Psicoterapia na dependência de internet

Psicoterapia na dependência de internet

Introdução

Embora a comunidade científica esteja ciente das questões que envolvem o uso abusivo das tecnologias, o fenômeno emergente ainda não é reconhecido como uma nova categoria diagnóstica em saúde mental.

Para alguns, o uso abusivo de internet e das novas tecnologias ainda seria apenas um aspecto secundário a outros transtornos psiquiátricos primários – e, portanto, não passível de constituir uma nova categoria nosográfica de saúde mental.

Porém, ao longo da última década, estudos em todos os segmentos, como a pesquisa clínica, social, cognitiva, do desenvolvimento, entre outros, colaboraram, de forma expressiva, com muitos artigos e pesquisas.

Atualmente, a dependência de internet é conceitualizada como uma patologia pertencente aos transtornos do controle de impulsos, contemplando, assim, aspectos semelhantes aos observados no jogo patológico.

Nesse sentido, a dependência de internet (e demais dependências tecnológicas) se apresenta em vários formatos, como preocupações sexuais virtuais sem controle, jogos on-line e de videogame usados de forma descontrolada, compras compulsivas, envio excessivo de e-mails e uso abusivo de redes sociais (Facebook, Instagram e WhatsApp).1

Na quinta edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5),2 a dependência de internet foi definida tecnicamente como transtorno do jogo pela internet.

O problema

Embora o uso diário da tecnologia tenha disponibilizado possibilidades infinitas, também os efeitos colaterais e demais problemas de ordem comportamental não demoraram a surgir.

Em um estudo recente,3 apenas para citar um exemplo, mais de um terço dos pais relatou conflitos com os filhos por conta do uso excessivo de telefone celular, ao passo que metade dos jovens e mais de um quarto de seus pais acreditam que são viciados em dispositivos eletrônicos.4

O que temos observado, portanto, é que a inclusão desordenada da tecnologia em nossas vidas estreitou, e muito, a linha divisória entre o uso saudável e o uso patológico (dezenas de investigações já apontam o efeito negativo do uso excessivo).5

Segundo Rich, Tsappis e Kavanaugh,3 crianças e adolescentes estão especialmente em risco de desenvolver uso problemático por serem os adeptos mais entusiasmados da tecnologia e contarem com a condescendência dos adultos. O problema é que, como ainda estão em fase de desenvolvimento de funções cerebrais, como o controle de impulsos (ou o chamado “freio comportamental”), a autorregulação emocional torna-se, desde cedo, prejudicada.

Em 2015, jovens de 13 a 18 anos de idade passaram, em média, 9 horas por dia usando as mídias digitais, sendo que um terço deles usou dois ou mais dispositivos simultaneamente.

Já entre os jovens de 8 a 12 anos, o uso da mídia digital era de aproximadamente 6 horas por dia.

Em relação ao uso de tecnologia entre as crianças, 9 entre 10 crianças de 5 a 8 anos de idade e mais da metade entre aquelas entre 2 e 4 anos usaram mídia de tela no último ano.

Entre crianças de 0 a 4 anos, 90% usaram dispositivos móveis, a maioria delas desde antes de 1 ano de idade.3

Uma pesquisa conduzida na América Latina,6 em 2012, com quase 5.500 indivíduos maiores de 18 anos concluiu que 40% das pessoas com acesso à internet já haviam praticado sexting (o envio de imagens de conteúdo pessoal e sexual entre parceiros), obviamente sofrendo, muitas vezes, efeitos devastadores.

Diagnóstico e epidemiologia

Os diversos conceitos utilizados na literatura científica para entender e classificar o uso abusivo da internet emergiram das várias áreas que compreendem a saúde mental. Assim, diversas denominações já foram citadas na literatura, como dependência de internet, uso patológico da internet, transtorno de dependência de internet, uso compulsivo de internet, entre outras.

Observando a complexidade do assunto, Ivan K. Goldberg7 cunhou, na década de 1990, a terminologia “transtorno de dependência da internet” (IAD, do inglês internet addiction disorder), cujos sintomas incluem abandono ou redução de atividades profissionais ou sociais importantes em virtude do uso da internet, fantasias ou sonhos sobre internet, movimentos voluntários ou involuntários de digitação dos dedos, entre outros aspectos.

Posteriormente, a psicóloga americana Kimberly Young apresentou uma das primeiras pesquisas sobre vício em internet, intitulada “Internet addiction: the emergence of a new clinical disorder”.8

Young baseou-se inicialmente nos critérios diagnósticos do uso de substâncias para definir o novo conceito. Em uma segunda edição, publicada em 1998, a autora aprimorou sua proposta, utilizando 8 dos 10 critérios diagnósticos existentes no DSM-IV para jogo patológico, e, dessa forma, estabeleceu-se um novo conjunto de critérios para definir a dependência de internet.2

Segundo Young,8 o paciente dependente deve apresentar pelo menos cinco critérios entre os descritos na Tabela 1.

TABELA 1 | CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS DE DEPENDÊNCIA DA INTERNET

  1. Demonstrar preocupação excessiva com a internet.
  2. Precisar aumentar o tempo conectado (on-line) para ter a mesma satisfação.
  3. Exibir esforços repetidos para diminuir o tempo de uso da internet.
  4. Apresentar irritabilidade e/ou depressão.
  5. Quando o uso da internet é restringido, apresentar labilidade emocional (a internet é vivida como uma forma de regulação emocional).
  6. Permanecer mais tempo conectado (on-line) do que o planejado.
  7. Ter o trabalho e as relações familiares e sociais em risco pelo uso excessivo.
  8. Mentir para os outros a respeito da quantidade de horas conectado.

Todavia, ao tentar refinar os argumentos de Young,8 Beard e Wolf9 sugerem maior rigor ao realizar o diagnóstico. Em vez de considerar 5 dos 8 critérios de forma aleatória, os autores sugerem observar a existência dos cinco primeiros critérios associados a pelo menos um dos três últimos, pois estes se referem a formas de impedimento ou limitações sociais ou ocupacionais causadas pelo uso excessivo.

Outros critérios diagnósticos foram propostos por Shapira e colaboradores10 por meio da denominação “uso problemático de internet” como forma de aprimoramento do diagnóstico e dos múltiplos aplicativos (p. ex., chats, compras, realidade virtual, etc.). Para esse autor, a releitura do transtorno do jogo não era suficiente; portanto, ele entendeu que o uso abusivo de tecnologia deveria se basear nos critérios dos transtornos do controle de impulsos sem outra especificação, conforme descrito na versão resumida do DSM-IV, o DSM-IV-TR, por compartilhar elementos comuns a esses casos (Tabela 2).

TABELA 2 | CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS DO USO PROBLEMÁTICO DA INTERNET

  1. Preocupação desadaptativa com o uso da internet, conforme indicado por pelo menos um dos critérios a seguir:
    • Preocupações com o uso da internet descritas como incontroláveis ou irresistíveis.
    • Uso da internet é marcado por períodos mais longos do que o planejado.
  2. Uso da internet ou preocupação com o uso, causando prejuízos ou danos significativos nos aspectos sociais, ocupacionais ou em outras áreas importantes do funcionamento.
  3. O uso excessivo da internet não ocorre exclusivamente nos períodos de hipomania ou mania e não é mais bem explicado por outro transtorno do eixo I.

Portanto, adotando uma ou outra classificação, os estudos têm demonstrado repetidamente a dependência de internet como um fenômeno em franca ascensão na maioria dos países da Europa, das Américas e, mais intensamente, na China, na Coreia do Sul e em Taiwan, onde já exibe dimensões epidêmicas. Na Coreia do Sul, por exemplo, são registrados mais de 150 centros de tratamento.11

Sabe-se hoje que, conforme as tecnologias invadem as rotinas da vida, o contato com o computador deixa de ser um acontecimento ocasional de uma população específica e passa a ser predominante nas atividades cotidianas (que são cada vez mais mediadas pela internet).

Assim, a dependência de internet pode ser encontrada em qualquer faixa etária, grau de escolaridade e estrato socioeconômico. As estimativas de prevalência da dependência de internet variam de 0,8 a 27,7% das amostras de populações adolescentes e de 1 a 22% da população adulta. Alguns autores contornam essas amplitudes diferentes pela estimativa de que aproximadamente 10% da população de usuários de internet já teria desenvolvido a dependência.12

Esses achados diferem por serem feitos por meio de instrumentos de avaliação distintos para rastrear a dependência de internet com diferentes notas de corte e nomenclaturas, além de metodologias de pesquisa distintas. Enquanto alguns estudos foram realizados com coleta de dados on-line (autopreenchimento), outros concentraram-se em uma população escolar ou acadêmica e outros, ainda, mesclam populações de idades, gêneros e outros critérios distintos. Além disso, a falta de uma dimensão temporal nos critérios diagnósticos também pode, imagina-se, superdimensionar essas estatísticas.13

Os fatores psicossociais relacionados à dependência de internet são:

  • Na população adolescente
    • Baixa autoestima
    • Intolerância à frustração
    • Introversão
    • Baixa estabilidade emocional
    • Solidão
    • Uso da internet para regular o humor e a baixa satisfação com a vida
  • Na população adulta
    • Impulsividade
    • Estilo de apego inseguro
    • Baixo autoconceito
    • Escapismo
    • Solidão
    • Evitação de emoções negativas11-15

Em relação aos fatores familiares de adolescentes e adultos, destacam-se comunicação familiar insatisfatória, baixa orientação dos pais sobre o risco do uso adequado da internet (perigos, tipos de site, etc.), bem como falta de regras sobre o tempo de uso, história de maus-tratos, falta de amor quando crianças e, principalmente, falta de apoio familiar.13,16

Várias pesquisas apontam relação significativa entre dependência de internet e comorbidades psiquiátricas como depressão,9,17 ansiedade,18 transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH),19 insônia e abuso de álcool.20

Conceitualização teórica

Em 2001, Davis desenvolveu uma proposta dentro do modelo cognitivo-comportamental para o que denominou “uso patológico da internet” (PIU, do inglês pathological internet use).

O modelo distingue entre PIU específico e PIU generalizado.

No caso específico, o indivíduo tem uma finalidade discriminada para o uso problemático da internet, como visualização de material pornográfico, atividades sexuais, jogos de azar, leilões on-line, entre outras. Ou seja, o uso está ligado a apenas um aspecto da internet e resulta de psicopatologia preexistente na vida do indivíduo, a qual se associou ao uso da internet.20

O PIU generalizado, por sua vez, envolve o uso multidimensional da internet, envolvendo tempo prolongado e sem um propósito definido. Está associado principalmente à falta de apoio social e familiar, assim como ao isolamento social. O contato e o reforço sociais obtidos por meio da experiência on-line parecem trazer o desejo de permanecer com a vida social virtual. O indivíduo passa horas em aplicativos, verificando insistentemente suas redes sociais e e-mails ou apenas assistindo a vídeos e jogos on-line. São pessoas com maior tendência à procrastinação e que utilizam a internet para adiar suas responsabilidades. Todo esse tempo gasto gera graves problemas na vida cotidiana do indivíduo e de sua família.

Segundo Davis, os indivíduos com PIU generalizado são mais problemáticos, pois provavelmente já sejam propensos a apresentar cognições desadaptativas e isolamento social. Como eles não conseguem encontrar formas de expressar suas angústias, a internet, com sua função social, produz um meio de comunicação.

Porém, o que Davis enfatiza nesse modelo são os fatores etiológicos, principalmente os fatores distal e proximal.

Como fatores causais distais necessários, aponta as psicopatologias subjacentes, como depressão e ansiedade social, e a própria experiência com a internet como eventos catalisadores para o processo de desenvolvimento do PIU. A experiência positiva com a internet e as novas tecnologias atua como reforço positivo, fazendo o indivíduo buscar automaticamente, a cada nova situação estressante na vida, aquela experiência prazerosa para desviar o foco dos sentimentos de angústia.

Segundo Davis, o fator etiológico proximal inclui as distorções cognitivas. Elas são causas suficientes para o aparecimento dos sintomas de PIU. Essas distorções cognitivas podem ser em relação a si mesmo ou ao mundo. Normalmente, são guiadas por um estilo cognitivo ruminativo, favorecendo a busca constante do indivíduo em descobrir quem está on-line e o que acontece em seus aplicativos prediletos. Outras distorções cognitivas comuns envolvem dúvidas em relação a si mesmo, como falta de amor próprio. O indivíduo tem uma visão negativa de si mesmo e utiliza a tecnologia para atingir respostas mais positivas a seu respeito. Esses pensamentos incluem “só sou bom quando estou on-line” ou “na vida off-line, sou um fracasso”. Nas distorções cognitivas em relação ao mundo, o indivíduo generaliza eventos específicos, por exemplo, “só na internet consigo ser respeitado pelos amigos” ou “off-line não sou valorizado por ninguém”.

Os resultados dessas distorções ocasionam tanto o PIU específico quanto o PIU generalizado.

Conheça mais sobre a terapia por meio do link a seguir:

Referências

Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.

  1. Young KS, Abreu CN. Internet addictions in children and adolescents: risk factors, treatment, and prevention. Nova York: Springer; 2017.
  2. American Psychiatry Association. Diagnostic and statistical manual of mental disorders. 5th ed. Washington: American Psychiatric Association; 2013.
  3. Rich M, Tsappis M, Kavanaugh JR. Problematic interactive media use among children and adolescents: addiction, compulsion, or syndrome? In: Young KS, Abreu CN. Internet Addictions in children and adolescents: risk factors, treatment, and prevention. Nova York: Springer; 2017.
  4. The 2016 Common Sense Media Awards. [Internet]. 2016 [capturado em: 18 abr. 2018.] Disponível em: https://www.commonsensemedia.org/csma-2016
  5. Young KS, Abreu CN. Dependência de Internet: manual e guia de avaliação e tratamento. Porto Alegre: Artmed; 2011.
  6. eCGlobal Solutions, eCMetrics. Sexting en America Latina, una amenaza desconocida [Internet]. 2012. [capturado em: 17 jan 2018]. Disponível em: https://es.slideshare.net/eCGlobalSolutions/report-sexting-latam.
  7. Goldberg I. Internet addiction disorder. Diagnostic criteria. Internet Addiction Support Group (IASG) [Internet]. 1995. [capturado em: 17 jan 2017]. Disponível em: http://www.iucf.indiana.edu/~brown/hyplan/addict.-html.
  8. Young KS. Internet addiction: the emergence of a new clinical disorder. CyberPsychol Behav. 1998;1(3):237-44.
  9. Beard KW, Wolf EM. Modification in the proposed diagnostic criteria for Internet addiction. CyberPsychol Behav. 2001;4(3):377-83.
  10. Shapira NA Lessig MC, Goldsmith TD, Szabo ST, Lazoritz M, Gold MS, et al. Problematic internet use: proposed classification and diagnostic criteria. Depress Anxiety. 2003;17(4):207-16.
  11. Whang L, Lee K, Chang G. Internet over-users’ psychological profiles: a behavior sampling analysis on Internet addiction. CyberPsychol Behav. 2003;6(2):143-50.
  12. Ko CH, Yen JY, Yen CF, Chen CS, Wang SY. The association between Internet addiction and belief of frustration intolerance: the gender difference. CyberPsychol Behav. 2008;11(3):273-8.
  13. King DL, Delfabbro PH, Griffiths MD, Gradisar M. Cognitive-behavioral approaches to outpatient treatment of internet addiction in children and adolescents. J Clin Psychol. 2012;68(11):1185-95.
  14. Kuss DJ, Griffiths MD, Karila L, Billieux J. Internet addiction: a systematic review of epidemiological research for the last decade. Curr Pharm Des. 2014;20(25):4026-52.
  15. Yen JY, Yen CF, Chen CS, Tang TC, Ko CH. The association between adult ADHD symptoms and Internet addiction among college students: the gender difference. CyberPsychol Behav. 2009;12(2):187-91.
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  18. Yen JY, Ko CH, Yen CF, Wu HY, Yang MJ. The comorbid psychiatric symptoms of Internet addiction: Attention deficit and hyperactivity disorder (ADHD), depression, social phobia, and hostility. J Adolesc Health. 2007;41(1):93-8.
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  20. Davis RA. A cognitive-behavioral model of pathological Internet use. Comput Hum Behav. 2001;17(2):187-95.

Autores

Dora Sampaio Góes
Cristiano Nabuco de Abreu