Disgrafia (Transtorno específico da aprendizagem)

Disgrafia (Transtorno específico da aprendizagem)

O que é?

Conforme Ciasca,1

[...] a escrita é um processo físico que envolve aspectos funcionais e organizacionais; também podemos considerá-la como a conversão de pensamentos e informações em símbolos gráficos e sequenciais. Assim, a escrita representa não somente a última e mais complexa habilidade adquirida durante o processo de desenvolvimento, mas também é a mais vulnerável a danos, perdas e influências genéticas adversas.

O desenvolvimento da escrita inicia com rabiscos e torna-se gradativamente mais intencional ao longo dos anos, seguindo uma ordem predeterminada que começa com imitação e segue com a execução de pontilhados, cópia de círculos, desenho de objetos, desenho de contornos, interesse por letras, escrita e escrita elaborada propriamente dita.2

Ao redor dos 2 anos de idade, a criança imita as linhas verticais de formas geométricas, depois as linhas horizontais (aos 2,5 anos) e os círculos (por volta dos 3 anos de idade). Com 4 anos, as crianças copiam uma cruz, quadrados (aos 5) e triângulos (aos 5,5 anos).3

Durante o ensino fundamental, a escrita se desenvolve rapidamente no segundo ano e estabiliza-se no terceiro, para atingir um novo nível no quarto ano, quando se torna automática e organizada, bem como uma ferramenta disponível para o desenvolvimento de ideias.4 O mesmo ocorre com sua velocidade, que aumenta de maneira linear ao longo desses anos, com maior incremento no ensino médio.5

Denomina-se disgrafia a incapacidade­ de produzir uma escrita culturalmente aceitável quando o indivíduo apresenta nível intelectual adequado, recebeu a devida instrução e foi submetido ao mesmo processo de prática da escrita que seus pares no decorrer de sua formação acadêmica.

As atividades de escrita constituem importante parcela do período que a criança passa na escola e podem prejudicar o desempenho acadêmico de maneira global. Letra ilegível ou escrita muito lenta podem criar um obstáculo importante para a aquisição de habilidades mais complexas, como redação, por exemplo.7

A classificação clássica proposta por Dueul8 auxilia na identificação dos sinais neuropsicológicos subjacentes ao déficit e provê importantes diretrizes para o tratamento e o prognóstico:

  • Disgrafia disléxica: consiste na dificuldade em construir adequadamente a palavra; a escrita espontânea é ilegível, e a soletração é pobre, mas o desenho e a cópia são relativamente normais.
  • Disgrafia motora: escrita espontânea e cópia são ilegíveis, mas a oralidade é normal e o desenho é pobre. Normalmente, esse tipo de disgrafia está associado a problemas puramente motores.
  • Disgrafia visuoespacial: a disgrafia está associada à distribuição do espaço gráfico; o desenho é ruim, e a escrita pode ser ilegível, assim como a cópia.

A falha em adquirir competências em escrita durante a escolarização gera efeitos negativos de longo prazo tanto no sucesso acadêmico como na autoimagem.

Caso clínico

Confira o caso clínico de um menino de 9 anos com problemas de comportamento na escola, dispersão, desorganização em suas atividades e indisciplina, sendo que em casa, mostra comportamento opositor.

Confira também informações gerais sobre Transtorno específico da aprendizagem.

Referências

Este conteúdo foi originalmente publicado em: Assumpção Jr FB (Org.). Psiquiatria da Infância e da Adolescência: Casos Clínicos. Porto Alegre: Artmed; 2014.

  1. Ciasca SM. Disgrafia, transtorno específico da escrita: considerações gerais. In: Montiel JM, Capovilla FC, organizadores. Atualização em transtornos de aprendizagem. São Paulo: Artes Médicas; 2009. p. 183-90.
  2. Gesell A. Diagnostico del desarrollo normal y anormal del niño: evaluación y manejo del desarrollo neuropsicológico normal y anormal del niño pequeño y el preescolar. Barcelona: Paidós; 1981.
  3. Beery KE, Buktenica NA. Developmental test of visual- motor integration. 3rd ed. rev. Los Angeles: Western Psychological Services; 1989.
  4. Karlsdottir R, Stefansson T. Problems in developing functional handwriting. Percept Mot Skills. 2002;94(2):623-62.
  5. Feder KP, Majnemer A. A review handwriting development, competency, and intervention. Dev Med Child Neurol. 2007;49(4):312-7.
  6. American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-IV-TR. 4. ed. rev. Porto Alegre: Artmed; 2002.
  7. Mather N, Roberts R. Informal assessment and instruction in written language: a practitioner’s guide for students with learning disabilities. Brandon: Clinical Psychology; 1995.
  8. Deuel RK. Developmental dysgraphia and motor skill disorders. J Child Neurol. 1995;10 Suppl 1:S6-8.

Autores

Francisco B. Assumpção Jr.
Alessandra Freitas Russo
Carolina Rabello Padovani
Cristina Maria Pozzi
Evelyn Kuczynski
Marília Penna Bernal
Melanie Mendoza
Milena de Oliveira Rossetti