Síndrome de abstinência de álcool

Algoritmos

FIGURA 1A | Algoritmo para avaliação diagnóstica de paciente com síndrome de abstinência de álcool. // Avaliação diagnóstica   |   Critérios diagnósticos do DSM-5 para Abstinência de Álcool   |   Escala PAWSS   |   Escala CIWA-AR   |   Tratamento e profilaxia da síndrome de Wernick-Korsakoff.

FIGURA 2A | Tratamento da síndrome de abstinência de álcool: ambulatorial e de internação. //  Gráfico da gravidade dos sintomas de SAA em relação ao tempo desde a última vez que bebeu   |    Tratamento das complicações da SAA   |   Tratamento e profilaxia da síndrome de Wernick-Korsakoff.

Introdução

A síndrome de abstinência de álcool (SAA) é uma complicação aguda que coloca em risco a vida dos pacientes com transtorno por uso de álcool. Os sintomas podem iniciar dentro de algumas horas após a cessação ou redução significativa do uso de álcool, com pico entre 24 e 48 horas, e começam a diminuir em 60 a 72 horas. A SAA grave pode contribuir para a piora da morbimortalidade devido ao risco aumentado de ocorrência de pneumonia aspirativa, arritmia cardíaca e infarto do miocárdio.1

Epidemiologia

Aproximadamente 50% dos pacientes que sofrem de transtorno por uso de álcool (TUA) experimentam sintomas de abstinência após a descontinuação ou redução do consumo de álcool.

Estima-se que 20% dos pacientes experimentem manifestações mais avançadas, como alucinose, convulsões e delirium tremens.2

Diagnóstico

Avaliação diagnóstica

Ver Figura 1 em Algoritmos.

Critérios diagnósticos do DSM-5 – Abstinência de álcool.

  • Entrevista estruturada para dependência de álcool.
  • Etilometria (“bafômetro”): se a alcoolemia estiver elevada e o paciente já estiver manifestando sintomas de SAA, há maior risco de complicações. Nesses casos, o exame deve ser repetido em 30 minutos para verificar o sentido da alcoolemia; se ascendente, não medicar e repetir em 15 minutos. Deve-se medicar quando o sentido da alcoolemia passar a ser descendente e quando houver suporte para sedação em excesso (ventilação assistida e flumazenil). Em caso de piora, considerar transferência para unidade de terapia intensiva (UTI) (sedação com fenobarbital ou propofol).
  • Exames laboratoriais, de imagem e complementares.
  • Escala de avaliação de abstinência de álcool (CIWA-Ar):3 não é uma escala diagnóstica, e sim de classificação da gravidade dos sintomas da abstinência, que pode ser leve (< 8 pontos), moderada (8-15 pontos), grave (> 15 pontos) e complicada (> 15 pontos + delirium, alucinações ou convulsões).4 Auxilia no monitoramento dos sintomas e na alocação dos pacientes. Exige treinamento para sua aplicação e não deve ser usada nos quadros de delirium. A escala de agitação-sedação de Richmond e a escala de agitação-sedação de Riker são alternativas à CIWA-Ar que podem ser úteis para garantir um nível adequado de sedação durante o manejo da abstinência alcoólica aguda quando o paciente não tem condições de responder aos itens da escala.
  • Escala de predição da gravidade da abstinência de álcool (PAWSS):5 escala de triagem para prever o desenvolvimento de síndrome de abstinência grave. Dada a morbidade e mortalidade associadas à SAA, antecipar o risco de abstinência pode ajudar a acelerar o tratamento ou mesmo prevenir as complicações.
  • Sinais vitais: além dos sintomas de hiperatividade autonômica da SAA, deve-se observar depressão respiratória decorrente da farmacoterapia.3

Quadro clínico

  • SAA não complicada: os sinais e sintomas iniciam de 6 a 24 horas após a última dose ou redução no padrão habitual de consumo e atingem o pico entre 24 e 36 horas. Em geral, quadros leves são autolimitados e apresentam remissão com 5 a 7 dias. Há uma correlação positiva entre gravidade e duração do delirium tremens e pneumonia, doença coronariana, hepatopatia e anemia. Casos mais graves podem evoluir por 10 a 14 dias. Em idosos e hepatopatas, há risco maior de delirium, e o quadro pode ser mais prolongado. Nesses casos, é importante avaliar diagnóstico diferencial para outras causas de delirium, incluindo o próprio uso de benzodiazepínicos, visto que são metabolizados mais lentamente pelo organismo do idoso em dose/tempo mais prolongados.6

Para o diagnóstico, o Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais, 5a edição (DSM-5) requer, pelo menos, 2 dos sintomas apresentados na Tabela 1.

TABELA 1 | SINAIS E SINTOMAS DE ABSTINÊNCIA ALCOÓLICA

SINTOMAS AUTONÔMICOS

  • Taquicardia
  • Taquipneia
  • Pupilas dilatadas
  • Pressão arterial elevada
  • Temperatura elevada
  • Sudorese intensa
  • Náusea
  • Vômito
  • Diarreia

SINTOMAS MOTORES

  • Tremor de extremidades e língua
  • Tremor do corpo
  • Convulsões
  • Ataxia
  • Alteração da marcha
  • Hiper-reflexia
  • Disartria

ALTERAÇÃO DO ESTADO MENTAL

  • Insônia
  • Agitação
  • Irritabilidade
  • Desorientação
  • Delirium

SINTOMAS PSIQUIÁTRICOS

  • Ilusões
  • Delírio
  • Paranoia
  • Alucinações
  • Ansiedade
  • Instabilidade afetiva
  • Combatividade
  • Desinibição

Fonte: American Psychiatric Association.7

  • SAA complicada: complicações da síndrome de abstinência alcóolica (ver Figura 2 em Algoritmos).
    • Convulsão, alucinose, delirium tremens.
    • Síndrome de Wernicke-Korsakoff:8 é uma complicação comum decorrente da deficiência de vitamina B1 (tiamina). Trata-se de uma tríade clínica que consiste em estado mental alterado (i.e., confusão ou demência), nistagmo (ou oftalmoplegia) e ataxia. No entanto, menos de um terço dos pacientes apresentam a tríade completa. Abrange dois quadros clínicos distintos: a encefalopatia de Wernicke (EW, quadro agudo) e a síndrome de Korsakoff (SK, quadro crônico). A EW é caracterizada por um estado confusional agudo com características clínicas que geralmente são reversíveis. A SK é caracterizada por confabulação, perda de memória e anormalidades da marcha que costumam ser irreversíveis, e ocorrem se a EW não for tratada adequadamente (Ver Figura 2 em Algoritmos).

Prognóstico

  • Os sintomas são leves em 70 a 90% dos casos.3
  • Nos pacientes que apresentam complicações, a mortalidade varia entre 15 e 20% para os casos não tratados, contra 2% dos casos manejados adequadamente.9
  • Na síndrome de Wernicke-Korsakoff, a taxa de mortalidade é de 10 a 15% em casos graves.8

Diagnóstico diferencial

  • Intoxicação alcoólica.
  • Traumatismo cranioencefálico.
  • Hiponatremia.
  • Encefalopatia hepática.
  • Intoxicação (antidepressivos, lítio, anticolinérgicos).
  • Infecções (sepse, pneumonia, encefalite).
  • Tireotoxicose.

Tratamento

O tratamento visa ao alívio dos sintomas e à prevenção de complicações, como convulsões e delirium tremens (ver Figura 2 em Algoritmos).

  • Tratamento não farmacológico:
    • Monitoramento constante: sinais vitais, saturação de oxigênio, glicemia e aplicação de escalas (CIWA-Ar), ambiente tranquilo, com claridade, pouco estímulo e arejado, hidratação.
    • Auxílio para orientação no tempo e espaço (calendário, relógio).
    • Estabilização de complicações clínicas.
    • Manejo de outras intoxicações concomitantes.
    • Dieta branda e suplementação nutricional.3
  • Tratamento farmacológico (ver Figura 2 em Algoritmos):
    • Benzodiazepínicos (BZDs): são considerados os medicamentos mais eficazes para o tratamento da abstinência do álcool. As evidências sugerem que os BZDs de ação prolongada (como o diazepam) são mais eficazes do que os de ação curta na prevenção de convulsões e delírio e permitem uma retirada mais suave com menos rebote. Eles também estão menos sujeitos a um potencial uso indevido. No entanto, há risco de acúmulo em idosos e naqueles com insuficiência hepática significativa nos quais os BZDs de ação curta podem ser usados (lorazepam). A prevenção está indicada em pacientes com risco elevado para SAA. A avaliação de risco para SAA é feita pela escala PAWSS. Nesses casos, o uso de BZDs e/ou fenobarbital pode ser feito antes de os sintomas se iniciarem. O protocolo para BZDs pode se basear em uma dose fixa ou no surgimento de sintomas, conforme exemplificado na Tabela 2.

TABELA 2 | MEDICAMENTOS E DOSES INDICADAS PARA MANEJO DA SAA DE ACORDO COM CRITERIOS DE INTENSIDADE DE SINTOMAS

MEDICAMENTO

ESQUEMA

DOSAGEM

Diazepam

Dose fixa típica

SAA leve (CIWA-Ar < 10): 10-20 mg VO

SAA moderada (CIWA-Ar < 10-18): 20-40 mg VO

SAA grave (CIWA-Ar > 19): 30-40 mg VO

Dose por sintomas

10-40 mg VO a cada 4-6 h quando CIWA-Ar > 10. Doses adicionais se necessário

Dose fixa

Iniciar com a dose típica e reduzir 25-50% ao longo de 3-5 dias

Dose de ataque

Dose por sintoma: 20-40 mg de 1/1 h até CIWA-Ar < 10

Dose fixa: 20-40 mg VO a cada 1-2 h até 3 doses

Carbamazepina

Monoterapia

600-800 mg VO

Adjuvante

600-800 mg VO

Gabapentina

Monoterapia

Dose inicial de 1.200 mg + 600 mg a cada 6/6 h no 1º dia ou por 1-3 dias, reduzindo 300-600 mg/dia por 4-7 dias. Doses adicionais se necessário

Adjuvante

400 mg a cada 6/6 ou 8/8 h

Valproato de sódio

Monoterapia

1.000-1.500 mg/dia, reduzindo 500 mg/dia por 4-7 dias

Adjuvante

250-500 mg a cada 6/6 ou 8/8 h

VO, via oral.
Fonte: Wong e colaboradores.3

  • A alocação do paciente, a periodicidade das reavaliações e os medicamentos devem ser individualizados. Os critérios de alocação segundo a American Society of Addiction Medicine (ASAM) estão descritos na Tabela 3.

TABELA 3 | ALOCAÇÃO DE PACIENTES PARA TRATAMENTO DA SAA


CRITÉRIOS CLÍNICOS

CRITÉRIOS SOCIAIS

Hospitalar

SAA moderada (CIWA-Ar = 8-14) ou grave (CIWA-Ar ≥ 15)


Risco elevado para complicações de SAA (PAWSS ≥4)


Complicações clínicas e psiquiátricas


Necessidade de medicação IM ou IV


Risco de suicídio


Gestação

Pouco suporte social


Ambiente de risco


Dificuldade de acesso às visitas ambulatoriais


Dificuldade de acesso a serviços de emergência

Hospital-dia

SAA leve/moderada (CIWA-Ar < 15)


Sintomas psiquiátricos leves ou estabilizados


SAA grave, mas sem complicações clínicas ou psiquiátricas

Pouco suporte social


Facilidade de acesso ao hospital-dia


Facilidade de acesso à emergência

Ambulatorial

SAA leve

Sem fatores de risco

Sem risco para SAA complicada

Bom suporte social

Ambiente seguro

IM, intramuscular; IV, intravenoso.
Fonte: American Society of Addiction Medicine.10

  • Tiamina: usada para prevenção e tratamento de síndrome de Wernicke-Korsakoff. A via de administração e a dose variam com a gravidade, conforme mostra a Figura 2 em Algoritmos.3,11
  • Agonistas alfa-2-adrenérgicos: adjuntos aos BZDs para hiperatividade autonômica e ansiedade. Não devem ser usados isoladamente.
  • Betabloqueadores: adjuntos aos BZDs para hipertensão ou taquicardia persistentes. Não devem ser usados isoladamente.3
  • Fósforo: a reposição deve ser feita se < 1 mg/dL. Níveis entre 1 e 2 mg/dL podem ser corrigidos com a dieta.3)
  • Magnésio: usar em caso de hipomagnesemia, distúrbio hidreletrolítico, arritmia cardíaca ou história prévia de convulsão por SAA.3

O que NÃO fazer na SAA

  • Glicose: deve ser evitada na ausência de hipoglicemia, pois pode precipitar encefalopatia de Wernicke se não for administrada associada à tiamina. Caso seja essencial, não é necessário que a vitamina seja administrada antes.3
  • Medicações que diminuam o limiar convulsivo: antipsicóticos de baixa potência, como levomepromazina e clorpromazina, entre outros.3
  • Baclofeno: as evidências para SAA são insuficientes.3
  • Álcool VO ou IV.3

Referências

  1. McKeon A, Frye MA, Delanty N. The alcohol withdrawal syndrome. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 2008;79(8):854-62.
  2. World Health Organization. Global status report on alcohol and health 2018 [Internet]. Geneva: WHO; 2018 [capturado em 22 set 2020]. Disponível em: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/274603/9789241565639-eng.pdf?ua=1.
  3. Wong J, Saver B, Scanlan JM, Gianutsos LP, Bhakta Y, Walsh J, et al. The ASAM Clinical Practice Guideline on Alcohol Withdrawal Management. J Addict Med. 2020;14(3S Suppl 1):1-72.
  4. Kosten TR, O'Connor PG. Management of drug and alcohol withdrawal. N Engl J Med. 2003;348(18):1786-95.
  5. Maldonado JR, Sher Y, Das S, Hills-Evans K, Frenklach A, Lolak S, et al. Prospective Validation Study of the Prediction of Alcohol Withdrawal Severity Scale (PAWSS) in Medically Ill Inpatients: a New Scale for the Prediction of Complicated Alcohol Withdrawal Syndrome. Alcohol Alcohol. 2015;50(5):509-18.
  6. Wojnar M, Wasilewski D, Zmigrodzka I, Grobel I. Age-related differences in the course of alcohol withdrawal in hospitalized patients. Alcohol Alcohol. 2001;36(6)577-83.
  7. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5. 5th ed. Washington: APA; 2013.
  8. Akhouri S, Kuhn J, Newton EJ. Wernicke-Korsakoff Syndrome. Treasure Island: StatPearls; 2017.
  9. Maldonado JR. Novel Algorithms for the Prophylaxis and Management of Alcohol Withdrawal Syndromes-Beyond Benzodiazepines. Crit Care Clin. 2017;33(3):559-99.
  10. American Society of Addiction Medicine. The ASAM Criteria [Internet]. Rockville: ASAM; c2020 [capturado em 2 set 2020]. Disponível em: https://www.asam.org/asam-criteria.
  11. Scalzo SJ, Bowden SC, Ambrose ML, Whelan G, Cook MJ. Wernicke-Korsakoff syndrome not related to alcohol use: a systematic review. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 2015;86(12):1362-8.

Autores

Patrícia de Saibro
Gustavo Cambraia do Canto
Nathália Janovik
Felipe Ornell
Helena Ferreira Moura