Psicoterapia na dependência de internet: TCC

Psicoterapia na dependência de internet: Terapia cognitivo-comportamental

Ver também

Estratégias clínicas do tratamento

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) tem sido a abordagem mais estudada nos últimos anos para o tratamento da dependência de internet e/ou da dependência tecnológica como um todo.

O número de sessões de psicoterapia varia entre 8 e 12.

Estudos apontam que a terapia em grupo para dependência de internet é bastante eficaz no que diz respeito ao aprendizado dos pacientes sobre como identificar os pensamentos e os sentimentos que desencadeiam a busca pela tecnologia, assim como ao aprendizado de novas habilidades de enfrentamento, habilidades sociais e prevenção de recaída, o que resulta, na maioria das vezes, em diminuição do tempo gasto on-line.1-6

Young,4 uma das pioneiras nos estudos sobre dependência de internet, registra experiências e resultados significativos em seus tratamentos com base na TCC. Seus resultados apontam algumas estratégias de intervenção com ênfase na moderação e no uso controlado da internet, utilizando técnicas de gerenciamento de tempo e desenvolvendo metas racionais no uso, além da criação de atividades off-line prazerosas para os pacientes, bem como outros métodos de enfrentamento, com o objetivo de capacitá-los a lidar com suas dificuldades.

Embora, até o momento, não existam estudos de metanálise e/ou randomizados que comprovem a eficácia da terapia familiar para dependências tecnológicas, o Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (AMITI), vinculado ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HCFMUSP), além de prestar atendimento psiquiátrico e psicoterapêutico aos pacientes com dependência de internet, também elaborou um programa de atendimento às famílias dos adolescentes com o objetivo específico de orientar e incluir os familiares no tratamento. A meta é favorecer a adesão dos familiares ao tratamento, a fim de prestar orientações pontuais e específicas para melhorar a interação entre a família em relação ao uso abusivo da internet.

Esse programa do AMITI tem o referencial da TCC e se propõe a:

  • Identificar e descrever o comportamento do familiar relacionado à internet.
  • Reforçar o comportamento associado ao uso adequado da rede.
  • Diferenciar e analisar funcionalmente os comportamentos envolvidos.
  • Buscar alternativas de ação, por meio de estratégias que visem à resolução de problemas.
  • Identificar os efeitos no controle do uso da internet.
  • Desenvolver repertório de suporte familiar para manutenção das mudanças realizadas.

A cada tema abordado, tarefas para implemento na prática familiar são solicitadas. Assim, o processo estabelecido contribuiu para o desenvolvimento de uma relação mais empática entre a família, ampliando as possibilidades de resolução conjunta dos problemas associados ao uso excessivo da internet.7

Pesquisas futuras devem ser realizadas para implementar a adesão dos familiares ao tratamento, bem como desenvolver programas de apoio familiar na recuperação de adolescentes e adultos.

No programa estruturado para tratamento da dependência tecnológica8 (Tabela 1) vários dos eixos teóricos e práticos da terapia cognitiva são utilizados.

A intervenção, destinada ao atendimento de adolescentes e adultos, é fornecida nas modalidades em grupo e individual, com duração total de 18 semanas.

Sempre que necessário, os pacientes são acompanhados por psiquiatras concomitantemente à psicoterapia para tratar as comorbidades associadas.

Além disso, é fornecida intervenção familiar em grupo de maneira simultânea.7

TABELA 1 | PROGRAMA ESTRUTURADO PARA TRATAMENTO DA DEPENDÊNCIA TECNOLÓGICA

SEMANAS

TEMAS

0

Aplicação de inventários

1

Apresentação do programa

2

Análise dos “aspectos positivos” da rede

3

Tudo tem sua consequência ou seu preço

4 e 5

Gosto ou “preciso” navegar na rede?

6 e 7

Como é a experiência de “necessitar”

8

Análise dos sites mais visitados e as sensações subjetivas vivenciadas

9

Entendimento do mecanismo do gatilho

10

Técnica da linha da vida

11

Aprofundamento dos aspectos deficitários

12, 13 e 14

Trabalho com os temas emergentes

15 e 16

Alternativas de ação (habilidades de enfrentamento)

17

Preparação para o encerramento

18

Encerramento e nova aplicação de inventários

Fase inicial do tratamento

Na fase inicial (sessões 1 a 5) do tratamento, os malefícios causados pelo contato com a tecnologia na vida dos pacientes são abordados de maneira breve, pois muito poucos chegam à psicoterapia com o desejo de modificar seu uso.

Dessa forma, nas primeiras sessões, abordam-se as facilidades e os benefícios decorrentes da vida virtual.

Os relatos apresentados pelos pacientes demonstram o quanto a vida deles se restringe aos aplicativos utilizados e – o mais significativo – o quanto a vida deles é solitária, sem nenhum apoio social e, muitas vezes, sem nenhum apoio familiar.

Para a maioria dos pacientes, o único contato social é com os amigos dos jogos on-line ou das redes sociais, indivíduos que eles não conhecem pessoalmente.

Depois disso, na 3ª sessão, aborda-se o tema “Tudo tem sua consequência ou seu preço” e, neste momento, utiliza-se a técnica de “vantagens e desvantagens”, na qual os pacientes podem buscar, em suas experiências, os prós e os contras desse uso e as queixas de familiares e amigos.

Na 4ª e na 5ª sessões, aborda-se a necessidade de usar a tecnologia da maneira como estão fazendo, ou seja, exploram-se as implicações pessoais do uso excessivo (“Vou para a internet, pois lá me sinto aceito”, “Lá encontro uma vida mais digna”, “Na internet, tenho uma parceira que me deseja de verdade”, “Na internet me realizo como jamais conseguiria na vida real”). Essas falas emergem, na maioria das vezes, de maneira espontânea ao longo dos encontros do grupo, claramente demonstrando o aspecto compensatório que as experiências na internet exercem sobre a vida dessas pessoas.

Assim, os pacientes começam a perceber que a opção pela vida virtual nada mais é do que uma forma alternativa (embora desadaptativa) de enfrentar as situações desconfortáveis da vida, os problemas familiares, a falta de habilidade e a ansiedade social. É assim que o círculo vicioso que compõe a dependência passa a ser identificado.7

Fase intermediária do tratamento

Inicia-se a fase intermediária (sessões 6 a 15) já com a aliança terapêutica estabelecida e firmada entre os membros do grupo.

Nessa etapa, as intervenções psicoterápicas são introduzidas com o objetivo de alterar as respostas disfuncionais.

Como tarefa de casa, pede-se que os pacientes façam um diário do uso da tecnologia, abordando a situação anterior ao uso, o aplicativo utilizado, o tempo, os pensamentos e os sentimentos, sobretudo aqueles relativos às necessidades emocionais que não são respondidas ou atendidas e acabam sendo satisfeitas apenas no mundo virtual.

Na sessão 9, tenta-se identificar todas as informações que os ajudem a mapear os gatilhos situacionais e a cadeia de comportamentos decorrentes.

Ao analisar todo o mecanismo de uso, em conjunto com os pensamentos e emoções vivenciados, é possível perceber que o uso excessivo nada mais é do que uma manifestação repetitiva de esquiva e fuga, tendo como consequência uma resposta evitativa.

Neste momento da psicoterapia, na 10ª sessão, utiliza-se a “técnica da linha da vida”. É traçada uma linha horizontal sobre a qual cada paciente deve escrever todas as experiências significativas de suas vidas e as respectivas idades desde o nascimento até a data atual. Abaixo de cada evento, eles devem indicar as emoções que sentiram em cada situação vivida. Esse gráfico em forma de paisagem permite a identificação das feridas emocionais e uma melhor visualização dos “problemas” (primeiro “P”) enfrentados ao longo da vida.7

Dessa forma, os pacientes conseguem identificar como foram edificando suas atitudes ao longo da vida, principalmente nos relacionamentos mais próximos, e como uma repetição no modo de realizar suas trocas com o mundo foi se estabelecendo. Assim, torna-se mais fácil compreender por que a internet se tornou um grande refúgio e um melhor local de controle e manejo emocional.

O próximo passo é desenhar uma perspectiva de mudança para cada paciente, ou seja, uma perspectiva que permita aos pacientes explorarem a si próprios e suas relações, tendo nos terapeutas e nos membros do grupo uma base segura para encorajá-los no exame das situações e dos papéis e crenças por eles desenvolvidos, assim como de suas reações a essas situações.

No trabalho com os “temas emergentes” (sessões 12 a 14), pacientes e terapeuta exploram juntos as situações e as crenças por eles desenvolvidas, tornando clara a interpretação que fazem sobre si mesmos e sobre o mundo à sua volta. Tendo nítido esse modelo disfuncional (seu modus operandi emocional e cognitivo) advindo de sua história de vida, os pacientes conseguem identificar o papel que a tecnologia tem nesse processo disfuncional de enfrentamento e, assim, reorganizar os padrões de resposta comportamentais e emocionais, diminuindo a necessidade de refugiar-se na tecnologia.

Os aspectos inicialmente responsáveis pelo uso inadequado da tecnologia são pouco discutidos neste momento.

Com a segurança e o incentivo oferecidos pelos profissionais e pelos colegas do grupo, que proporcionam uma excelente ferramenta de intervenção para transmissão e entendimento dos significados e, assim, facilitam o processamento das novas informações, abordam-se as perspectivas pessoais de enfrentamento dentro do espectro de possibilidades na vida de cada um.

Fase final do tratamento

Na fase final (sessões 16 a 18), as habilidades de enfrentamento desenvolvidas no decorrer das semanas continuam sendo monitoradas, e são introduzidas técnicas de prevenção de recaída. Na preparação para o encerramento, averiguam-se, com os pacientes:

  • Melhor controle do uso da internet.
  • Desenvolvimento de novas habilidades pessoais de manejo das situações de estresse e desafio.
  • Exibição de um novo repertório de reações emocionais.
  • Restituição e/ou reparo do grupo social.

Estudos internos demonstraram melhora significativa (85%) em relação aos participantes dos grupos terapêuticos, embora nunca tenha sido utilizado um grupo-controle.

Essa afirmativa se baseia na aplicação de inventários específicos de rastreio (p. ex., teste de dependência de internet, inventário de depressão de Beck, entre outros).

Os pacientes que não apresentam melhora expressiva são reencaminhados aos grupos para novo tratamento.

As técnicas mais utilizadas são:

  • Psicoeducação
  • Questionamento socrático
  • Registro de pensamentos
  • Identificação de distorções cognitivas
  • Vantagens e desvantagens
  • Linha da vida
  • Resolução de problemas
  • Gerenciamento do tempo
  • Prevenção de recaída

Na terapia individual, é realizado um trabalho mais focal, ou seja, é possível envolver a família e o cônjuge de maneira mais intensa e contínua, o que auxilia expressivamente o processo de recuperação.

Entretanto, pode-se dizer que, de maneira geral, os passos descritos na terapia individual são praticamente os mesmos adotados na modalidade grupal, em que um dos aspectos mais centrais consiste na identificação das deficiências mais prevalentes na vida do paciente (depressão, fobia social, etc.).

Esses problemas fazem da internet um local de “compensação”, no mundo digital, dos problemas que, no mundo real, impedem uma vida mais plena.

A possibilidade de “melhorar” a imagem social veiculada nos grupos funciona com um elemento importante e definidor do que se denomina e-personalidade, ou, dito de outra forma, da personalidade eletrônica.

A família normalmente se apresenta de maneira disfuncional, ou seja, quando o paciente passa a ter comportamentos que comprometem suas rotinas e passam a ser motivo de preocupação, como ficar muitas horas conectado, não dormir ou não se alimentar de modo correto, é provável que não esteja ele sendo acompanhado de maneira adequada.

Isso quer dizer que a “parentalidade” não é observada e exercida da maneira esperada, o que abre espaço, portanto, para que os pacientes troquem a vida real (frustrante e isolada) por uma vida virtual aparentemente mais rica de experiências e de parcerias.

Acesse aqui um Exemplo clínico

A família e o paciente com uso problemático de internet

A família ou os cônjuges sempre são convidados a participar de maneira mais ativa no sentido de ajudar os pacientes a retornarem a uma rotina mais estruturada de vida.

Essa participação colabora para que os familiares sirvam de suporte e de exemplo de um uso saudável da tecnologia.

É importante que os familiares estejam atentos no sentido de evitar os comportamentos indesejáveis ou de criar um ambiente que ofereça acolhimento e suporte emocional, pois é exatamente a existência de um espaço ou de relações hostis que colabora de modo direto para a fuga da vida real para a vida digital (pois, do lado de lá, “se tem o controle” [sic]).

Referências

Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.

  1. Du Y, Jiang W, Vance A. Longer term effect of randomized controlled group cognitive behavioral therapy for Internet addiction in adolescent students in Shanghai. Aust N Z J Psychiatry. 2010;44(2):129-34.
  2. Young KS. Cognitive behavioral therapy with internet addicts: treatment outcome and implications. CyberPsychol Behav. 2007;10(5):671-9.
  3. Barossi O, Meira SV, Góes DS, Abreu CN. Internet Addicted Adolescents’ Parents Guidance Program (PROPADI). Rev Bras Psiquiatria. 2009;31(4):387-95.
  4. Young KS. Internet addiction: symptoms, evaluation, and treatment [Internet]. 1999. [capturado em: 17 jan 2018]. Disponível em: http://www.netaddiction.com/articles/symptoms.pdf.
  5. Abreu CN, Góes D. Psychotherapy for internet addiction. In: Young KS, Abreu CN. Internet addiction: a handbook and guide to evaluation and treatment. New Jersey: Wiley; 2011. p.155-71.
  6. Abreu CN, Karam RG, Góes DS, Spritzer DT. Dependência de internet e jogos eletrônicos: uma revisão. Rev Bras Psiquiatria. 2008;30(2):156-67.
  7. Young KS, Nabuco CA. Internet addiction in children and adolescents: risk factors, assessment, and treatment. New York: Springer; 2017.
  8. Winkler A, Dorsing B, Rief W, Shen Y, Glombiewski JA. Treatment of internet addiction: a meta-analysis. Clin Psychol Rev. 2013;33(2):317-29.

Autores

Dora Sampaio Góes
Cristiano Nabuco de Abreu