Psicoterapia no transtorno do jogo: Entrevista motivacional

Psicoterapia no transtorno do jogo: Entrevista motivacional

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Introdução

No início do tratamento, a orientação para o paciente e sua família deve conter aspectos sobre a natureza do transtorno e seu tratamento.

Recomenda-se que sejam realizadas intervenções motivacionais, nas quais é estimulada a mudança do comportamento, procurando-se explorar e resolver a ambivalência.

Em 4 sessões, são abordados temas como estágios de mudança, motivação, ambivalência e valores, discrepância e o planejamento de estratégias de enfrentamento, em um modelo de terapia centrada no paciente.

Medidas de controle externo

Com o estabelecimento de um contrato terapêutico mais sólido, durante as sessões, é importante sugerir ao paciente medidas de controle externo. Por exemplo, ele deve deixar em casa, ou sob cuidado de um familiar ou pessoa de confiança, cartões do banco e talões de cheque, a fim de que, dessa maneira, fique restrito no acesso ao crédito e utilize um valor monetário semanal fixo combinado entre as partes.

Evitar companhias e lugares relacionados ao jogo e ocupar-se no tempo livre são atitudes fundamentais, e cabe ao terapeuta traçar com o paciente novas estratégias para aumento de repertório hedônico.

Orientações para os familiares

Para os familiares, estratégias de orientação e apoio também são úteis.

Os objetivos principais devem concentrar-se no estabelecimento e na manutenção de uma relação positiva com o paciente, de modo a motivá-lo a começar o tratamento.

Além disso, deve-se orientá-los para que evitem comportamentos que promovam a manutenção do jogo.

Como funciona a entrevista motivacional

A entrevista motivacional (EM) visa ajudar o paciente a encontrar os próprios motivos para mudar, evitando julgá-lo, confrontá-lo ou doutriná-lo.

Assim, logo nas sessões iniciais, o paciente é convidado a avaliar sua qualidade e seu estilo de vida, além de entender sua relação com o transtorno do jogo e estabelecer seus objetivos para o tratamento.

Um estudo recente, que combinou EM com apostila baseada em terapia cognitivo-comportamental (TCC) e sessões de reforço ao telefone, verificou resultados significativamente positivos (moderação e cessação do jogo) para a maioria dos participantes com problemas graves de transtorno do jogo.1

Logo, realizar uma avaliação inicial da motivação e dos estágios para a mudança permite direcionar o tratamento e contribui com o planejamento de estratégias terapêuticas.

Com o foco determinado, a próxima etapa é a avalição da ambivalência, momento no qual são examinados os prós e os contras de jogar e da abstinência.

O jogador é convidado a avaliar as consequências positivas e negativas da continuidade do jogo e da descontinuação do jogo.

Por fim, o paciente é instruído a classificar essas consequências em efeitos de curto e longo prazos, eliminando as de curto prazo.

O objetivo desse exercício é permitir que o paciente conclua, por si mesmo, que os benefícios de jogar se manifestam somente no curto prazo e que, em prazos mais estendidos, os benefícios de não jogar se sobressaem.

Referências

Conteúdo publicado originalmente em: CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 800 p.

  1. Abbott M, Bellringer M, Vandal AC, Hodgins DC, Battersby M, Rodda SN. Effectiveness of problem gambling interventions in a service setting: protocol for a pragmatic randomised controlled clinical trial. BMJ Open 2017;7(3):e013490.

Autores

Mirella Martins de Castro Mariani
Hermano Tavares