Deficiência intelectual moderada - Caso clínico
O caso clínico
Identificação
M., 15 anos, sexo masculino, branco, cursa o 9o ano do ensino fundamental.
Queixa principal
Dificuldade na escola, tanto no aprendizado como na interação com seus pares.
História
Avó do paciente refere que, quando pequeno, ele já apresentava dificuldades e atraso em relação às outras crianças. Aos 4 anos, passou por serviço de atendimento multidisciplinar e realizou avaliação neuropsicológica, obtendo diagnóstico de deficiência intelectual leve e transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH); foi mantido o acompanhamento com neurologista. Atualmente, o paciente passa a maior parte do tempo em casa, não tem amigos e interage apenas com o irmão mais novo. Não tem crítica quanto a se trocar na frente de outras pessoas e não sabe lidar com dinheiro. Na escola, nunca conseguiu o desempenho esperado para a idade.
Gestação e parto
Primeiro filho de prole de dois; casal não consanguíneo; pré-natal sem intercorrências; nascido a termo, de parto normal, pesando 2.800 g e medindo 48 cm. Anoxia neonatal e icterícia.
Desenvolvimento neuropsicomotor
Não se observaram anormalidades, exceto atraso no controle esfincteriano noturno (enurese noturna).
Antecedentes pessoais
Aos 4 anos, caiu de altura de aproximadamente 1 m, sem relato de sequelas.
Contexto familiar Pai falecido. Família com dificuldade de compreensão das limitações do paciente e da necessidade de estimulação.
Antecedentes familiares
Casos de epilepsia na família (não especificados).
Exame psíquico
Bom estado geral, vestes compostas, fácies atípica, vígil, desatento. Apresenta agitação psicomotora e baixo controle dos impulsos. Estabelece bom contato. Pensamento com curso e conteúdos normais. Crítica rebaixada. Linguagem receptiva e expressiva aquém do esperado para idade e escolaridade. Desorientado em relação a tempo e espaço. Compreensão e inteligência parecem prejudicadas. Aparenta ansiedade (rói unhas). Humor eutímico. Não se observam distúrbios sensoperceptivos.
Exame neurológico
Sem anormalidades.
Avaliação psicológica Não conseguiu escrever palavras e resolver operações matemáticas simples quando solicitado. À WISC, apresentou QI total < 50, QI verbal = 51 e QI execução < 45. Cognitivamente, evidenciou velocidade de processamento alentecida, perseveração, impulsividade e crítica rebaixada. Prejuízo em manipulação de informações (memória operativa). Dificuldade de expressão visuoespacial gráfica. Ao Teste Wisconsin de Classificação de Cartas (WCST), não conseguiu planejar suas ações nem elaborar estratégias adequadas para a solução de problemas, com prejuízo na antecipação das consequências. À Escala de Comportamento Adaptativo de Vineland, mostrou quociente de desenvolvimento (QD) de 60, obtendo classificação de déficit profundo.
Exames complementares
Cariótipo normal; X frágil normal; tomografia e EEG sem anormalidades.
Avaliação funcional
Apontou prejuízos significativos em habilidades comunicacionais, de socialização e de atividades de vida diária (AVDs).
Hipótese diagnóstica1
Deficiência intelectual moderada
Família desorganizada, dinâmica satisfatória, porém sem compreensão das reais limitações do paciente
Dificuldades em independência e autonomia.
Como se chegou a essa estrutura diagnóstica? Pode-se pensar da seguinte forma:
PASSO 1
QUAL É A QUEIXA?
Dificuldade na aquisição das habilidades acadêmicas desde o início da escolarização.
PASSO 2
DETECTANDO O FATOR ESCOLAR COMO CAUSA
Conforme se pode observar nos dados da história, antes do período de escolarização o paciente já apresentava dificuldade em acompanhar seus pares.
PASSO 3
PESQUISANDO E EXAMINANDO O PACIENTE QUANTO A SEU FUNCIONAMENTO SENSORIAL
Os exames neurológico e psiquiátrico não apresentam indícios de nenhum comprometimento.
PASSO 4
PESQUISANDO E EXAMINANDO O PACIENTE QUANTO A SEU FUNCIONAMENTO COGNITIVO
O exame psiquiátrico mostra rebaixamento da eficiência intelectual, fato confirmado pela avaliação psicológica realizada por meio da escala WISC. A alteração atencional é ligada ao déficit cognitivo global.
PASSO 5
EXCLUÍDA A HIPÓTESE DE ALTERAÇÃO NEUROLÓGICA OU QUADRO PSICÓTICO, QUE FUNÇÕES PODEM ESTAR ALTERADAS?
Não consegue planejar suas ações nem elaborar estratégias, apresentando especial prejuízo na antecipação das consequências. Cognitivamente, evidenciou velocidade de processamento alentecida, perseveração, impulsividade e crítica rebaixada. Apresentou prejuízo em manipulação de informações (memória operativa) e dificuldade de expressão visuoespacial gráfica.
PASSO 6
PENSANDO O RESULTADO DAS TESTAGENS
Os resultados obtidos por meio da avaliação psicológica mostram funcionamento intelectual abaixo de QI 70 e comprometimento nas habilidades adaptativas.
PASSO 7
PENSANDO AS COMORBIDADES CLÍNICAS
Nenhuma alteração objetiva foi verificada na avaliação neurológica nem nos exames complementares executados.
PASSO 8
PENSANDO A DINÂMICA FAMILIAR
Pai falecido. Família com dificuldade de compreensão das limitações do paciente e da necessidade de estimulação.
PASSO 9
PENSANDO A FUNCIONALIDADE DO PACIENTE
Paciente com dificuldades importantes no que se refere a sua independência e autonomia.
Conduta
Sugeriram-se:
- Intervenção comportamental (psicologia e terapia ocupacional) baseada em análise comportamental para desenvolvimento de habilidades de independência e autonomia.
- Acompanhamento psicopedagógico.
- Orientação e organização do ambiente escolar.
- Orientação familiar para compreensão das limitações e instrução para estimulação adequada.
- Considerar curso de profissionalização.
Comentários
Paciente não recebeu atendimento especializado, tampouco a estimulação necessária para o desenvolvimento de habilidades de independência e autonomia. Observa-se piora no quadro em virtude do aumento das exigências com o aumento da idade. Assim, verifica-se que, com o passar do tempo, o paciente apresenta maior defasagem entre sua idade e seu funcionamento mental. Ademais, apesar do nível de escolaridade, o paciente não adquiriu o conhecimento acadêmico esperado.
Acesse informações sobre o que é Deficiência intelectual.
Referências
Este conteúdo foi originalmente publicado em: Assumpção Jr FB (Org.). Psiquiatria da Infância e da Adolescência: Casos Clínicos. Porto Alegre: Artmed; 2014.
- American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5: DSM-5. 5.ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
Adaptação editorial
Malu Macedo
Autores
Francisco B. Assumpção Jr.
Alessandra Freitas Russo
Carolina Rabello Padovani
Cristina Maria Pozzi
Evelyn Kuczynski
Marília Penna Bernal
Melanie Mendoza
Milena de Oliveira Rossetti