Psicoterapia no transtorno do jogo

Psicoterapia no transtorno do jogo

Tipos de prática de jogos de azar

As pessoas que praticam jogos de azar podem ser classificadas em três categorias:

  • Jogador social, aquele que joga ocasional ou frequentemente, porém sem sofrer consequências adversas.
  • Jogador-problema, que joga com frequência e que de vez em quando pode experimentar perda de controle e prejuízos psicossociais, entretanto não a ponto de preencher os critérios diagnósticos para transtorno do jogo.
  • Indivíduo com transtorno do jogo, que joga regularmente com consequente perda de controle na maioria das vezes.

Como resultado dessa atividade, estão presentes sofrimento subjetivo e prejuízos relevantes nos âmbitos psicossocial (nesse grupo, são comuns episódios de ideação suicida eventual ou recorrente); das relações interpessoais, incluindo familiares, amigos e parceiros de trabalho; e social, o que resulta em desemprego e endividamento.1

Prevalência

Dados iniciais sobre a prevalência do transtorno do jogo no Brasil indicam que 12% da população realiza apostas regularmente (1 vez por mês), além de mostrarem que 1% da população preenche critérios para o transtorno e 1,3% para jogo-problema.

O comportamento é mais frequente entre homens do que entre mulheres, em uma proporção aproximada de 2 para 1 para o jogo-problema e de 4 para 1 para transtorno do jogo.

Verifica-se também que o risco de envolvimento problemático com transtorno do jogo está associado a desemprego, baixo status socioeconômico, minorias étnicas e religiosas e menos acesso à educação, todos indicadores de dificuldade de inserção social.2

Entre os comportamentos de abuso e dependência mais prevalentes, o transtorno do jogo é o terceiro mais comum depois do tabaco e do álcool.

Avaliação do paciente

É importante verificar o que motivou a busca pelo tratamento, já que, com frequência, o paciente é externamente pressionado por ameaça de um familiar, empregador, amigo ou, ainda, o que é mais complicado, por ordem judicial. Independentemente do motivo, ele deve ser a prioridade, bem como o foco nas apostas no início do tratamento.

Cerca de três quartos dos indivíduos que buscam tratamento para transtorno do jogo apresentam um ou mais quadros comórbidos que necessitam de intervenção inclusive farmacológica, sendo os mais comuns: tabagismo, abuso e dependência de álcool, depressão e transtornos de ansiedade.3

Uma preocupação adicional frequente em indivíduos com transtorno do jogo são os transtornos da personalidade, que representam um desafio adicional na adesão ao tratamento e na construção do vínculo terapêutico.

Fatores como risco de suicídio e comprometimento funcional devem ser avaliados no primeiro contato e monitorados ao longo do tratamento, para que a intensidade da intervenção seja ajustada à gravidade do quadro.

Sugere-se realizar uma avaliação neuropsicológica específica do paciente quando houver suspeita de dificuldade de planejamento e organização ao longo da vida, com prejuízo acadêmico ou profissional, mesmo antes do envolvimento com jogo. Essa avaliação serve para excluir ou confirmar disfunções executivas, principalmente do transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH), já que elas podem anteceder quadros de dependências e, em geral, são fatores de risco para essas condições.4

O transtorno do jogo é um comportamento aditivo com comorbidade alta com dependência de álcool e tabagismo. Uma característica comum compartilhada por essas condições é a impulsividade.

Estudos epidemiológicos realizados apontam para relações entre os transtornos. Os dados sobre indivíduos que procuram tratamento corroboram os altos índices de comorbidade entre transtorno do jogo e transtornos por uso de substâncias.

No Programa Ambulatorial do Jogo Patológico (PRO-AMJO) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), especializado no tratamento de transtorno do jogo, 24% dos pacientes que procuraram tratamento tinham diagnóstico atual de dependência de substâncias, enquanto, na Espanha, 35% apresentavam história de transtorno por uso de álcool e 23% relatavam transtorno atual por uso de álcool.5,6

A falta ou a privação de sono, agravadas pelo uso de substâncias durante os episódios de jogo, são responsáveis por inúmeros prejuízos à saúde, deixando o jogador mais impulsivo e desatento.

Ao pensar em abuso ou dependência de substâncias, geralmente a relação é feita com álcool e drogas ilícitas, mas a nicotina também pode representar um fator de risco importante para os indivíduos com transtorno do jogo.

Considerando o dado importante de que três quartos dos indivíduos com transtorno do jogo são dependentes atuais de nicotina e de que, ao longo da vida, 90% dos jogadores são ou foram fumantes diários, jogadores tabagistas acabam tendo maior risco de apresentar depressão, transtornos de ansiedade e outras psicopatologias do que jogadores não fumantes.

Como o abuso de álcool é particularmente frequente nos jogadores homens (em torno de 25%), não é incomum que dependentes de álcool abstinentes transitem para uma nova compulsão, como o transtorno do jogo, e vice-versa.

Um indivíduo com transtorno do jogo em recuperação deve considerar com cuidado a questão do álcool, e, caso apresente dupla dependência de jogo e álcool, a abstinência de ambos é o caminho mais seguro.

Já as mulheres que jogam, por sua vez, tendem a abusar de tranquilizantes e medicamentos para dormir.

Aqui, é importante lembrar que quem apresenta uma dependência tem maior facilidade para adquirir outra.2

Entre os fatores de risco que têm sido simultaneamente associados a problemas de jogo, verifica-se que cerca de três quartos dos indivíduos com transtorno do jogo apresentam comorbidades psiquiátricas com depressão e transtornos de ansiedade. Elas podem ser tanto consequência como causa da perda de controle, variando de acordo com o caso.7

Tratamento

Para obter bons resultados no tratamento do transtorno do jogo, é necessário ter em mente alguns objetivos: a supressão do comportamento de jogo problemático, a promoção da saúde geral (mental e física), o reparo dos problemas causados pelo jogo e a promoção de qualidade de vida.

O tratamento de indivíduos com dependência química ou comportamental é um desafio e inclui diversas técnicas, como psicoeducação, acompanhamento médico clínico e psiquiátrico, e diferentes abordagens psicoterápicas.2

No início do tratamento, utilizam-se psicoeducação do paciente e familiares, intervenções motivacionais, e, em alguns casos, podem ser utilizados medicamentos para reduzir a fissura.

Há evidências na literatura especializada da eficácia da naltrexona, um bloqueador de receptores mi-opioide utilizado no tratamento da dependência de álcool e de dependências comportamentais, como jogo de azar, sexo e compras, condições comumente associadas entre si.9

Para o tratamento da dependência de álcool, a dose recomendada é de 50 mg/dia.

No tratamento do transtorno do jogo, são recomendadas doses médias mais altas (dose única administrada de manhã ou à noite), de 100 a 150 mg/dia, até o máximo de 200 mg/dia.

Verifica-se que o intervalo para efeitos da naltrexona é em torno de 6 a 8 semanas, maior do que as habituais 2 a 4 semanas para antidepressivos e outros psicofármacos.

Talvez, por isso, sejam tão comuns os casos de abandono da prescrição pelos médicos, que muitas vezes ignoram a necessidade de uso de doses específicas e períodos prolongados de observação.

Na administração de doses diárias acima de 100 mg, é necessário o monitoramento das enzimas hepáticas do paciente, que podem sofrer elevação. Também é recomendável evitar a coadministração regular de anti-inflamatórios não hormonais (inclusive ácido acetilsalicílico, ibuprofeno e paracetamol), devido ao risco de sobrecarga hepática. Se o uso for imprescindível, é recomendado o monitoramento das enzimas hepáticas.

Mais recentemente, o nalmefeno, também antagonista dos receptores opioides, foi aprovado para uso na Europa para a redução do consumo excessivo de álcool, também com evidências para tratamento de transtorno do jogo. Existem outros fármacos em fase de estudo, como é o caso do topiramato, em investigações já avançadas para o tratamento do alcoolismo e mais discretas para o transtorno do jogo.

Pesquisas preliminares apontam que a prática de exercício aeróbico pode reduzir a “fissura” por jogo, podendo ser associada à farmacoterapia ou indicada isoladamente nos casos em que o medicamento não for bem tolerado.8

Quando atingida a estabilização parcial do quadro clínico, o foco terapêutico passa a ser o tratamento dos fenômenos que contribuem para o jogar sem controle.

Tratamento psicoterápico

As técnicas mais utilizadas são a terapia psicodinâmica, a entrevista motivacional (EM) e a terapia cognitivo-comportamental (TCC).

O tratamento psicoterápico do transtorno do jogo inclui a combinação de uma abordagem motivacional inicial (EM) e estratégias cognitivo-comportamentais.

Essas estratégias têm exibido tamanho de efeito moderado a alto em comparação a controles não tratados.

A proposta de tratamento para o transtorno do jogo deve ser flexível, beneficiar sinergias entre os aspectos comportamentais e cognitivos, além de melhorar a adesão ao tratamento.9

Vale ressaltar que tanto a TCC em grupo como a individual parecem eficazes em diminuir o comportamento de jogar.10

O programa apresentado foi estruturado para ser uma intervenção acolhedora, porém breve, com duração em torno de 12 a 15 sessões que se dividem basicamente em:

  • Intervenção motivacional inicial para redução da ambivalência (prós e contras de jogar).
  • Realização de psicoeducação em relação a transtorno do jogo e modelo cognitivo-comportamental.
  • Trabalho de identificação e controle de variáveis ambientais envolvidas no comportamento-alvo.
  • Reestruturação cognitiva (lidando com pensamentos racionais e irracionais).
  • Abordagem de comorbidades psiquiátricas envolvidas (depressão e ansiedade, álcool e tabaco, personalidade e impulsividade).
  • Uso de técnica de solução de problemas para lidar com o coping (enfrentamento afetivo).
  • Prevenção de recaída.
  • Investimento em estratégias de qualidade de vida.

Conheça mais sobre cada uma dessas terapias por meio dos links a seguir:

Referências

Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.

  1. Shaffer HJ, Kidman R. Shifting perspectives on gambling and addiction. J Gambl Stud. 2003;19(1):1-6.
  2. Tavares H, Carneiro E, Sanches S, Pinsky, Caetano R, Zaleski M, et al. Gambling in Brazil: Lifetime prevalences and socio-demographic correlates. Psychiatry Res. 2010;180(1):35-41.
  3. Petry NM, Stinson FS, Grant BF. Comorbidity of -DSM-IV pathological gambling and other psychiatric disorders: results from the National Epidemiologic Survey on Alcohol and Related Conditions. J Clin Psychiatry. 2005;66(5):564-74.
  4. Chamberlain SR, Derbyshire K, Leppink E, Grant JE. Impact of ADHD symptoms on clinical and cognitive aspects of problem gambling. Compr Psychiatry. 2015;57:51-7.
  5. Tavares H, Martins SS, Lobo DS, Silveira CM, Gentil V, Hodgins DC. Factors at play in faster progression for female pathological gamblers: an exploratory analysis. J Clin Psychiatry. 2003;64(4):433-8.
  6. Weinstock J, Ledgerwood DM, Modesto-Lowe V, Petry NM. Ludomania: avaliação transcultural do jogo de azar e seu tratamento. Rev Bras Psiquiatr. 2008;30(1):S3-10.
  7. Shead NW, Derevensky JL, Gupta R. Risk and protective factors associated with youth problem gambling. Int J Adolesc Med Health. 2010;22(1):39-58.
  8. Angelo DL, Tavares H, Zilberman ML. Evaluation of a physical activity program for pathological gamblers in treatment. J Gambl Stud. 2013;29(3):589-99.
  9. Cowlishaw S, Merkouris S, Dowling N, Anderson C, Jackson A, Thomas S. Psychological therapies for pathological and problem gambling. Cochrane Database Syst Rev. 2012;11.
  10. Hodgins DC, Peden N. Tratamento cognitivo-comportamental para transtornos do controle do impulso. Rev Bras Psiquiatr. 2008;30(1):S31-40.

Autores

Mirella Martins de Castro Mariani
Hermano Tavares