o desenvolvimento do quadro –, indicaram que o maior preditor de progresso na leitura é o reconhecimento das letras no início da alfabetização. Esses indivíduos apresentavam, aos 3 anos, aquisição mais lenta em vocabulário, linguagem expressiva e habilidades gramaticais; aos 6 anos, estavam atrasados em relação a seus pares no quesito alfabetização; aos 8 anos, o grupo de alto risco já apresentava problemas de alfabetização; aos 13 anos, esse grupo apresentava leitura pobre em comparação aos seus pares.11

De acordo com o modelo de Frith,8 a leitura se desenvolve em três estágios:

  1. Logográfico: leitura global em que a palavra é processada como um desenho. Nessa fase, a criança lê palavras muito familiares, mas confunde aquelas visualmente semelhantes e tem dificuldade em decodificar palavras novas ou pseudopalavras.
  2. Alfabético: é nesse estágio que o indivíduo aprende as regras de codificação e decodificação da língua escrita. A leitura é lenta e silabada, e o reconhecimento da palavra se dá pelo som. Nessa fase, a criança falha em reconhecer pseudopalavras com grafia incorreta, mas fonologicamente iguais (p. ex, “aumossu” para “almoço”).
  3. Ortográfico: leitura fluente, inclusive para palavras irregulares familiares (p. ex., “táxi”). Nessa fase, a criança reconhece trocas ortográficas.

Por falhas no processamento fonológico, crianças disléxicas tipicamente apresentam dificuldades em fazer a transição do estágio logográfico para o alfabético, mantendo por mais tempo letras espelhadas e trocas e omissões de grafemas na escrita.

Nunca é demais salientar que apenas a aplicação dos critérios do DSM-V para transtornos específicos da aprendizagem, ou seja, as dificuldades em leitura e alfabetização, em discrepância com idade, ano escolar e resultados em testes padronizados de quociente de inteligência (QI), não é suficiente para um diagnóstico de dislexia. Como mencionado anteriormente, é importante fazer a distinção entre dificuldades escolares e transtornos da aprendizagem. Essa diferenciação torna-se particularmente desafiadora em um país com carências educacionais e sociais como o Brasil, já que muitas crianças apresentam déficits importantes de repertório acadêmico por limitações nos métodos pedagógicos empregados.12

A dislexia é um quadro que causa grandes impactos no desempenho educacional e psicossocial do indivíduo, reforçando a importância de haver profissionais da saúde e da educação qualificados para lidar com essa população.13

Caso clínico

Confira o caso clínico de um menino de 8 anos com dificuldades de aprendizagem, em especial leitura e escrita.

Confira também informações gerais sobre Transtorno específico da aprendizagem.

Referências

Este conteúdo foi originalmente publicado em: Assumpção Jr FB (Org.). Psiquiatria da Infância e da Adolescência: Casos Clínicos. Porto Alegre: Artmed; 2014.

  1. Ferraz PG, Gonçalves AMN. Psicopatologia do escolar. In: Assumpção Jr FB, Kuczynski E, organizadores. Tratado de psiquiatria da infância e adolescência. 2. ed. Rio de Janeiro: Atheneu; 2012. p.
  2. Ciasca SM. Distúrbios de aprendizagem: proposta de avaliação multidisciplinar, São Paulo: Casa do Psicólogo; 2003.
  3. Bishop DV, Snowling MJ. Predictors of exception word and nonword Reading in dyslexic children: the seventeen hypothesis. J Exp Psychol. 2002;94(1):34-43
  4. Santos MTM, Navas ALG. Distúrbios de leitura e escrita. São Paulo: Manole; 2006.
  5. Capovilla AGS, Capovilla FC. Problemas de leitura e escrita: como identificar, prevenir e remediar em uma abordagem fônica. 4. ed. São Paulo: Memnon; 2004.
  6. Sadock BJ, Sadock VA. Compêndio de psiquiatria: ciência do comportamento e psiquiatria clínica. 9. ed. Porto Alegre: Artmed; 2007.
  7. American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5.ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
  8. Frith U. Brain, mind and behavior in dyslexia. In: Hulme C, Snowling M, editors. Dyslexia: biology, cognition and intervention. London: Whurr; 1997.
  9. Ramus F, Rosen S, Dakin SC, Day BL, Castellote JM, White S, et al. Theories of developmental dyslexia: insights of a multiple case study of dyslexic adults. Brain. 2003;126(Pt 4):841-65.
  10. Rourke BP, Fuerst DR. Learning disabilities and psychosocial functioning: a neuropsychological perspective. New York: Guilford; 1991.
  11. Muter V, Snowling MJ. Children at familial risk of dyslexia: practical implications from an at-risk study. Child Adolesc Ment Health. 2009;4(1):37-41.
  12.  Capovilla AGS, Capovilla FC, Trevisan BT, Rezende MC. Natureza das dificuldades de leitura em crianças brasileiras com dislexia do desenvolvimento. Acoalfaplp. 2006;1:6-18.
  13. Franco de Lima R, Mello RJL, Massoni I, Ciasca SM. Dificuldades de aprendizagem: queixas escolares e diagnósticos em um serviço de neurologia infantil. Rev Neurociênc. 2006;14(4):185-90.

    Autores

    Melanie Mendoza
    Alessandra Freitas Russo
    Cristina Maria Pozzi
    Marília Penna Bernal
    Francisco B. Assumpção Jr.
    Evelyn Kuczynski
    Carolina Rabello Padovani
    Milena de Oliveira Rossetti