Algoritmo
FIGURA 1 | Algoritmo para tratamento de intoxicação por álcool. // Avaliação diagnóstica | Critérios diagnósticos do DSM-5 para Intoxicação por álcool | Profilaxia e tratamento da Síndrome de Wernicke-Korsakoff.
FC, frequência cardíaca; FR, frequência respiratória; ECG, eletrocardiograma; EEG, eletroencefalograma; GGT, gamaglutamiltransferase; VCM, volume corpuscular médio; ICC, insuficiência cardíaca congestiva; TB, tuberculose; HIV, vírus da imunodeficiência humana; RM, ressonância magnética, TCE, traumatismo cranioencefálico; TBC, tuberculose; DPOC, doença pulmonar obstrutiva crônica, IM, intramuscular; IV, intravenoso; SAA, síndrome de abstinência alcoólica; UTI, unidade de terapia intensiva; DSM-5, Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais.
Introdução
A principal característica da intoxicação por álcool é a presença de alterações comportamentais e psicológicas transitórias, porém clinicamente significativas e problemáticas, decorrentes do consumo recente da substância. Isso ocorre como resultado do efeito do álcool no organismo, que, entre outras alterações, afeta as regiões do cérebro responsáveis pela memória, coordenação motora e processamento emocional. De acordo com o National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA), a intoxicação ocorre quando a concentração de álcool no sangue atinge 0,8% ou mais. Entretanto, pode variar de acordo com o grau de tolerância, idade e gênero, entre outros fatores. O beber em binge, caracterizado pelo consumo de cinco ou mais doses de álcool pelos homens e quatro ou mais doses pelas mulheres em um período médio de duas horas, está comumente associado a quadros de intoxicação alcoólica.1-3
Epidemiologia
O álcool está entre as substâncias mais consumidas no mundo.4 No Brasil, conforme estimativas do Segundo Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, cerca de 50% da população consumiu álcool nos últimos 12 meses, e, destes, 53% o fizeram pelo menos uma vez na semana e 37% beberam mais de cinco doses em um dia regular de consumo. Ainda segundo esse levantamento, 59% da população não abstinente bebeu em binge em algum momento nos últimos 12 meses. O levantamento também ressaltou a precocidade da primeira intoxicação, que em 59% dos casos ocorre antes dos 17 anos.5
Fatores de risco3,6,7
- Características de personalidade: baixos índices de realização e socialização, altos índices de extroversão e neuroticismo, impulsividade acentuada, busca por novidades.
- Existência de sintomas disfóricos (angústia, ansiedade, tristeza, etc.): a teoria da automedicação propõe que o uso de substâncias pode ser uma tentativa de aliviar estados afetivos indesejáveis.
- Fatores ambientais, incluindo:
- Ambientes permissivos e onde há consumo intenso.
- Uso pelos pares.
- Beber em binge.
- Considerando o mesmo volume de álcool, o risco de intoxicação varia de acordo com:
- Tolerância: quanto maior, menor o risco de intoxicação. A ausência de sintomas apesar de alcoolemia elevada pode sugerir dependência de álcool ou uso concomitante com outras substâncias, como estimulantes.
- Peso: quanto menor, maior a alcoolemia.
- Gênero: as mulheres podem se intoxicar com doses menores em comparação com os homens.
- Idade: os idosos têm redução na tolerância ao álcool, podendo se intoxicar com doses menores do que aquelas com as quais estavam habituados.
- Velocidade de consumo: quanto mais rápido o aumento da alcoolemia, maior a chance de intoxicação.
- Presença de alimento no estômago: reduz a absorção de álcool e, consequentemente, a alcoolemia.
Diagnóstico3,8
Critérios diagnósticos do DSM-5 – Intoxicação por álcool.
- Alterações comportamentais ou psicológicas clinicamente significativas e problemáticas, transitórias, com início durante ou logo após o consumo de álcool.
- No início da intoxicação, quando os níveis de álcool no sangue estão subindo, ocorrem sintomas como aumento da loquacidade, sensação de bem-estar e humor alegre e expansivo.
- Posteriormente, quando os níveis de álcool no sangue seguem aumentando, observam-se lentificação, retraimento e prejuízos cognitivos.
- Os principais sinais clínicos são:
- Neurológicos: fala arrastada, incoordenação motora, instabilidade na marcha, nistagmo, prejuízo no controle inibitório, lentificação na velocidade de resposta, evoluindo até estupor ou coma.
- Cognitivos: prejuízo na atenção e na memória.
- Emocionais e comportamentais: humor instável, conduta sexual de risco, agressividade, julgamento prejudicado.
Prognóstico
- Risco aumentado para acidentes de trânsito, exposição a agressão física e sexual, quedas e afogamentos.
- Risco de suicídio.
- Amnésia alcoólica.
- Níveis elevados de álcool no sangue (p. ex., excedendo 300-400 mg/dL) podem causar depressão respiratória e cardíaca, e em indivíduos que não desenvolveram tolerância, podem levar a morte.
- Intoxicações frequentes podem evoluir para dependência.1,9
Diagnóstico diferencial
- Intoxicação por sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos ou outras substâncias sedativas.3
- Outras condições médicas (p. ex., acidose diabética) e neurológicas (p. ex., ataxia cerebelar, esclerose múltipla) com apresentação clínica semelhante.3
Comorbidades
- Transtorno por uso de álcool.
- Transtornos de humor e de ansiedade (depressão e transtorno bipolar).
- Tentativa de suicídio.
- Transtornos de personalidade (cluster B).
- Transtorno por uso de substâncias – intoxicação por outras substâncias, como cocaína, metilenodioximetanfetamina (MDMA), tabaco, maconha, entre outras.
- Lesões decorrentes de acidentes de trânsito, trauma, quedas e agressão.
- Cirurgia bariátrica.
Tratamento
- Para casos leves, não há necessidade de abordagens específicas além de manter a pessoa em ambiente tranquilo e seguro. Em caso de depressão respiratória, oferecer suporte clínico adequado.8,10,11
Medidas gerais
- Manter a pessoa em decúbito lateral para evitar aspiração de vômito.
- Monitorar sinais vitais (frequência cardíaca, frequência respiratória e temperatura).
- Monitorar saturação.
- Monitorar surgimento de sintomas da síndrome de abstinência alcoólica (SAA).
- Avaliar nível de consciência.
- Avaliar ocorrência de trauma durante a intoxicação.
- Avaliar risco de desequilíbrio hídrico.
- Avaliar risco de desequilíbrio eletrolítico.
- Observar risco de queda.
Medidas clínicas e farmacológicas
- Correção de alterações eletrolíticas (Mg, Na, K).
- Reposição de tiamina.
- Prescrever pelo menos 100 mg, 3x/dia, IM ou IV e seguir protocolo de profilaxia e tratamento da Síndrome de Wernicke-Korsakoff descrito em Síndrome de abstinência de álcool.
- Hipotermia: pior em jovens e idosos.
- Manutenção de ambiente aquecido.
- Hipoglicemia: pior em jovens e idosos.
- Administração de tiamina em soro fisiológico e, 30 minutos depois, soro glicosado hipertônico IV.
- Sintomas de SAA: ver manejo em Síndrome de abstinência de álcool.
- Para agitação grave:
- Monitoração mais frequente dos sinais vitais.
- Contenção mecânica.
- Administração de antipsicóticos típicos, como haloperidol, pela menor chance de interação com álcool.
- A prevenção da aspiração de conteúdo gástrico deve ser buscada com o posicionamento em decúbito lateral e a garantia da via aérea pérvia, assim como com a administração de antieméticos.
- Uso de antagonista benzodiazepínico:
- Flumazenil (0,2 mg, repetido, se necessário, a cada minuto até 3 mg): atentar para risco de aspiração e convulsão, realizando a administração em ambiente com suporte.
- Complicações:
- Aspiração após uso de flumazenil.
- Coma: encaminhar paciente para unidade de terapia intensiva (UTI) ou emergência para suporte ventilatório.
O que NÃO fazer
- Administrar glicose na ausência de hipoglicemia ou sem associação com tiamina (devido ao risco de precipitar encefalopatia de Wenicke).
- Usar medicações que diminuam o limiar convulsivo, como antipsicóticos típicos de baixa potência (p. ex., clorpromazina, levomepromazina).
- Usar medicações que possam agravar o risco de depressão respiratória, como benzodiazepínicos.
- Usar pidolato de piridoxina (metadoxil) para rápida metabolização do álcool, pois não há evidências suficientes justificando o seu uso.
Referências
- Jacob A, Wang P. Alcohol intoxication and cognition: implications on mechanisms and therapeutic strategies. Front Neurosci. 2020;14:102.
- Jacobus J, Tapert SF. Neurotoxic effects of alcohol in adolescence. Annu Rev Clin Psychol. 2013;9:703-21.
- American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5. 5th ed. Washington: APA; 2013.
- United Nations Office on Drugs and Crime. World Drug Report 2019. Vienna: United Nations; 2019.
- Laranjeira R, organizador. Segundo Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD): relatório 2012. São Paulo: INPAD; 2014.
- Natividade JC, Aguirre AR, Bizarro L, Hutz CS. Fatores de personalidade como preditores do consumo de álcool por estudantes universitários. Cad Saúde Pública. 2012;28(6):1091-1100.
- Khantzian EJ. The self-medication hypothesis of substance use disorders: a reconsideration and recent applications. Harv Rev Psychiatry. 1997;4(5):231-44.
- Niemelä O. Biomarker-Based Approaches for Assessing Alcohol Use Disorders. Int J Environ Res Public Health. 2016;13(2):166.
- Becker HC. Alcohol dependence, withdrawal, and relapse. Alcohol Res Health. 2008;31(4):348-61.
- Pianca TG, Sordi AO, Hartmann TC, von Diemen L. Identificação e manejo inicial de intoxicações por álcool e outras drogas na sala de emergência pediátrica. J Pediatr. 2017;93(Suppl 1):46-52.
- Caputo F, Agabio R, Vignoli T, Patussi V, Fanucchi T, Cimarosti P, et al. Diagnosis and treatment of acute alcohol intoxication and alcohol withdrawal syndrome: position paper of the Italian Society on Alcohol. Intern Emerg Med. 2019;14(1):143-60.
Autores
Patrícia de Saibro
Gustavo Cambraia do Canto
Nathália Janovik
Felipe Ornell
Helena Ferreira Moura