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Terapêutica
Nomes comerciais:
- Referência: Socian® (Sanofi)
- Similar: não disponível
- Genérico: não disponível
Apresentações:
- Comprimido de 25 mg – Embalagem com:
- 20 cp: Socian®
Nota: Informações sobre nomes comerciais e apresentações atualizadas em abril de 2021.*
Classe
- Nomenclatura baseada na neurociência: antagonista do receptor de dopamina (ARD)
- Antipsicótico atípico (benzamida; possivelmente um estabilizador de dopamina e agonista dopaminérgico parcial)
Comumente prescrita para
(em negrito, as aprovações da FDA)
- Esquizofrenia, aguda e crônica (fora dos Estados Unidos, especialmente Europa)
- Distimia
Principais sintomas-alvo
- Sintomas positivos de psicose
- Sintomas negativos de psicose
- Sintomas depressivos
Como a substância atua
- Teoricamente, bloqueia receptores pré-sinápticos da dopamina 2 em doses baixas
- Teoricamente, bloqueia receptores pós-sinápticos da dopamina 2 em doses mais elevadas
- Pode ser um agonista parcial nos receptores dopaminérgicos 2, o que, teoricamente, reduz a produção de dopamina quando as concentrações são altas e aumenta a produção quando tais concentrações são baixas
- Bloqueia os receptores dopaminérgicos 3, o que pode contribuir para suas ações clínicas
- Diferentemente de outros antipsicóticos atípicos, a amissulprida não tem ações potentes nos receptores de serotonina 2A ou serotonina 1A
- Tem ações antagonistas nos receptores de serotonina 7 e receptores de serotonina 2B, o que pode contribuir para os efeitos antidepressivos
Tempo para início da ação
- Os sintomas psicóticos podem melhorar dentro de 1 semana, mas pode levar várias semanas para efeito completo no comportamento, bem como na cognição e na estabilização afetiva
- Classicamente recomendado esperar pelo menos 4 a 6 semanas para determinar a eficácia da substância, mas, na prática, alguns pacientes requerem até 16 a 20 semanas para apresentar uma boa resposta, especialmente nos sintomas cognitivos
Se funcionar
- Mais frequentemente reduz os sintomas positivos na esquizofrenia, mas não os elimina
- Pode melhorar os sintomas negativos, além de sintomas agressivos, cognitivos e afetivos na esquizofrenia
- A maioria dos pacientes esquizofrênicos não tem uma remissão total dos sintomas, mas os reduz em cerca de um terço
- Talvez de 5 a 15% dos pacientes esquizofrênicos possam experimentar uma melhora global de mais de 50 a 60%, especialmente quando recebem tratamento estável por mais de 1 ano
- Tais pacientes são considerados super-respondentes ou “awakeners”, uma vez que podem ficar suficientemente bem para obter emprego, viver de forma independente e manter relacionamentos de longa duração
- Continuar o tratamento até atingir um platô de melhora
- Depois de atingir um platô satisfatório, continuar o tratamento por no mínimo 1 ano depois do primeiro episódio de psicose
- Para segundo episódio de psicose ou episódios subsequentes, poderá ser necessário continuar o tratamento indefinidamente
- Mesmo para primeiros episódios de psicose, pode ser preferível continuar o tratamento indefinidamente a fim de evitar episódios subsequentes
Se não funcionar
- Tentar um dos outros antipsicóticos de primeira linha (risperidona, olanzapina, quetiapina, ziprasidona, aripiprazol, paliperidona, asenapina, iloperidona, lurasidona)
- Se duas ou mais monoterapias antipsicóticas não funcionarem, considerar clozapina
- Alguns pacientes podem requerer tratamento com um antipsicótico convencional
- Se nenhum antipsicótico atípico for efetivo, considerar doses mais altas ou potencialização com valproato ou lamotrigina
- Considerar a não adesão e trocar por outro antipsicótico com menos efeitos colaterais ou por um antipsicótico que possa ser dado por injeção depot
- Considerar início de reabilitação e psicoterapia, como a remediação cognitiva
- Considerar a presença de abuso de substância concomitante
Melhores combinações de potencialização para resposta parcial ou resistência ao tratamento
- Ácido valproico (valproato, divalproex, divalproex ER)
- A potencialização da amissulprida não foi estudada sistematicamente
- Outros anticonvulsivantes estabilizadores do humor (carbamazepina, oxcarbazepina, lamotrigina)
- Lítio
- Benzodiazepínicos
Dosagem e uso
Variação típica da dose
- Esquizofrenia: 400 a 800 mg/dia em 2 doses
- Sintomas negativos apenas: 50 a 300 mg/dia
- Distimia: 50 mg/dia
Como dosar
- Dose inicial de 400 a 800 mg/dia em 2 doses; doses diárias acima de 400 mg devem ser divididas em 2; máximo geralmente de 1.200 mg/dia
- Ver também a seção “A arte da troca”, a seguir, depois da seção Dicas
Dicas para dosagem
- Pode ser obtida eficácia para sintomas negativos em doses mais baixas, enquanto a eficácia para sintomas positivos pode requerer doses mais altas
- Pacientes que recebem doses baixas podem precisar tomar a substância apenas 1 vez por dia
- Para distimia e depressão, usar somente doses baixas
- Prolongamento de QTc dose-dependente, portanto, usar com cautela, especialmente em doses mais altas (> 800 mg/dia)
- A amissulprida pode se acumular em pacientes com insuficiência renal, requerendo diminuição da dosagem ou troca por outro antipsicótico para evitar prolongamento de QTc nesses indivíduos
- O tratamento deve ser suspenso se a contagem absoluta de neutrófilos cair abaixo de 1.000/mm³
Overdose
- Sedação, coma, hipotensão, efeitos colaterais extrapiramidais
Uso prolongado
- Amissulprida é usada para tratamento de esquizofrenia aguda e crônica
Formação de hábito
- Não
Como interromper
- Ver a seção “A arte da troca” de agentes individuais para como interromper amissulprida
- A descontinuação rápida pode levar a psicose de rebote e piora dos sintomas
Farmacocinética
- Meia-vida de eliminação de aproximadamente 12 horas
- Excretada basicamente inalterada
Mecanismos de interações medicamentosas
- Pode reduzir os efeitos de levodopa, agonistas dopaminérgicos
- Pode aumentar os efeitos de substâncias anti-hipertensivas
- Os efeitos no SNC podem ser aumentados se usada com um depressor do SNC
- Pode intensificar o prolongamento do intervalo QTc de outras substâncias capazes de prolongá-lo
- Como a amissulprida só é fracamente metabolizada, são esperadas poucas interações medicamentosas que possam elevar seus níveis plasmáticos
Outras advertências/precauções
- Usar com cautela em pacientes com abstinência alcoólica ou transtornos convulsivos devido a possível diminuição do limiar convulsivo
- Caso se desenvolvam sinais de síndrome neuroléptica maligna, o tratamento deve ser imediatamente descontinuado
- Como a amissulprida pode, de modo dose-dependente, prolongar o intervalo QTc, usar com cautela em pacientes que têm bradicardia ou estão tomando substâncias que possam induzir bradicardia (p. ex., betabloqueadores, bloqueadores dos canais de cálcio, clonidina, digitálicos)
- Como a amissulprida pode, de modo dose-dependente, prolongar o intervalo QTc, usar com cautela em pacientes que têm hipocalemia e/ou hipomagnesemia ou estão tomando substâncias capazes de induzir hipocalemia e/ou magnesemia (p. ex., diuréticos, laxativos estimulantes, anfotericina B intravenosa, glicocorticoides, tetracosactida)
- Usar somente com muita cautela em doença de Parkinson ou demência com corpos de Lewy, sobretudo em altas doses
Não usar
- Se o paciente tiver feocromocitoma
- Se o paciente tiver tumor dependente de prolactina
- Se a paciente estiver grávida ou amamentando
- Se o paciente estiver tomando agentes capazes de prolongar significativamente o intervalo QTc (p. ex., pimozida; tioridazina; antiarrítmicos selecionados, como quinidina, desoprimida, amiodarona e sotalol; antibióticos selecionados, como moxifloxacina e esparfloxacina)
- Se houver história de prolongamento de QTc ou arritmia cardíaca, infarto agudo do miocárdio recente, insuficiência cardíaca descompensada
- Se o paciente estiver tomando ciprasida, eritromicina intravenosa ou pentamidina
- Em crianças
- Se houver uma alergia comprovada a amissulprida
Potenciais vantagens e desvantagens
Potenciais vantagens
- Não tão claramente associada a ganho de peso quanto alguns outros antipsicóticos atípicos
- Para pacientes que respondem aos efeitos de ativação em baixa dosagem que reduzem sintomas negativos e depressão
Potenciais desvantagens
- Pacientes que têm dificuldade para aderir à dosagem 2 vezes ao dia
- Pacientes para quem a prolactina elevada pode não ser desejável (p. ex., mulheres possivelmente grávidas; meninas púberes com amenorreia; mulheres pós-menopausa com baixo nível de estrogênio que não fazem terapia de reposição hormonal)
- Pacientes com insuficiência renal grave
Dicas
- A eficácia foi particularmente bem demonstrada em pacientes nos quais predominam sintomas negativos
- O aumento na prolactina causado pela amissulprida pode interromper a menstruação
- Alguns pacientes resistentes ao tratamento com respostas inadequadas à clozapina podem se beneficiar com a potencialização com amissulprida
- Risco de diabetes e dislipidemia não bem estudados, mas não parece causar tanto ganho de peso quanto outros antipsicóticos atípicos
- Tem propriedades antipsicóticas atípicas (i.e., ação antipsicótica sem uma alta incidência de efeitos colaterais extrapiramidais), especialmente em baixas doses, mas não é um antagonista da serotonina e da dopamina
- Faz a mediação das suas propriedades antipsicóticas atípicas por meio de novas ações nos receptores dopaminérgicos, talvez ações agonistas parciais de estabilização da dopamina nos receptores dopaminérgicos 2
- Pode ser mais antagonista da dopamina 2 do que o aripiprazol, porém menos do que outros antipsicóticos atípicos ou convencionais
- As ações de ativação com baixa dosagem podem ser benéficas para sintomas negativos na esquizofrenia
- Doses bastante baixas podem ser úteis na distimia
- Comparada à sulpirida, a amissulprida tem melhor biodisponibilidade oral e maior potência, permitindo assim dosagem mais baixa, menor ganho de peso e menos efeitos colaterais extrapiramidais
- Comparada a outros antipsicóticos atípicos com antagonismo potente de serotonina 2A, a amissulprida pode ter mais efeitos colaterais extrapiramidais e elevação de prolactina, mas ainda pode ser classificada como um antipsicótico atípico, particularmente em baixas doses
- Os pacientes têm respostas antipsicóticas muito semelhantes a qualquer antipsicótico convencional, o que é diferente dos antipsicóticos atípicos em que as respostas antipsicóticas de pacientes individuais às vezes podem variar muito de um antipsicótico atípico para outro
- Pacientes com respostas inadequadas a antipsicóticos atípicos podem se beneficiar da determinação dos níveis plasmáticos da substância e, se baixos, de um aumento na dosagem ainda além dos limites de prescrição usuais
- Pacientes com respostas inadequadas a antipsicóticos atípicos também podem se beneficiar de uma tentativa de potencialização com um antipsicótico convencional ou troca por um antipsicótico convencional
- Entretanto, polifarmácia de longa duração com a combinação de um antipsicótico convencional com um antipsicótico atípico pode unir seus efeitos colaterais sem claramente potencializar a eficácia de cada um
- Para pacientes resistentes ao tratamento, especialmente aqueles com impulsividade, agressão, violência e autolesão, polifarmácia de longo prazo com 2 antipsicóticos atípicos ou com 1 antipsicótico atípico e 1 antipsicótico convencional pode ser útil ou mesmo necessária mediante atento
- Em tais casos, pode ser benéfico combinar 1 antipsicótico depot com 1 antipsicótico oral
- Embora seja uma prática frequente de alguns prescritores, acrescentar dois antipsicóticos convencionais tem pouca lógica e pode reduzir a tolerabilidade sem claramente melhorar a eficácia
A arte da troca
Troca de antipsicóticos orais para amissulprida
- É aconselhável iniciar amissulprida em uma dosagem intermediária e aumentar a dose rapidamente por 3 a 7 dias
- A experiência clínica tem mostrado que asenapina, quetiapina e olanzapina devem ser reduzidas lentamente, por um período de 3 a 4 semanas, para permitir que os pacientes se readaptem à retirada do bloqueio dos receptores colinérgicos, histaminérgicos e alfa-1
- Clozapina deve sempre ser reduzida lentamente, por um período de 4 semanas ou mais
- Benzodiazepínico ou medicação anticolinérgica podem ser administrados durante a titulação cruzada para ajudar a aliviar efeitos colaterais como insônia, agitação e/ou psicose
Referência
Conteúdo originalmente publicado em: STAHL, S. M. Fundamentos de psicofarmacologia de Stahl: guia de prescrição. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 834 p.
Leituras sugeridas
Burns T, Bale R. Clinical advantages of amisulpride in the treatment of acute schizophrenia. J Int Med Res 2001;29(6):451–66.
Curran MP, Perry CM. Spotlight on amisulpride in schizophrenia. CNS Drugs 2002;16(3):207–11.
Komossa K, Rummel-Kluge C, Hunder H, et al. Amisulpride versus other atypical antipsychotics for schizophrenia. Cochrane Database Syst Rev 2010;(1):CD006624.
Leucht S, Pitschel-Walz G, Engel RR, Kissling W. Amisulpride, an unusual “atypical” antipsychotic: a meta-analysis of randomized controlled trials. Am J Psychiatry 2002;159(2):180–90.
*Revisão dos nomes comerciais e apresentações
Felipe Mainka
Autores
Stephen M. Stahl