Amitriptilina

Ver também

Terapêutica

Nomes comerciais:

  • Referência: Amytril® (Cristália); Tryptanol® (Merck)
  • Similar: Amytril (Cristália); Neo Amitriptilin (Brainfarma)
  • Genérico: Cloridrato de amitriptilina (Brainfarma; EMS; Eurofarma; FURP; Germed; Legrand; Medley; Nova Química; Teuto)

Apresentações:

  • Comprimido revestido de 10 mg – Embalagem com:
    • 10 cp: Amytril®
    • 30 cp: Amytril®
  • Comprimido revestido de 25 mg – Embalagem com:
    • 20 cp: Tryptanol®; Amytril; Neo Amitriptilin; Brainfarma; Eurofarma; Legrand; Medley; Nova Química; Teuto
    • 30 cp: Amytril; EMS; FURP; Germed; Legrand; Medley; Nova Química; Teuto
    • 60 cp: Amytril
    • 100* cp: Teuto
    • 200* cp: Amytril; Brainfarma
  • Comprimido revestido de 75 mg – Embalagem com:
    • 20 cp: Tryptanol®; Amytril; Germed; Medley; Nova Química
    • 30 cp: Amytril; EMS; Medley; Nova Química
    • 200* cp: Amytril

*Embalagem hospitalar

Apresentação combinada: Limbitrol® (clordiazepóxido + cloridrato de amitriptilina)

  • Cápsula gel de 12,5 mg + 5 mg – Embalagem com:
    • 20 cáps.: Limbitrol®

Nota: Informações sobre nomes comerciais e apresentações atualizadas em abril de 2021.*

Classe

  • Nomenclatura baseada na neurociência: serotonina e norepinefrina multimodal (SN-MM)
  • Antidepressivo tricíclico (ADT)
  • Inibidor da recaptação de serotonina e norepinefrina

Comumente prescrita para

(em negrito, as aprovações da FDA)

  • Depressão
  • Depressão endógena
  • Dor neuropática/dor crônica
  • Fibromialgia
  • Cefaleia
  • Dor lombar inferior/dor cervical
  • Ansiedade
  • Insônia
  • Depressão resistente ao tratamento

Principais sintomas-alvo

  • Humor deprimido
  • Sintomas de ansiedade
  • Sintomas somáticos
  • Dor crônica
  • Insônia

Como a substância atua

  • Estimula os neurotransmissores serotonina e norepinefrina
  • Bloqueia a bomba de recaptação da serotonina (transportadora da serotonina), possivelmente aumentando a neurotransmissão serotonérgica
  • Bloqueia a bomba de recaptação da norepinefrina (transportadora da norepinefrina), possivelmente aumentando a neurotransmissão noradrenérgica
  • Possivelmente, dessensibiliza os receptores da serotonina 1A e os receptores beta-adrenérgicos
  • Como a dopamina é inativada pela recaptação da norepinefrina no córtex frontal, o qual em grande parte carece de transportadores de dopamina, a amitriptilina pode aumentar a neurotransmissão da dopamina nessa parte do cérebro

Tempo para início da ação

  • Pode ter efeitos imediatos no tratamento de insônia ou ansiedade
  • O início das ações terapêuticas não costuma ser imediato, frequentemente demorando de 2 a 4 semanas
  • Se não estiver funcionando dentro de 6 a 8 semanas para depressão, poderá requerer um aumento na dosagem ou poderá não funcionar de forma alguma
  • Pode continuar a agir por muitos anos, prevenindo recaída dos sintomas

Se funcionar

  • O objetivo do tratamento da depressão é a remissão completa dos sintomas atuais, além da prevenção de recaídas futuras
  • O objetivo do tratamento de condições de dor crônica, como dor neuropática, fibromialgia, cefaleia, dor lombar inferior e dor cervical, é reduzir ao máximo possível os sintomas, especialmente em combinação com outros tratamentos
  • O tratamento de depressão na maioria das vezes reduz ou até mesmo elimina os sintomas, mas não é uma cura, já que os sintomas podem recorrer depois de interrompido o medicamento
  • O tratamento de condições de dor crônica, como dor neuropática, fibromialgia, cefaleia, dor lombar inferior e dor cervical, pode reduzir os sintomas, mas raramente os elimina por completo, e não é uma cura, já que os sintomas recorrem depois de interrompido o medicamento
  • Continuar o tratamento da depressão até que todos os sintomas tenham desaparecido (remissão)
  • Depois que os sintomas de depressão desapareceram, continuar tratando por 1 ano para o primeiro episódio de depressão
  • Para segundo episódio de depressão e episódios subsequentes, poderá ser necessário tratamento por tempo indefinido
  • O uso em transtornos de ansiedade e condições de dor crônica, como dor neuropática, fibromialgia, cefaleia, dor lombar inferior e dor cervical, também pode exigir duração indefinida, mas o tratamento prolongado não está bem estudado nessas condições

Se não funcionar

  • Muitos pacientes deprimidos têm apenas uma resposta parcial, em que alguns sintomas melhoram, mas outros persistem (especialmente insônia, fadiga e problemas de concentração)
  • Outros pacientes deprimidos podem ser não respondedores, algumas vezes chamados de resistentes ao tratamento ou refratários ao tratamento
  • Considerar o aumento da dose, troca por outro agente ou acréscimo de um agente de potencialização apropriado
  • Considerar psicoterapia
  • Considerar avaliação para outro diagnóstico ou para uma condição comórbida (p. ex., doença clínica, abuso de substância, etc.)
  • Alguns pacientes podem experimentar aparente falta de consistência na eficácia em razão da ativação de um transtorno bipolar latente ou subjacente, requerendo descontinuação do antidepressivo e troca por um estabilizador do humor

Melhores combinações de potencialização para resposta parcial ou resistência ao tratamento

  • Lítio, buspirona, hormônio da tireoide (para depressão)
  • Gabapentina, tiagabina, outros anticonvulsivantes, até mesmo opiáceos, se prescrito por especialistas, mediante monitoramento em casos difíceis (para dor crônica)

Dosagem e uso

Variação típica da dose

  • 50 a 150 mg/dia

Como dosar

  • Dose inicial de 25 mg/dia na hora de dormir; aumentar 25 mg a cada 3 a 7 dias
  • 75 mg/dia em doses divididas; aumentar para 150 mg/dia; máximo de 300 mg/dia

Dicas para dosagem

  • Se dada em dose única, deve geralmente ser administrada na hora de dormir devido às suas propriedades sedativas
  • Se dada em doses divididas, a dose maior em geral deve ser dada na hora de dormir devido às suas propriedades sedativas
  • Se os pacientes tiverem pesadelos, dividir a dose e não dar a maior na hora de dormir
  • Pacientes tratados para dor crônica podem precisar apenas de doses mais baixas
  • Se ocorrer ansiedade intolerável, insônia, agitação, acatisia ou ativação com o início ou descontinuação da dosagem, considerar a possibilidade de um transtorno bipolar ativado e trocar por estabilizador do humor ou antipsicótico atípico

Overdose

  • Pode ocorrer morte; depressão do SNC, convulsões, arritmias cardíacas, hipotensão grave, alterações no ECG, coma

Uso prolongado

  • Seguro

Formação de hábito

  • Não

Como interromper

  • Reduzir a dose gradualmente para evitar os efeitos de retirada
  • Mesmo com a redução gradual da dose, alguns sintomas de retirada podem aparecer dentro das 2 primeiras semanas
  • Muitos pacientes toleram redução de 50% da dose por 3 dias, depois outra redução de 50% por 3 dias, depois descontinuação
  • Se surgirem sintomas de retirada durante a descontinuação, aumentar a dose para interromper os sintomas e depois reiniciar a retirada muito mais lentamente

Farmacocinética

  • Substrato para CYP450 2D6 e 1A2
  • Meia-vida plasmática de 10 a 28 horas
  • Metabolizada em um metabólito ativo, nortiptilina, que é predominantemente um inibidor da recaptação de norepinefrina, por desmetilação via CYP450 1A2
  • Alimentos não afetam a absorção

Mecanismos de interações medicamentosas

  • O tramadol aumenta o risco de convulsões em pacientes que estão tomando ADTs
  • O uso de ADTs com substâncias anticolinérgicas pode resultar em íleo paralítico ou hipertermia
  • Fluoxetina, paroxetina, bupropiona, duloxetina e outros inibidores de CYP450 2D6 podem aumentar as concentrações de ADT
  • Fluvoxamina, um inibidor de CYP450 1A2, pode diminuir a conversão de amitriptilina em nortriptilina e aumentar as concentrações plasmáticas de amitriptilina
  • Cimetidina pode aumentar as concentrações plasmáticas de ADTs e causar sintomas anticolinérgicos
  • Fenotiazinas ou haloperidol podem elevar as concentrações sanguíneas de ADT
  • Pode alterar os efeitos de substâncias anti-hipertensivas; pode inibir os efeitos hipotensivos da clonidina
  • O uso de ADTs com agentes simpatomiméticos pode aumentar a atividade simpática
  • Metilfenidato pode inibir o metabolismo dos ADTs
  • Ativação e agitação, sobretudo depois de troca ou acréscimo de antidepressivos, podem representar a indução de um estado bipolar, especialmente uma condição bipolar tipo II disfórica mista, algumas vezes associada a ideação suicida, e requer a adição de lítio, um estabilizador do humor ou um antipsicótico atípico e/ou descontinuação de amitriptilina

Outras advertências/precauções

  • Acrescentar ou iniciar outros antidepressivos com cautela por até 2 semanas após a descontinuação de amitriptilina
  • Geralmente, não usar com IMAOs, incluindo 14 dias depois da interrupção de IMAOs; não iniciar um IMAO por pelo menos 5 meias-vidas (5 a 7 dias para a maioria das substâncias) depois da descontinuação da amitriptilina, mas ver a seção Dicas
  • Usar com cautela em pacientes com história de convulsões, retenção urinária, glaucoma de ângulo fechado, hipertireoidismo
  • ADTs podem aumentar o intervalo QTc, especialmente em doses tóxicas, o que pode ocorrer não apenas por overdose como também pela combinação de substâncias que inibem o metabolismo do ADT via CYP450 2D6, potencialmente causando arritmia do tipo torsade de pointes ou morte súbita
  • Como os ADTs podem prolongar o intervalo QTc, usar com cautela em pacientes que têm bradicardia ou estão tomando substâncias que podem induzi–la (p. ex., betabloqueadores, bloqueadores dos canais de cálcio, clonidina, digitálicos)
  • Como os ADTs podem prolongar o intervalo QTc, usar com cautela em pacientes que têm hipocalemia e/ou hipomagnesemia, ou estão tomando substâncias que podem induzir hipocalemia e/ou magnesemia (p. ex., diuréticos, laxativos estimulantes, anfotericina B, glicocorticoides, tetracosactida)
  • No tratamento de crianças, ponderar cuidadosamente os riscos e benefícios do tratamento farmacológico em comparação ao não tratamento com antidepressivos, e documentar isso no prontuário do pacientes
  • Distribuir as brochuras fornecidas pela FDA e pelas companhias farmacêuticas
  • Alertar os pacientes e seus cuidadores sobre a possibilidade de efeitos colaterais de ativação e aconselhá-los a relatar esses sintomas imediatamente
  • Monitorar os pacientes para a ativação de ideação suicida, especialmente crianças e adolescentes

Não usar

  • Se o paciente estiver se recuperando de infarto do miocárdio
  • Se o paciente estiver tomando agentes capazes de prolongar significativamente o intervalo QTc (p. ex., pimozida, tioridazina, antiarrítmicos selecionados, moxifloxacina, esparfloxacina)
  • Se houver história de prolongamento do intervalo QTc ou arritmia cardíaca, infarto agudo do miocárdio recente, insuficiência cardíaca descompensada
  • Se o paciente estiver tomando substâncias que inibem o metabolismo de ADT, incluindo inibidores de CYP450 2D6, exceto se prescrito por um especialista
  • Se houver função reduzida de CYP450 2D6, como em pacientes que são fracos metabolizadores de 2D6, exceto se prescrito por um especialista e em baixas doses
  • Se houver uma alergia comprovada a amitriptilina ou nortriptilina

Potenciais vantagens e desvantagens

Potenciais vantagens

  • Pacientes com insônia
  • Depressão grave ou resistente ao tratamento
  • Pacientes com uma ampla variedade de síndromes de dor crônica

Potenciais desvantagens

  • Pacientes pediátricos e geriátricos
  • Pacientes preocupados com ganho de peso
  • Pacientes com doença cardíaca

Dicas

  • Já foi um dos agentes mais prescritos para depressão
  • Permanece sendo um dos ADTs mais preferíveis para tratamento de cefaleia e uma ampla variedade de síndromes de dor crônica, incluindo dor neuropática, fibromialgia, enxaqueca, dor cervical e dor lombar
  • A preferência de alguns prescritores por amitriptilina em relação a outros antidepressivos tetracíclicos para o tratamento de síndromes de dor crônica está mais baseada na arte e em relatos informais do que em ensaios clínicos controlados, já que muitos ADTs/tetracíclicos podem ser efetivos para essas síndromes
  • Em geral, os ADTs não são mais considerados uma opção de tratamento de primeira linha para depressão devido ao seu perfil de efeitos colaterais
  • A amitriptilina demonstrou ser efetiva em insônia primária
  • Os ADTs podem agravar sintomas psicóticos
  • Deve ser evitado álcool devido aos efeitos aditivos no SNC
  • Pacientes abaixo do peso normal podem ser mais suscetíveis a efeitos adversos cardiovasculares
  • Crianças, pacientes com hidratação inadequada e aqueles com doença cardíaca podem ser mais suscetíveis a cardiotoxicidade induzida por ADT do que adultos saudáveis
  • Somente para o especialista: embora costume ser proibido, um tratamento extremo e potencialmente perigoso, para pacientes muito resistentes ao tratamento, é dar um antidepressivo tricíclico/tetracíclico, exceto clomipramina, simultaneamente com um IMAO para indivíduos que não respondem a diversos outros antidepressivos
  • Se essa opção for escolhida, iniciar o IMAO com o antidepressivo tricíclico/tetracíclico simultaneamente, em baixas doses, após a eliminação apropriada da substância, depois aumentar de modo alternado as doses desses agentes a cada poucos dias até uma semana, conforme tolerados
  • Embora restrições dietéticas muito rígidas e restrições medicamentosas concomitantes devam ser observadas para prevenir crises hipertensivas e síndrome serotonérgica, os efeitos colaterais mais comuns das combinações MAO/tricíclicos ou tetracíclicos podem ser ganho de peso e hipotensão ortostática
  • Pacientes fazendo uso de ADTs devem estar conscientes de que poderão experimentar sintomas como fotossensibilidade ou urina azul-esverdeada
  • Os ISRSs podem ser mais efetivos do que os ADTs em mulheres, e ADTs podem ser mais efetivos do que ISRSs em homens
  • Como os antidepressivos tricíclicos/tetracíclicos são substratos para CYP450 2D6, e 7% da população (especialmente pessoas brancas) podem ter uma variante genética levando a atividade reduzida de 2D6, tais pacientes podem não tolerar com segurança as doses normais de antidepressivos tricíclicos/tetracíclicos e requerer redução da dose
  • Poderá ser necessário teste fenotípico para detectar a referida variante genética antes da dosagem com um antidepressivo tricíclico/tetracíclico, especialmente em populações vulneráveis, como crianças, idosos, populações cardíacas e aqueles com medicações concomitantes
  • Pacientes que parecem ter efeitos colaterais extraordinariamente graves em doses normais ou baixas podem ter essa variante fenotípica de CYP450 2D6 e exigir doses baixas ou troca por outro antidepressivo não metabolizado por 2D6

Referência

Conteúdo originalmente publicado em: STAHL, S. M. Fundamentos de psicofarmacologia de Stahl: guia de prescrição. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 834 p.

Leituras sugeridas

Guaiana G, Barbui C, Hotopf M. Amitriptyline for depression. Cochrane Database Syst Rev 2007;(3): CD004186.

Hauser W, Petzke F, Uceyler N, Sommer C. Comparative efficacy and acceptability of amitriptyline, duloxetine and milnacipran in fi bromyalgia syndrome: a systematic review with meta-analysis. Rheumatology (Oxford) 2011;50(3):532––43.

Torrente Castells E, Vazquez Delgado E, Gay Escoda C. Use of amitriptyline for the treatment of chronic tension-type headache. Review of the literature. Med Oral Patol Oral Cir Bucal 2008;13(9):E567–72.

*Revisão dos nomes comerciais e apresentações

Felipe Mainka

Autores

Stephen M. Stahl